Brasil

Dívida alta, juros elevados e orçamento rígido: o desafio econômico do próximo presidente

Relatório da Moody's Ratings calcula que seria necessário superávit primário de 2% a 3% do PIB para estabilizar a dívida

Fazenda: próximo governo terá grande desafio na economia (Leandro Fonseca/Exame)

Fazenda: próximo governo terá grande desafio na economia (Leandro Fonseca/Exame)

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 8 de outubro de 2026 às 06h00.

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O próximo presidente do Brasil encontrará uma situação fiscal mais frágil, marcada por dívida pública superior a 82% do PIB, custos elevados de financiamento e forte rigidez dos gastos, segundo relatório da Moody's Ratings. A agência afirma que mais de 90% dos gastos orçamentários são obrigatórios e avalia que a definição de uma trajetória para estabilizar a dívida será o principal desafio para o perfil de crédito soberano do país.


O próximo presidente do Brasil encontrará uma dívida pública significativamente maior, juros elevados e pouca margem para cortar despesas sem apoio do Congresso, segundo relatório da Moody's Ratings.

No próximo 25 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disputam o segundo turno. O senador do PL terminou na frente na primeira etapa.

A dívida bruta do governo geral passou de cerca de 72% do PIB na eleição presidencial de 2022 para mais de 82% atualmente, e o país apresenta um dos maiores níveis de endividamento soberano entre as grandes economias da América Latina, segundo a agência.

A Moody's afirma que a estabilização da dívida e a recuperação da credibilidade fiscal serão o principal desafio de crédito soberano para o governo que assumir em 2027. Segundo uma projeção do Tesouro Nacional de abril citada no relatório, a dívida do governo geral deve alcançar aproximadamente 86% do PIB em 2027 e atingir um pico próximo de 88% em 2029, antes de iniciar uma queda gradual.

A agência calcula que seria necessário um ajuste capaz de produzir superávit primário de 2% a 3% do PIB para estabilizar a relação entre a dívida do governo geral e o PIB.

O tamanho do ajuste contrasta com déficits primários recentes próximos de 0,5% do PIB e com déficits fiscais nominais estimados entre 8% e 9% do PIB, pressionados pelos elevados custos de financiamento.

A dificuldade não está apenas no tamanho da dívida. De acordo com o relatório, mais de 90% dos gastos do Orçamento são obrigatórios. Mudanças relevantes nessa estrutura dependem do Congresso, por conta das emendas parlamentares, e, quando envolvem mandatos constitucionais de gastos, como o mínimo da educação e saúde, podem exigir aprovação de PECs.

O Congresso também controla aspectos considerados cruciais do processo orçamentário pela agência. Segundo a agência, deputados e senadores podem modificar propostas de gastos, bloquear aumentos de impostos e condicionar apoio a compromissos regionais ou setoriais. Na avaliação da Moody’s, a combinação entre a rigidez do Orçamento e a polarização política continuará sendo uma das principais restrições à consolidação fiscal.

O que a Moody's diz sobre Lula e Flávio Bolsonaro

A rigidez do orçamento também limita a distância entre as propostas de campanha e aquilo que o próximo governo conseguirá efetivamente executar. Embora a Moody’s projete estratégias fiscais diferentes para Lula e Flávio Bolsonaro, a agência ressalta que mudanças relevantes nas despesas dependerão de negociação com um Congresso fragmentado.

O relatório ressalta que as medidas fiscais específicas dos dois candidatos permanecem em grande parte indefinidas e apresenta cenários diferentes para cada eventual governo. As avaliações são projeções da agência, e não medidas já definidas pelos candidatos.

Em uma eventual reeleição de Lula, a Moody's considera provável a manutenção, em linhas gerais, do atual arcabouço fiscal, acompanhada da tentativa de melhorar as contas públicas por meio de maior crescimento econômico, medidas de receita e ganhos de eficiência nos gastos. A agência projeta, nesse cenário, uma redução apenas gradual do déficit durante o mandato de quatro anos.

No caso de uma vitória de Flávio Bolsonaro, a Moody's projeta a busca por cortes mais significativos de despesas, substituição do atual arcabouço por uma regra voltada à redução da dívida e obtenção de superávits primários. O próprio relatório ressalta, porém, que faltam detalhes sobre como esses cortes seriam implementados e que obter apoio do Congresso representaria um desafio político relevante.

Nas eleições de 2026, o PL, partido de Flávio, fez 121 deputados na Câmara e elegeu 19 senadores, chegando a uma bancada de 28 na Casa Alta.

No caso do PT, o partido elegeu 70 deputados e mais 18 de siglas que fazem parte de sua federação. No Senado, serão 9 petistas a partir de 2027.

Congresso fragmentado limita margem do próximo governo

O relatório destaca que o próximo presidente precisará negociar qualquer mudança estrutural nas despesas com um Congresso fragmentado. Mesmo o PL com mais de 100 parlamentares e o PT com a segunda maior bancada, os dois não alcançam maioria para votações.

Partidos de centro e centro-direita continuam com peso significativo nas duas Casas. Somando, o União Brasil, PSD, PP, Republicanos, MDB, Podemos e PSDB são 245 deputados eleitos a partir de 2027.

Sem apoio legislativo, afirma a agência, o próximo governo terá capacidade limitada para promover uma redução expressiva dos gastos e poderá depender mais de instrumentos do Executivo, bancos públicos, fundos especiais, mudanças regulatórias e empresas estatais.

A Moody's também avalia que o ambiente de polarização pode retardar medidas econômicas. Na avaliação da agência, disputas políticas e institucionais podem ocupar parte da agenda do próximo governo antes da adoção de reformas destinadas a corrigir os desequilíbrios fiscais.

Juros brasileiros seguem entre os maiores da região

O desafio fiscal ocorre em um ambiente de juros elevados. O gráfico da Moody's com as taxas de política monetária mostra a taxa brasileira próxima de 13,75% em outubro de 2026, depois de chegar a aproximadamente 15% no fim de 2025.

No mesmo período, o gráfico coloca a taxa colombiana perto de 12,25%, a mexicana em aproximadamente 6,5%, e Chile e Peru próximos de 4% a 4,5%. A taxa americana aparece abaixo de 4%. Como a figura não apresenta os valores escritos em cada ponto, esses números devem ser tratados como aproximações visuais.

Segundo a Moody's, as taxas reais elevadas afetam simultaneamente as finanças públicas e o setor privado ao aumentar os custos do serviço da dívida, reduzir a capacidade de pagamento e limitar investimentos.

Brasil tem dívida maior que pares latino-americanos

A comparação apresentada pela Moody's mostra uma distância significativa entre o endividamento brasileiro e o dos outros grandes países latino-americanos analisados. No terceiro trimestre de 2026, o gráfico da agência coloca a dívida brasileira próxima de 84% do PIB.

No mesmo gráfico, a dívida aparece em aproximadamente 65% do PIB na Colômbia, 54% no México, 44% no Chile e 29% no Peru. Os valores são aproximações a partir do gráfico, que não apresenta rótulos numéricos para cada barra.

Além do estoque da dívida, o custo para financiá-la ganhou peso. Segundo a Moody's, as despesas anuais com juros correspondem a aproximadamente 20% da receita do governo geral. A agência avalia que um plano de consolidação fiscal de médio prazo poderia contribuir para reduzir os prêmios de risco, as pressões inflacionárias e, posteriormente, os custos de empréstimos na economia.

Para a Moody's, um compromisso com a consolidação fiscal, acompanhado de um plano de médio prazo para reduzir gastos e estabilizar a dívida, ajudaria a recuperar a credibilidade da política fiscal brasileira, mas sua implementação dependeria da construção de apoio no Congresso.

Empresas também enfrentam pressão dos juros

O relatório prevê que crescimento econômico mais lento e renda disponível mais fraca reduzam o Ebitda agregado das empresas brasileiras em mais de 3% em 2027. Ao mesmo tempo, juros e despesas financeiras elevados devem continuar restringindo o fluxo de caixa livre.

A Moody's estima que quase um terço da dívida corporativa brasileira com rating esteja contratado a taxas flutuantes, com concentração nos setores de varejo, distribuição de combustíveis, aluguel de carros e transporte.

Segundo a agência, empresas com grau de investimento, exportadoras e companhias reguladas de infraestrutura devem continuar encontrando acesso aos mercados de capitais doméstico e internacional. A pressão tende a ser maior sobre companhias que combinam dívida elevada a taxas flutuantes, fluxo de caixa livre negativo e dependência do mercado de capitais para refinanciamento.

Empresas mais alavancadas, segundo o documento, podem enfrentar prazos menores, juros mais altos, cláusulas financeiras mais rígidas e exigências maiores de garantias, além da possibilidade de precisarem vender ativos ou buscar novos aportes de capital.

Crédito direcionado supera 24% do PIB

Outro movimento destacado no relatório é a expansão do crédito direcionado, modalidade na qual os recursos são destinados a setores ou finalidades determinadas por políticas públicas.

O gráfico da Moody's mostra que essa modalidade caiu de aproximadamente 22,7% do PIB em 2018 para menos de 20% em 2020. Depois de oscilações nos anos seguintes, iniciou uma trajetória mais consistente de alta a partir de 2023.

Em 2026, o crédito direcionado ultrapassou 24% do PIB e atingiu o maior patamar da série analisada pela agência, que começa em 2018.

A agência afirma que bancos públicos continuarão fundamentais para financiar infraestrutura, habitação, agricultura e política industrial. Ao mesmo tempo, avalia que empréstimos abaixo das taxas de mercado, garantias e rápido crescimento das carteiras podem transferir parte dos riscos para o governo que sustenta essas instituições.

Efeitos diferentes sobre bancos públicos e privados

Segundo o relatório, juros elevados, maior custo do crédito, menor capacidade de pagamento dos clientes e crescimento econômico mais fraco devem pressionar a qualidade dos ativos e os resultados dos bancos brasileiros após a eleição. A Moody's ressalta, porém, que a forte capitalização do sistema bancário e a recorrência dos lucros oferecem capacidade para absorção de perdas.

Os efeitos devem variar conforme o modelo de negócios. Os bancos públicos tendem a continuar utilizando o crédito como instrumento de política pública caso os programas governamentais sejam mantidos ou ampliados. Uma mudança na orientação do governo, segundo a Moody's, poderia reduzir essa disposição.

Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES são apontados no relatório como canais relevantes do crédito patrocinado pelo governo para agricultura, habitação, infraestrutura e desenvolvimento social.

As pequenas e médias empresas representam quase 20% dos empréstimos brasileiros, segundo o documento, e são consideradas mais vulneráveis ao aperto das condições financeiras e às restrições de refinanciamento do que grandes companhias com acesso ao mercado de capitais.

Intervenção estatal também entra na avaliação de risco

A Moody's afirma que a política do próximo governo para empresas estatais, setores regulados e bancos públicos terá influência sobre as condições de crédito e investimento.

Segundo a agência, intervenções governamentais sobre preços, emprego ou atividade industrial podem afetar decisões sobre dividendos, investimentos, compras, nomeações para conselhos e exigências de conteúdo local. A avaliação do relatório é que intervenções prolongadas podem diminuir a previsibilidade do fluxo de caixa e a autonomia comercial das empresas.

Por outro lado, uma política de redução da dívida e diminuição do papel do Estado por meio de privatizações e concessões poderia reduzir riscos de intervenção, segundo a Moody's, mas produziria riscos de transição para empresas dependentes de subsídios ou crédito direcionado.

Infraestrutura exigirá capital elevado

A Moody's também identifica oportunidades e limitações para a infraestrutura durante o próximo mandato. Segundo o documento, os principais gargalos incluem insuficiência da infraestrutura de transmissão e logística, complexidade regulatória e tributária, eventos climáticos extremos e custos elevados de capital.

O relatório afirma que aproximadamente 87% da eletricidade produzida no Brasil em 2025 teve origem em fontes renováveis e de baixa emissão. Com base em dados da Empresa de Pesquisa Energética citados pela agência, os setores de geração, transmissão e distribuição de energia deverão atrair cerca de US$ 657 bilhões em investimentos na década até 2034.

A expansão de veículos elétricos, automação e data centers, segundo a Moody's, tende a elevar a demanda por eletricidade. Sem investimentos suficientes em transmissão e redes, a agência aponta riscos de restrição de geração, congestionamentos e problemas sistêmicos mais frequentes.

O relatório também cita minerais críticos, biocombustíveis e data centers entre as áreas que podem ampliar a competitividade brasileira, especialmente diante da expansão da inteligência artificial. O aproveitamento dessas oportunidades, porém, dependerá, segundo a Moody's, de estabilidade regulatória, disponibilidade de capital e projetos economicamente viáveis.

A avaliação da Moody's é que nenhum dos caminhos será imediato: uma consolidação fiscal dependerá de apoio político para alterar despesas, enquanto a manutenção de políticas de estímulo e crédito direcionado pode sustentar setores da economia, mas preservar pressões sobre as contas públicas e os juros.


Perguntas frequentes

Qual é o tamanho da dívida pública brasileira? +

Segundo a Moody's, a dívida bruta do governo geral está acima de 82% do PIB, ante aproximadamente 72% na época da eleição presidencial de 2022.

Até quanto a dívida pode subir? +

Uma projeção do Tesouro Nacional de abril de 2026 citada pela Moody's estima aproximadamente 86% do PIB em 2027 e um pico próximo de 88% em 2029, antes de uma redução gradual.

Quanto seria necessário para estabilizar a dívida? +

A Moody's estima que seria necessário um ajuste fiscal capaz de produzir superávit primário de 2% a 3% do PIB para estabilizar a relação entre a dívida do governo geral e o PIB.

Por que é difícil reduzir os gastos públicos? +

Segundo o relatório, mais de 90% dos gastos orçamentários são obrigatórios. Reformas relevantes dependem do Congresso e algumas alterações exigem emendas constitucionais.

Como os juros afetam empresas e governo? +

De acordo com a Moody's, juros elevados aumentam os custos de financiamento do governo e das empresas, reduzem a capacidade de pagamento dos tomadores e limitam investimentos e fluxo de caixa.

O que aconteceu com o crédito direcionado? +

O indicador entrou em trajetória de alta mais consistente a partir de 2023 e, segundo o gráfico da Moody's, ultrapassou 24% do PIB em 2026, alcançando o maior nível da série apresentada.

Quais setores empresariais estão mais expostos? +

A Moody's destaca empresas com dívida elevada a taxas flutuantes, fluxo de caixa livre negativo e dependência do mercado de capitais. Varejo, distribuição de combustíveis, aluguel de carros e transporte concentram parcela relevante da dívida corporativa a taxas flutuantes.

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