O senador Flávio Bolsonaro (PR-RJ) e o presidente dos EUA, Donald Trump: americano recebeu o pré-candidato do PL na Casa Branca, em maio, em movimento considerado apoio ao filho do ex-presidente brasileiro (Eduardo Bolsonaro/X/Reprodução)
Repórter especial em Brasília
Publicado em 28 de junho de 2026 às 08h00.
Última atualização em 28 de junho de 2026 às 08h17.
Integrantes do governo Lula viram a carta enviada pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, ao senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como uma tentativa, por parte da administração de Donald Trump, de tornar o bolsonarista um interlocutor legítimo ante a opinião pública nas negociações relativas ao tarifaço. Reservadamente, uma pessoa familiarizada com o tema afirma que o documento parece ter sido uma jogada ensaiada com os Bolsonaro, mas não deve ter repercussão prática.
A carta de Rubio foi uma resposta ao ofício enviado pelo senador quando do anúncio da possibilidade da aplicação de tarifas de 25% sobre exportações brasileiras ao país, anúncio feito dias depois de Flávio ter sido recebido por Trump na Casa Branca. A ampla repercussão negativa para a pré-campanha bolsonarista, notabilizada pelo apelido "tariflávio" nas redes sociais, levou Flávio Bolsonaro a pedir publicamente a não aplicação das tarifas, em carta a Rubio, enviada no dia 2 de junho.
A resposta de Rubio, datada de 23 de junho, afirma que o representante comercial americano, Jamieson Greer "deixou claro que nós continuamos a ter diferenças substanciais na resolução dos problemas identificados nessa investigação (da seção 301)".
Os Estados Unidos questionam, entre outras coisas, tarifas brasileiras de importação ao etanol americano, a existência do Pix, regras de propriedade intelectual no Brasil e o desmatamento da Amazônia, mas o governo Lula tem argumentado que, dada a relação comercial superavitária e a queda no desmatamento, não há razão econômica para a aplicação de tarifas. A estratégia de Flávio tem sido mostrar publicamente que Lula quer a aplicação das tarifas para extrair dividendos eleitorais.
Na resposta a Flávio, Rubio ressalta que "qualquer parte interessada no Brasil pode participar da consulta pública sobre a proposta de medida de resposta na audiência que o Escritório do Representante Comercial (USTR) vai realizar no dia 6 de julho de 2026". O senador brasileiro já disse que vai à audiência pública e é um dos inscritos. A prática é inusual, uma vez que esse tipo de evento é destinado a empresas e representantes de setores privados, e não a autoridades governamentais, que têm canais de negociação por via diplomática.
No Palácio do Planalto, Rubio é lido como o principal elo político entre a Casa Branca e a família Bolsonaro e também o maior aliado do bolsonarismo na administração de Trump. Apesar de, em seu teor, o documento afirmar que o tarifaço é uma questão técnica a cargo do UTSR, integrantes do governo Lula o viram como uma peça do cálculo político da gestão americana para auxiliar Flávio Bolsonaro em sua pré-candidatura.
O envio do documento e sua divulgação é vista por um integrante do governo ouvido pela EXAME como uma jogada ensaiada e possivelmente combinada com a pré-campanha bolsonarista.
Aliados do presidente Lula já preveem que deve haver mais documentos e manifestações desse tipo nos próximos meses antes da eleição, mas entendem que o governo Trump deve limitar gestos de intervenção no processo eleitoral brasileiro a esse tipo de manifestação.
Do lado do governo, a interpretação da carta é de que há pouca margem para a negociação acerca do tarifaço, mas pessoas a par das tratativas do lado brasileiro afirmam que a diplomacia e o MDIC continuam engajados nas conversas com o USTR para encontrar uma saída. Os dois lados já se reuniram em 13 de junho e devem voltar se encontrar antes e depois da audiência pública de 6 de julho.
O governo Lula entende como importante seguir as tratativas por canais oficiais e com respaldo técnico até o fim. Além disso, o Palácio do Planalto não se inscreveu para se manifestar na audiência pública por entender que não é o espaço adequado para a negociação. O governo entende que enviar alguém seria legitimar a tentativa de Flávio Bolsonaro de ter protagonismo no assunto e, ao mesmo tempo, poderia esvaziar os canais oficiais de negociação.