Pandemia da pobreza: desemprego muda perfil da população de rua do Rio

Autoridades e entidades que lidam com a população em situação de rua não têm pesquisa atualizada, mas a prefeitura do Rio já identificou o aumento

“A rua não é lugar para nenhum ser humano viver, mas foi o único que me acolheu”. O desabafo do pedreiro José Carlos Corrêa, de 54 anos, reflete o drama de quem não tem conseguido trabalho durante a pandemia do novo coronavírus. Sem ter como pagar o aluguel de R$ 300 da quitinete onde morava na Zona Norte, José Carlos perambula há dois meses pela cidade e depende da solidariedade para sobreviver. A cada noite, ele dorme sob uma marquise diferente no Centro do Rio.

— Com os bicos que eu conseguia, pagava o meu aluguel. Sou de São Luís do Maranhão, e há muito tempo estou no Rio fazendo de tudo um pouco. Mas, com a pandemia, a situação mudou. A gente precisa ter a cabeça no lugar para não fazer o pior. Eu sempre trabalhei, e hoje preciso da ajuda das pessoas para comer.

Basta percorrer a cidade para notar o crescimento dessa legião que vive ao relento. Autoridades e entidades que lidam com a população em situação de rua não têm qualquer pesquisa atualizada, mas a própria prefeitura do Rio já identificou o aumento desse grupo. O perfil de quem passou a enfrentar a falta de moradia nos últimos meses também é diferente. O coordenador do Instituto Nacional de Direitos Humanos da População de Rua (Inrua), o antropólogo Tomas Melo, disse que, em todas as capitais, as ruas têm sido o destino de muitos que perderam o emprego durante a pandemia:

— Num primeiro momento, essas pessoas ficavam nas ruas para conseguir comida e economizar para outras despesas, como aluguel. Mas, com o agravamento da crise, elas viram sumir todas as oportunidades de trabalho e tiveram que ficar nas ruas. São pessoas que não têm essa vivência. Muitas estão com malas, bolsas, algo muito incomum. A grande maioria morava em comunidades.

É o caso do pintor de cenários Paulo Nogueira, de 56 anos. Separado, pai de quatro filhos e ex-morador do Caju, ele perdeu o emprego em 20 de março e se viu obrigado a viver nas ruas. Carregando duas bolsas de viagem, ele percorre o Centro em busca de trabalho e da solidariedade das “almas boas e caridosas”, como chama as pessoas que fazem doação de alimentos.

— A sensação é a pior que existe. Hoje eu moro debaixo das marquises. É muito humilhante. Eu tive que deixar o orgulho de lado e recorrer à rua — conta Paulo, pouco antes de receber uma quentinha distribuída por freis do Convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca, na noite da última segunda-feira.

Com vergonha de contar aos parentes que está desempregado e sem lugar para morar, desde que teve que entregar o imóvel que alugava, Paulo diz à família que vive na casa de um amigo. Mas, apesar do que tem enfrentado, ele acredita em dias melhores:

— Peço a Deus sabedoria para lidar com essa situação. Não estou aqui à toa, e essa será mais uma superação.

O vendedor ambulante Marcelo Barbosa, de 53 anos, também tem recorrido à ajuda do convento para comer. Com a clientela longe das ruas, teve que deixar o cômodo que alugava na Favela do Jacarezinho há dois meses e foi viver nas ruas:

— O que mais me dói é não poder voltar a alugar um quartinho, sair da rua, trabalhar. Estou tentando, mas não consigo.

Coordenador do projeto “Tenda Franciscana”, o frei Diego Melo disse que é comum encontrar pessoas como José, Paulo e Marcelo na fila de distribuição de quentinhas no Convento de Santo Antônio. O projeto começou em São Paulo e foi trazido para o Rio há um mês devido à pandemia. Por dia, são entregues 350 refeições no almoço e 150 no jantar.

— Sentimos que era preciso fazer esse trabalho no Rio — disse o religioso. — Notamos um aumento do número de pessoas que perderam o emprego e estão nas ruas precisando de ajuda. Há duas semanas, uma mulher, de aproximadamente 40 anos, veio aqui e pediu um cobertor, porque seria sua primeira noite nas ruas. Ela trabalhava em um restaurante que fechou. Perdeu o emprego e foi despejada.

No estado, 60 mil nas ruas

O Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública do Rio estima que 60 mil pessoas estejam vivendo hoje nas ruas do estado, 17 mil delas na capital. Apesar de não haver uma pesquisa anterior, a defensora pública Carla Beatriz Maia afirma que, nos últimos meses, houve um crescimento desse grupo, inchado por pessoas que não conseguem trabalho por causa da pandemia. Os novos sem-teto, segundo ela, tinham emprego e residência fixa há até bem pouco tempo. O problema não se restringe à capital. Carla Maia ressalta que as marquises de Angra dos Reis, Vassouras e Friburgo têm sido cada vez mais ocupadas.

— Aumentou muito o número de moradores em situação de rua em todo o estado. E na pandemia, piorou. Esse crescimento absurdo é reflexo da falta de políticas públicas — criticou.

Feito em 2016, o último censo oficial mostrava que a cidade tinha 14 mil pessoas em situação de rua. A secretária municipal de Assistência Social e Direitos Humanos, Jucelia Oliveira Freitas, a Tia Ju, disse que a prefeitura estava fazendo um novo levantamento, que foi interrompido com o avanço da Covid-19.

— Percebemos que houve um aumento de pessoas nas ruas com um perfil diferente daquele que costumamos atender. São homens, na sua maioria, e mulheres que estão sem moradia porque perderam renda com a pandemia.

A mudança no perfil dos atendimentos ainda não se expressa em números. Tia Ju garante que a Secretaria fez 37 mil atendimentos, entre janeiro e junho do ano passado,mas não informou quantos eram acolhimentos. Este ano, houve, até agora, 32.47 atendimentos, sendo 7.192 acolhimentos. Mas ela acredita que, sem o auxílio emergencial da União, o empobrecimento seria maior e mais pessoas estariam nas ruas.

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