Raquel Lyra: Medeiros afirma que houve uma mudança no perfil do eleitorado no Nordeste (Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 28 de junho de 2026 às 08h00.
A recuperação da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), nas pesquisas de intenção de voto para 2026 é mais do que um movimento local e pode sinalizar uma mudança no comportamento do eleitor nordestino.
A avaliação é do cientista político Murilo Medeiros, que vê na disputa pernambucana um retrato das dificuldades enfrentadas por partidos de esquerda na região.
Durante participação no programa Eleições em Pauta, da EXAME, Medeiros disse que a virada de Raquel Lyra sobre o ex-prefeito do Recife, João Campos (PSB), em levantamentos recentes decorre da combinação entre a força da máquina estadual, o aumento da aprovação do governo e uma estratégia de campanha focada em temas locais, como segurança pública, infraestrutura e desenvolvimento regional.
"A eleição em Pernambuco reflete uma disputa entre continuidade e mudança", afirmou.
Segundo ele, Pernambuco tornou-se uma peça-chave para entender o cenário eleitoral de 2026 porque reúne dois fatores: é o segundo maior colégio eleitoral do Nordeste e coloca em disputa uma governadora em ascensão contra um dos principais nomes da esquerda na região.
Medeiros amplia a análise para todo o Nordeste e apresentou um levantamento que indica uma mudança estrutural no mapa político da região.
Segundo levantamento, partidos de esquerda podem sair das eleições de 2026 governando estados que concentram apenas 6% do eleitorado nordestino, o pior desempenho desde 1998.Para explicar esse cenário, o cientista político aponta três fatores principais. O primeiro é o que chamou de "fadiga de material".
"Em alguns estados estratégicos do Nordeste, o PT está no poder há mais de 15 anos, como é o caso da Bahia. Há hoje um sentimento de alternância de poder e de mudança", afirmou.
Segundo ele, esse desgaste também aparece em estados como Ceará, Maranhão e Rio Grande do Norte, onde partidos do campo progressista permaneceram por longos períodos à frente dos governos estaduais. O segundo fator é a segurança pública.
"O Nordeste vem sofrendo muito com altos índices de criminalidade, especialmente nas regiões metropolitanas. Isso se tornou um calcanhar de Aquiles para candidaturas vinculadas ao PT na região", afirma.
Por fim, Medeiros afirma que houve uma mudança no perfil do eleitorado.
Na avaliação dele, o eleitor nordestino tornou-se mais pragmático, menos identificado ideologicamente com partidos e mais sensível a questões como custo de vida, qualidade dos serviços públicos e desempenho das administrações estaduais.
"O voto de gratidão pelas políticas sociais também se dissipou um pouco. Há uma nova classe média na região que quer ir além do que hoje é oferecido pelo Estado", disse.
O levantamento apresentado por Medeiros mostra que partidos como PSD, MDB e União Brasil lideram hoje as pesquisas na maior parte dos estados nordestinos.
Atualmente, governos de esquerda administram estados que concentram cerca de 74% dos 42,6 milhões de eleitores da região. Pelas pesquisas mais recentes, esse percentual poderá cair para apenas 6% após a posse dos governadores eleitos em 2027, caso o cenário seja confirmado nas urnas.