Para Fiocruz, Rio pode precisar de lockdown intermitente por até 2 anos

Entenda quais são os principais pontos do relatório que foi enviado ao governo e à prefeitura

O relatório da Fiocruz enviado ao governo do estado e à prefeitura do Rio nesta quarta é bastante duro e assertivo na defesa de adoção de medidas mais rígidas de isolamento. Segundo a Fundação, a adoção tardia de lockdown “resultaria em uma catástrofe humana de proporções inimagináveis para um país com a dimensão do Brasil”. A nota analisa ainda que, dado a inexistência de vacina, ações de lockdown podem ser usados de forma intermitente, ou seja, acionado e depois relaxado alternadamente, por um longo período, de 18 a 24 meses.

A Fiocruz respondeu que o objetivo do novo relatório é “salvar vidas” e que se baseia “em análises técnico-científicas”. Uma projeção feita pelos pesquisadores mostra que, de acordo com o panorama atual, entre os dias 13 de maio e 22 de julho, o estado não teria leitos de UTI, seja da rede pública ou privada, para ofertar. Outra projeção mostra que o coronavírus deve se espalhar por praticamente todo o estado, mesmo naqueles municípios que hoje têm menos de 50 casos.

Lockdown: ‘A medida será tomada tardiamente’, diz especialista

A medida, porém, não é simples, e portanto deverá ser acompanhado de uma série de ações promovidas pelo poder público. O governo do Rio, apos receber uma recomendação do Ministério Público, precisa dar respostas até esta quinta, sobre resultado de seus estudos em relação a um lockdown. Segundo o conselho que assessora o governador Wilson Witzel no tema, juristas estão sendo consultados para se analisar a viabilidade de adotar a medida.

Especialista do comitê de notáveis, que assessora o governo do estado sobre Covid-19, a pneumologista Margareth Dalcomo, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, concorda com outros especialistas: o lockdown já deveria ter sido implantado.

“A medida será tomada tardiamente. Isso deveria ter acontecido há três semanas quando a situação não era tão dramática”, disse.

Entenda os principais tópicos do relatório

– Se adequar à realidade de cada região
número de casos, óbitos, tendência de casos, disponibilidade de leitos, oferta de profissionais de saúde, e adesão ao isolamento precisam ser analisados para se tomar medidas.

– Apoio econômico
“por se tratar de uma crise de proporções sanitárias e humanitárias, ressalta-se que a implantação de lockdown no estado do RJ não pode acontecer sem a respectiva adoção de medidas de apoio econômico e social às populações vulneráveis, particularmente as que dependem de trabalho informal ou precário, bem como suporte a pequenas empresas que geram empregos e podem sofrer grande impacto da pandemia”. A nota, então, defende adoções de ações como transferências de renda; ações de segurança alimentar e nutricional; proteção ao emprego (apoio aos autônomos, aos microempreendedores individuais, aos pequenos negócios locais).

– Uso intermitente
: “Possivelmente, essas medidas serão acionadas e repetidas durante um longo período, já que, até o presente momento, não há perspectiva de término desta situação de crise sanitária e humanitária nos próximos 18 a 24 meses”.

– Preocupação com avanço sobre áreas vulneráveis
: Isolamento, que é importante, teve queda de adesão recente, por isso é preciso se preocupar ainda mais com regiões carentes, que não tem acesso fácil a equipamentos de saúde e saneamento básico.

– Interiorização do vírus
a Fiocruz fez gráficos com projeção da pandemia atingir municípios do interior. O risco é de espalhamento em quase todo o estado, excetuando poucas cidades ao norte. A probabilidade é alta até entre municípios que hoje tem menos de 50 casos notificados.

– Oferta de leitos total
– Fiocruz projeta que o período entre os dias 3 de junho a 1 de julho seja o pico negativo de oferta de leitos de UTI e de enfermaria. Além disso, dos dias 13 de maio a 22 de julho o número de leitos de UTI, considerando a oferta atual, ficaria abaixo da demanda. Ou seja, com oferta negativa.

– Readequação no sistema se saúde
As Unidades básicas de saúde e unidades de urgência precisam dispôr de ambientes separados para pacientes com sintomas respiratórios. Testes precisam existir para todos casos sintomáticos, e leitos impedidos, principalmente na rede federal, precisam ser retomados.

– Fila única de leitos, integrando redes privada e pública
: essa ação é defendida por diversos especialistas em saúde, já que muitos hospitais privados estão com leitos ociosos devido à suspensão de cirurgia eletiva. Para a Fiocruz, “a existência de fluxos claros e de centrais públicas, únicas e integradas de regulação do conjunto de leitos disponíveis (federais, estaduais, municipais e privados) são importantes para tornar mais ágil e racional o fluxo de pacientes no sistema, diminuindo o risco de contágio, aumentando a sobrevida dos pacientes, a eficiência, a efetividade e a equidade no uso dos recursos disponíveis.

– Saída de lockdown
A abertura ocorreria a partir de: “dados epidemiológicos confiáveis que apontem queda da incidência por no mínimo 15 dias; disponibilidade de recursos para assistência a casos graves: capacidade ociosa de leitos de 30 a 50%; disponibilidade de testes diagnósticos para a identificação de casos de infecção (testes moleculares) e para inquéritos sorológicos (testes sorológicos) que permitam conhecer em que regiões o vírus está circulando e a proporção da população já infectada”.

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