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O que pensam os 37 milhões de eleitores 'nem-nem'

Pesquisa do Zeitgeist Public Affairs mostra que quase 80% desses brasileiros não têm afinidade com a esquerda ou a direita

Feira, em São Paulo: eleitores 'nem-nem' querem um debate sobre ideias concretas para suas vidas, como a inflação de alimentos (Ricardo Moraes/Reuters)

Feira, em São Paulo: eleitores 'nem-nem' querem um debate sobre ideias concretas para suas vidas, como a inflação de alimentos (Ricardo Moraes/Reuters)

Luciano Pádua
Luciano Pádua

Editor de Macroeconomia

Publicado em 1 de julho de 2023 às 18h06.

Nas últimas eleições, 37,8 milhões de brasileiros escolheram não votar nem em Jair Bolsonaro (PL) nem em Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Observar esse relevante contingente de eleitores será essencial tanto para a aprovação do atual presidente, Lula, quanto para os candidatos do próximo ciclo eleitoral, cujas especulações avançam após a condenação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que tornou Bolsonaro inelegível até 2030. Em um cenário político altamente polarizado, o futuro do país tende a se concentrar nesses milhões de eleitores "nem nem".

A pesquisa "A cabeça do eleitor nem-nem", da Zeitgeist Public Affairs, que reúne os institutos Locomotiva e IDEIA, dá algumas pistas sobre como pensam e se posicionam esses brasileiros que, segundo o documento, são aqueles avessos ao modelo radicalizado de fazer política.

"A pesquisa revela que o "nem-nem" é antes de tudo um sujeito que não se interessa pelos temas da política tradicional, pelos temas de costumes, das urnas eletrônicas. Para ser conquistado, é um eleitor precisa com que a discussão política deixe de ser baseada na agressão e passe a ser focada em ideias", diz Renato Meirelles, presidente e fundador do Instituto Locomotiva.

Segundo ele, os "nem-nem" se interessam por ideias concretas que interfiram no seu dia a dia. "É o eleitor que quer saber sobre o aumento do salário-mínimo, se teremos ou não mais vagas nas universidades e que estão altamente preocupados com a inflação", afirma.

Milhões à margem da polarização

Praticamente oito em dez pessoas desse contingente eleitoral não se identificam em uma escala ideológica entre a esquerda e a direita. Perguntados sobre a sua posição, eles responderam:

  • 41% disseram nunca ter posição política
  • 18% disseram já ter tido posição política e hoje não têm mais
  • 19% não souberam responder

Entre os politicamente posicionados, a situação foi a seguinte:

  • 10% se disseram de direita (centro-direita, direita e extrema direita)
  • 7% se disseram de esquerda (centro-esquerda, esquerda e extrema esquerda)
  • 6% se disseram centro

"Quando quase 8 de cada 10 eleitores nem-nem não se posicionam nem como esquerda, centro ou direita, fica claro que essa radicalização ideológica não interessa a essa parcela do eleitorado", diz Meirelles.

Democracia, economia, segurança e costumes

No estudo, os pesquisadores apresentaram teses mais ligadas à esquerda e à direita para esses eleitores em grandes temas como democracia, economia, segurança pública e costumes.

O resultado, que pode ser visto abaixo, mostra que a maior parte desse grupo tem poucas convicções a respeito de teses com posicionamento claro para assuntos ligados aos temas da democracia e economia -- e tendem a ter mais afinidade com teses de esquerda em segurança pública e costumes.

A exceção é o tópico do aborto, cuja afinidade é maior com a tese de direita. Alguns temas, como abordagem às drogas, dividiram os eleitores.

(Zeitgeist Public Affairs/Divulgação)

Em relação às vacinas por exemplo, os pesquisadores mostraram duas teses:

  • "A vacina contra covid-19 foi muito importante para reduzir as mortes, e pessoas que a questionaram foram irresponsáveis"
  • "A vacina contra covid-19 não era segura e as pessoas que a questionaram estavam corretas"
Entre os respondentes, 52% disseram que a primeira tese representava melhor a sua opinião.

Nas questões econômicas, chama a atenção o alto nível de pessoas que não souberam ou não quiseram responder quando perguntadas sobre cobrança de impostos para oferta de serviços públicos, intervenção do governo na economia e a possibilidade de o governo forçar a queda de juros.

Em todas, quase 60% optaram por não se alinhar às teses apresentadas.

Um caso emblemático da pesquisa foi a pergunta sobre o aborto. Nela, 42% responderam que o aborto deveria ser um crime contra 25% concordaram com a tese de que não deveria ser um crime -- 33% não souberam responder.

Arrependidos?

Outro recorte da pesquisa, mostrou que apenas 5% dos eleitores de Bolsonaro se declararam arrependidos de votar no militar em 2022. Em relação ao presidente Lula, esse dado foi de 7%.

Com a inelegibilidade do ex-capitão confirmada, já começam as especulações a respeito de quem herdará o seu capital político. O político mais apontado no momento é o atual governador de São Paulo, e ex-ministro, Tarcísio Freitas.

De acordo com a pesquisa, entre os eleitores de Bolsonaro, 54% avaliam haver outras pessoas com força para representar o campo político da direita no Brasil, mesmo sem apoio do ex-presidente.

Isso significa que, para 46% deles, a figura de Bolsonaro é indispensável para representar a direita.

Um desafio e tanto para um potencial candidato de direita que precisará convencer os eleitores do ex-presidente e se comunicar com os "nem-nem", que não se interessam pela radicalização do discurso político.

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