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Eleitor de baixa renda do Nordeste deve decidir eleição, diz diretor da Eurasia

Em entrevista à EXAME, Christopher Garman afirma que a eleição de 2026 deve ser decidida por uma fatia de cerca de 10% do eleitorado

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 14 de fevereiro de 2026 às 09h30.

Há algumas máximas sobre a eleição presidencial no Brasil. Uma das principais está relacionada à ideia de que uma vitória em Minas Gerais — um estado que seria o espelho do Brasil — garantiria o triunfo no fim da votação no segundo turno.

Para 2026, a história deve ser diferente. Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas da consultoria de risco político Eurasia, avalia que a disputa do voto na região Nordeste será crucial para quem quiser vencer o pleito.

"Muitos gostam de dizer que Minas, São Paulo e Rio vão decidir. Acho que o campo de batalha do Nordeste vai ser importante para decidir a eleição", afirma em entrevista exclusiva à EXAME.

Hoje, os nove estados do Nordeste têm quase 40 milhões de eleitores.

Garman argumenta que pesquisas qualitativas da Eurasia mostram que esse eleitor, que historicamente votou em Lula e no PT, está mais preocupado com a segurança pública, tema em que a gestão petista navega com dificuldades.

"Quem está mais preocupado com segurança é a baixa renda do Nordeste", diz Garman. "Se o calcanhar de Aquiles é segurança, você tem que ir onde os eleitores estão preocupados com segurança, e estão mais no Nordeste."

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a cerimônia de entrega de Unidades Habitacionais do Minha Casa, Minha Vida no Residencial Cidade Jardim III. Fortaleza - CE (Ricardo Stuckert /Agência Brasil)

Ele afirma que em um cenário competitivo, reduzir a margem histórica do lulismo na região, ainda que em 1 ou 2 pontos percentuais, pode ser suficiente para alterar o resultado final.

“Vai ser uma eleição de tirar 1% ou 2% aqui ou ali”, diz.

Segundo o diretor da Eurasia, mesmo com indicadores favoráveis — como aumento da renda real e desemprego em torno de 5% — a economia deixou de ser fator suficiente para garantir vantagem confortável ao incumbente.

“A economia virou condição necessária, mas não suficiente”, afirma.

Para ele, se Lula vencer, será “por causa da economia”, mas em uma disputa estruturalmente competitiva.

No diagnóstico de Garman, o pano de fundo permanece o mesmo das últimas eleições: a percepção de que “o sistema está quebrado”. Esse sentimento, que impulsionou Jair Bolsonaro em 2018 e foi parcialmente incorporado pelo discurso de Lula em 2022, deve voltar ao centro do debate.

“Desde 2018 nós temos um ambiente com desejo e uma revolta contra o sistema muito forte, uma descrença no Judiciário, na mídia e nos partidos políticos. E a gente está vendo que, para ser competitivo, você tem que ter credibilidade de lutar contra o sistema”, afirma.

Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) concede entrevista.

Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) concede entrevista. (Edilson Rodrigues//Agência Senado)

Leia a entrevista completa de Christopher Garman, diretor executivo para as Américas da Eurasia

O cenário já está um pouco desenhado, com Lula candidato à reeleição e Flávio se consolidando como nome do bolsonarismo. Há paralelos com eleições anteriores, como 2018, 2022 ou 2014?

Desde a eleição de 2018, temos um ambiente com desejo e uma revolta contra o sistema muito forte. Uma descrença no Judiciário, na mídia, nos partidos políticos. Vemos que, para ser competitivo, o candidato precisa de credibilidade para lutar contra o sistema. O Bolsonaro aproveitou essa onda em 2018. Na eleição de 2022 também houve um sentimento antissistema forte. Tanto que a campanha do presidente Lula se colocou como candidato até mais antissistema, porque ele disse que os ricos e poderosos colocaram ele na prisão: 'Você pode matar uma flor, mas não pode impedir que a primavera chegue'. Esse discurso, mais anti-ricos, de colocar o pobre no orçamento. Foi um Lula que estava se adaptando para esse sentimento mais antissistema e uma percepção de que o sistema está quebrado.

E essa demanda vai se repetir? 

Nessa eleição, essa demanda vai permanecer. Olhamos indicadores comparativos. A Ipsos Public Affairs tem uma boa pesquisa global a cada ano que tenta mensurar o grau que você acredita que o sistema está quebrado. O Brasil está com uma percepção mais elevada que seus pares globalmente, e não caiu. Será outra eleição com pano de fundo de percepção de que o sistema está quebrado. O Flávio, evidentemente, vai se colocar como candidato antissistema, contra o Judiciário, a mídia, a mesma pauta do pai, do bolsonarismo. E o Lula vai fazer uma campanha de taxar os ricos para defender a classe trabalhadora. É uma campanha naquele lado de justiça tributária. Como o Lula colocou na fala do aniversário do PT, que não tem mais Lula em paz e amor, é guerra, a democracia está em jogo. Isso é uma constante. Essa eleição vai ser equivalente às últimas duas nesse aspecto.

E em relação às preocupações? 

O perfil de com o que o eleitor está preocupado está mais com uma pinta de 2018 do que das eleições de 2022. Em 2022, a preocupação principal era em temas sociais, como desigualdade, porque era no período pós-Covid e você teve esse impacto inflacionário que espremeu a renda do pessoal de menor renda. Hoje, temos um ciclo eleitoral no qual temas de segurança e corrupção estão mais importantes do que estavam quatro anos atrás. Estão um pouquinho mais semelhantes ao perfil do que os eleitores estavam preocupados em 2018. Ao mesmo tempo, estamos com a economia indo bem. Diria que o incumbente, o presidente Lula, deve ser considerado favorito. Mas a diferença é que esses indicadores econômicos não estão levando ao grau de apoio que você teria em ciclos anteriores.

"Ir bem" na economia não é mais suficiente? 

O país está dividido e a economia não está levantando o governo para percentuais de aprovação como fez no passado. Se o Lula ganhar, é por causa da economia. As pessoas fazem o equívoco de dizer que agora a economia não importa. Bobagem. Se nós não tivéssemos o aumento da renda de 19%, o desemprego a 5% e todos esses ganhos econômicos, o Lula não estaria com aprovação de 45%, 46%. Ele estaria mais baixo e ia perder. Só que é uma disputa estruturalmente competitiva a despeito dos bons resultados econômicos. Eu diria que a economia virou condição necessária, mas não suficiente.

O governo tem investido em valorizar entregas econômicas e também adotado discursos mais duros. Como você vê o desafio do incumbente em ajustar o discurso para temas que não estão diretamente ligados à economia?

O governo encontrou um discurso mais adequado com essa revolta no ano passado quando se defendeu na batalha pelo IOF. No fundo, colocou que são os ricos do Congresso que estão querendo defender privilégios da renda mais alta e que esse é um governo que está tentando defender o interesse da classe trabalhadora. Taxar os ricos para beneficiar a classe trabalhadora. Isso é um discurso antissistema.  Eu diria que eles vão usar esse mote como sendo antissistema.

Quais são as estratégias? 

Você tem duas estratégias. Uma é para um segmento com o qual o Lula não vai bem; outra é para conter danos passivos. Claramente, o Planalto está corretamente avaliando que eles estão bem entre o eleitorado de baixa renda, mas têm dificuldades na classe média de dois a cinco salários mínimos. Se você vê as iniciativas, como isentar quem ganha até R$ 5.000, isso começou em janeiro, mas o efeito vai ser sentido ao longo do ano. Eles vão fazer campanha de entrega para esse segmento. Medidas mais populistas também com olho nesse grupo, como a ampliação da faixa 4 do Minha Casa Minha Vida para pegar essa classe média, linha de crédito da Caixa para reforma nas casas. E aí entra a redução da jornada 6x1, para reduzir a jornada de trabalho e pegar esse segmento. Então, o Planalto está querendo atender esse segmento com o qual tem dificuldades.

E a questão da segurança pública? 

O governo tentará mitigar o calcanhar de Aquiles, que é segurança pública. Essa é a principal preocupação eleitoral. O Lula não é crível eleitoralmente nesse tema. Eles vão tentar dizer que têm uma estratégia contra o dinheiro do crime organizado e provavelmente que haverá outras operações como a que vimos contra o PCC no ano passado. A pauta no Congresso de segurança faz parte dessa estratégia. Mas é reduzir o tamanho do buraco. Não vai ser ponto forte.

E a oposição? 

Do lado da oposição, vão tentar nacionalizar o tema da segurança. Geralmente o eleitor não culpa tanto o governo federal porque é responsabilidade compartilhada. Vão tentar colocar no colo do presidente. Quem está mais preocupado com segurança é a baixa renda do Nordeste. É o eleitor do Lula. Muitos gostam de dizer que Minas Gerais, São Paulo e Rio vão decidir a eleição. Eu estou achando que o campo de batalha do Nordeste vai ser importante. Se a oposição for esperta, tem que atacar o custo de vida. O Lula caiu na aprovação do primeiro semestre do ano passado por preço de alimento no supermercado. Houve deflação depois, mas o custo de vida ainda é tema. E a oposição associou imposto com custo. Quem foi mestre nisso foi o deputado federal Nikolas Ferreira. Ele traduz custo de vida com imposto. Lei, ordem, segurança e custo de vida são os calcanhares de Aquiles do presidente.

Qual é hoje o percentual de eleitorado realmente em disputa? E qual o peso do Nordeste nesse cenário?

Se a economia continuar performando bem, com aumento de renda real e aprovação entre 45% e 48%, o que está em jogo é próximo de 10%. Em tese pode ser maior, se houver choque de alimentos e a aprovação cair para 39%, 40%. Mas com as condições econômicas dadas de hoje, é mais para 10% que está em jogo. Em março antes da eleição de 2022, a aprovação do Bolsonaro estava em 32%. Na véspera da eleição estava em 45%. Então não está dado que a base conservadora chega automaticamente a 48%, 49%. Presumindo cenário econômico favorável, é uns 10% no máximo. Vai ser uma eleição de tirar 1% ou 2% aqui ou ali [para cada candidato]. Por isso o Nordeste pode ser importante. Se você reduz a margem do Lula no Nordeste e converte 1% usando o tema de segurança, pode fazer a diferença. A noção de que Minas, São Paulo e Rio vão definir subestima o Nordeste. Se o calcanhar de Aquiles é segurança, você tem que ir onde os eleitores estão preocupados com segurança, e estão mais no Nordeste.

É factível pensar em vitória no primeiro turno de Lula diante da fragmentação da oposição ou da ausência de outro nome forte na centro-esquerda?

Existe a possibilidade de, se o PSD não lançar candidato, ou lançar alguém que fique com um, dois, três pontos percentuais, e na reta final ter voto estratégico. Se você sabe que seu candidato não vai chegar no segundo turno, você vai para o alternativo. Pode haver um segundo turno antecipado no primeiro. Eu não apostaria nisso porque há certo cansaço de lulismo e bolsonarismo. O Flávio não tem vaga garantida no segundo turno. Ele tem que fazer boa campanha. Existe possibilidade de outro nome capturar sentimento de desalento. Eu não aposto no primeiro turno, mas existe um cenário onde isso acontece.

Uma terceira via ainda é possível?

É possível, mas se o Flávio apresentar visão para o país, mostrar que está preparado para ser presidente e que não defende só interesses do pai, acho muito difícil outro nome surgir. Ele pode cometer um equívoco de fazer a pauta de defesa de liberdade e atacar o Supremo, pode ter denúncia de corrupção contra ele. Uma combinação de fatores pode levar alguém ao segundo turno. Na Eurasia, a probabilidade de o senador ir ao segundo turno é de 30%. Nossa aposta é que Flávio vai para o segundo turno, mas ele precisa fazer boa campanha.

A escolha de vice de Lula pode alterar o cenário?

Eu acho que a vaga de vice tende a ser residual em termos de eleição. O PT gostaria de ter o MDB como vice, mais tempo de televisão, mais capilaridade. Mas não vão ter. Não tem apoio dentro da diretoria do MDB, a composição dos estados não está favorável. Achamos muito difícil. Tende a ficar o Alckmin. Ele não quer ir para São Paulo, tem sido leal. Tende a ficar onde está.

No caso de Flávio, a vice pode ajudar a tornar a candidatura mais palatável?

O Flávio tem dificuldade porque parte do eleitorado não o vê como preparado para ser presidente. Ele tem que mostrar imagem de preparo, ter boa equipe ao redor. A vice pode ser parte dessa estratégia. Dizer quais são as pessoas associadas, fazer campanha nisso pode ajudar. O bolsonarismo tem dificuldade no voto feminino, então uma mulher pode ser importante. Minas é um estado importante. Ou você vai regional ou vai no passivo da mulher. Tanto Zema quanto Tereza Cristina são interessantes por razões distintas.

As costuras estaduais e para o Senado podem influenciar o cenário nacional?

Eu acho menos relevante. Os palanques nos estados seguem quem está indo bem nas pesquisas locais e quem tem popularidade no estado. PP, PSD, MDB, não é a direção nacional que decide. Se o Lula está bem no estado, o MDB local apoia. Se está mal, não apoia. Vai ser fragmentado e menos decisão nacional.

E o caso específico de Minas Gerais?

A classe política foca muito nos palanques. A gente faz pesquisa proprietária nos últimos três ciclos. Eu acho que o papel dos palanques é menos decisivo do que a classe política imagina. O eleitor pode votar para governador de um lado e presidente do outro. Se você tem campanha nacionalizada, não precisa necessariamente de palanque forte no estado. Claro que tendo nome para fazer campanha junto ajuda, mas é variável secundária, não primária. Em eleições muito apertadas, tem peso, mas não é o principal.

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