Brasil

Brasil tem trabalho forçado? País bateu recorde de denúncias em 2025

A alegação coloca o Brasil diante de uma questão que vai além da disputa comercial com Washington: qual é, afinal, a dimensão do trabalho forçado no país e como o Brasil se compara ao restante do mundo?

Trabalho forçado: O país diz que responsabiliza empresas e indivíduos, "aplicando multas severas" (Acervo/MPT Mato Grosso do Sul/Agência Brasil)

Trabalho forçado: O país diz que responsabiliza empresas e indivíduos, "aplicando multas severas" (Acervo/MPT Mato Grosso do Sul/Agência Brasil)

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 24 de julho de 2026 às 16h30.

O novo tarifaço dos Estados Unidos contra produtos brasileiros tem uma nova justificativa: a acusação de que parte das exportações do país se beneficia de trabalho forçado.

As novas tarifas entraram em vigor nesta sexta-feira, 24, e devem elevar a sobretaxa aplicada a parte das exportações brasileiras para o mercado americano a 37,5%. Segundo a entidade, a medida afetará cerca de 3 mil produtos brasileiros.

A alegação coloca o Brasil diante de uma questão que vai além da disputa comercial com Washington: qual é, afinal, a dimensão do trabalho forçado no país e como o Brasil se compara ao restante do mundo?

Dados oficiais mostram que o problema persiste e tem mobilizado um número crescente de denúncias. Em 2025, o Brasil registrou 4.515 denúncias de trabalho escravo e condições análogas à escravidão, o maior número da série histórica do Disque 100, segundo dados divulgados em janeiro pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC).

O total representa uma alta de 14% em relação às 3.959 denúncias registradas em 2024, que já haviam estabelecido um recorde.

Os registros incluem suspeitas de trabalho escravo infantil e casos envolvendo jornadas exaustivas, condições degradantes, servidão por dívida e restrição de liberdade.

O avanço das denúncias, porém, não significa necessariamente que houve crescimento na mesma proporção do número de pessoas submetidas a essas condições. O indicador também pode refletir maior conhecimento sobre o problema, ampliação dos canais de denúncia e maior acesso aos mecanismos de proteção.

Em 2024, 2.186 trabalhadores foram resgatados de situações análogas à escravidão no país, segundo a Secretaria de Inspeção do Trabalho, vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego.

Desde 1995, quando o Brasil reconheceu oficialmente a existência de formas contemporâneas de escravidão em seu território, cerca de 65,6 mil trabalhadores foram resgatados após mais de 8,4 mil ações de fiscalização.

Ao se defender do tarifaço, o Brasil rejeitou as acusações americanas e afirmou que aplica "ativamente medidas para combater o trabalho forçado".

O governo brasileiro afirmou que o Brasil é signatário de 66 convenções em vigor na Organização Internacional do Trabalho (OIT) contra o trabalho escravo. O país diz que responsabiliza empresas e indivíduos, "aplicando multas severas, e mantemos um cadastro de 'Lista Suja' de empregadores".

O país lançou no início do ano o III Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (PNETE). Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Brasil tem ampliado sua atuação internacional no combate ao problema. 

Trabalho forçado entrou na justificativa das tarifas

Os EUA acusam os outros países de se beneficiarem de trabalhos forçados, apesar de várias evidências em contrário.

"Por quase 100 anos, a lei dos EUA proibiu a importação de bens extraídos, produzidos ou fabricados total ou parcialmente com trabalho forçado. Essa proibição reconhece não apenas as preocupações humanitárias associadas a permitir que terceiros lucrem com o sofrimento de outros, mas também as preocupações de política externa e segurança nacional decorrentes da exploração de trabalhadores", disse o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), ao anunciar a abertura do processo.

"Tal exploração ameaça os produtores nacionais, que precisam competir com bens estrangeiros produzidos com uma vantagem de custo artificial, e pode prejudicar os trabalhadores e cidadãos dos EUA ao distorcer a concorrência e a compra de bens produzidos em condições exploratórias", diz o USTR.

Para os EUA, o trabalho forçado é definido como "trabalho ou serviço extraído de uma pessoa sob a ameaça de qualquer penalidade por sua não execução e para o qual o trabalhador não se oferece voluntariamente."

Acompanhe tudo sobre:TarifasDonald Trump

Mais de Brasil

Durigan diz que governo deve manter taxa das blusinhas pelo menos até o fim do ano

Prefeitura de SP recorre à Justiça para tentar barrar credenciamento do Uber Moto

Após novo tarifaço, Lula afirma que 'Forças Armadas são como Deus'

Douglas Ruas é oficializado candidato ao governo do Rio pelo PL