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Bolsonaro enaltece Olavo de Carvalho no Twitter após ataques a militares

Em meio a ataques aos militares e críticas do general Villas Bôas, presidente elogia filósofo mas espera que conflitos sejam "página virada"

BOLSONARO: Revista norte-americana elegeu o presidente brasileiro como uma das 100 figuras mais influentes do mundo em 2019 / REUTERS/Adriano Machado (Adriano Machado/Reuters)
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Reuters

Publicado em 7 de maio de 2019 às 09h39.

Última atualização em 7 de maio de 2019 às 12h23.

São Paulo - O presidente Jair Bolsonaro publicou em seu Twitter uma nota nesta terça-feira, 7, em que exalta o escritor Olavo de Carvalho e diz esperar que os desentendimentos públicos entre ele e os militares do governo sejam "uma página virada".

Bolsonaro afirma que o trabalho do autor "contra a ideologia insana que matou milhões no mundo e retirou a liberdade de outras centenas de milhões" é reconhecida por ele e contribuiu muito para que chegasse à Presidência.

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"Sempre o terei nesse conceito, continuo admirando o Olavo", disse Bolsonaro, acrescentando esperar o fim da crise.

Ele também escreve que Olavo "virou fã para muitos", numa aparente confusão entre o conceito de fã e ídolo.

Minutos após a publicação de Bolsonaro, Olavo respondeu: "Eu também quero isso, presidente, mas não vou dar moleza aos inimigos da despetização."

Brigas

Considerado "guru" bolsonarista, Olavo de Carvalho continuou nesta manhã a sua série de ataques aos militares do governo e em especial ao general Santos Cruz, da Secretaria de Governo.

"Os generais, para voltar a merecer o respeito popular, só têm de fazer o seguinte: arrepender-se, pedir desculpas e passar a obedecer o presidente sem tentar mudar o curso dos planos dele. É simples", disse o escritor no Twitter.

"O Santos Cruz, politicamente analfabeto, não sabe nem mesmo a distinção entre governo e Estado. Quem governa é o presidente sim, Santos Cruz. O Legislativo legisla e o Judiciário julga. Governar, só o Executivo governa", acrescentou.

Os ataques de Olavo aos militares se intensificaram no fim de semana, quando o humorista Danilo Gentili publicou nas redes sociais uma entrevista do ministro dada à rádio Jovem Pan no início de abril.

Em sua fala, Santos Cruz disse que "as distorções e os grupos radicais, sejam eles de uma ponta ou de outra, da ponta leste ou da ponta oeste, isso aí tem que ser tomado muito cuidado, tem que ser disciplinado. A própria legislação tem de ser melhorada".

O ministro então virou alvo, além de Olavo, dos filhos do presidente e um ataque coletivo nas redes, e o próprio Bolsonaro usou o Twitter para dizer que não haveria controle das redes.

Olavo comparou o ministro a Ciro Gomes (PDT), candidato derrotado à Presidência, e disse que Santos Cruz "fofoca e difama pelas costas". O ministro retrucou e, em entrevista, chamou o escritor de "um desocupado esquizofrênico".

Olavo de Carvalho tem negado que queira "tirar" Santos Cruz do cargo. "Não sou um agente político, sou um escritor e professor. Não quero tirar o Santos Cruz da p.... de ministério que ele ocupa. Quero apenas despertar sua inteligência e seu senso moral para que ele corrija o imenso mal que está fazendo. Fique com o cargo, mas tome jeito", disse na segunda-feira.

E reforçou nesta terça: "Nunca propus tirar ninguém de ministério nenhum. Só o que quero tirar são ideias de jerico de algumas cabeças".

Villas Bôas entra em cena

Até o momento, a resposta mais dura dos militares a Olavo partiu do general da reserva Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, que classificou o escritor de "Trótsky de direita", sem "princípios básicos de educação e respeito" e como alguém que age para "acentuar as divergências nacionais".

O general, com seus quase 600 mil seguidores no Twitter --bem mais do que Olavo de Carvalho, com seus 133 mil-- foi a voz da insatisfação dos militares no governo. O recado foi que Olavo precisa "deixar o governo".

A análise foi feita à Reuters por uma fonte palaciana que acompanha de perto as crises que têm sido causadas pelos ataques do escritor aos militares --e que tem sido respaldadas pelos filhos do presidente Jair Bolsonaro, o vereador no Rio de Janeiro Carlos e o deputado federal Eduardo (PSL-SP).

Um dos nomes mais respeitados nas Forças Armadas, o general, hoje assessor especial do ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general da reserva Augusto Heleno, também afirmou, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo publicada nesta terça-feira, que Olavo "presta enorme desserviço ao país".

Sem citar Villas Bôas, Olavo reagiu e, na madrugada desta terça, escreveu: "Nem o (ex-presidente) Lula seria vil e porco o bastante para, fugindo a argumentos sem resposta, se esconder por trás de um doente preso a uma cadeira de rodas. Mas os nossos heroicos generais são".

Bolsonaro tem boa relação com Villas Bôas. Após deixar o comando do Exército, o militar virou consultor do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, órgão comandado pelo general Augusto Heleno.

Em janeiro, o presidente recém-empossado disse que Villas Bôas era "um dos responsáveis" por sua eleição - fala similar à desta terça, sobre Olavo. Villas Bôas disse que Bolsonaro resgatou Brasil de "amarra ideológica".

O futuro de Santos Cruz

Incomodado, Santos Cruz foi na noite de domingo conversar com Bolsonaro. Disse que estava sendo vítima de um ataque orquestrado que envolviam os filhos do presidente.

"Eles têm intimidade o suficiente para o ministro chegar e reclamar do que está acontecendo", disse uma fonte palaciana.

Ao ter desautorizado publicamente seu ministro, Bolsonaro terminou por ampliar a margem para os ataques. No entanto, nesta segunda, ao ser perguntado se o ministro ainda tinha seu respaldo, Bolsonaro foi enfático: "Completamente".

Apesar da crise, Santos Cruz se mantém forte no governo não apenas pela relação de amizade com Bolsonaro, mas porque representa e tem liderança no grupo de militares que é considerado um dos pilares de sustentação do governo.

"Para demitir Santos Cruz vai ter que demitir muita gente antes", disse a fonte palaciana.

A ordem agora é tentar, mais uma vez, ignorar os ataques de Olavo de Carvalho. O próprio presidente afirmou, mais cedo, que, de acordo com a origem do problema, a melhor resposta é "ficar quieto, porque temos muitas coisas mais importantes para discutir no Brasil".

Mourão reforçou. "Esses ataques são totalmente sem nexo. Se nós ignorarmos, será muito melhor para todo mundo."

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