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Após final do inquérito no caso Orelha, moradores da Brava querem retomar revitalização

Com a conclusão da investigação e o envio do caso ao Ministério Público, moradores do bairro no Norte da Ilha buscam normalizar agendas e destravar ações de revitalização impactadas pela repercussão do episódio.

 Crime que resultou na morte do Cão Orelha repercutiu no Brasil e no exterior (Divulgação/Divulgação)

Crime que resultou na morte do Cão Orelha repercutiu no Brasil e no exterior (Divulgação/Divulgação)

Rafael Martini
Rafael Martini

Editor da Região Sul

Publicado em 4 de fevereiro de 2026 às 19h04.

Última atualização em 4 de fevereiro de 2026 às 19h32.

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A conclusão do inquérito da Polícia Civil sobre o espancamento e a morte do cão comunitário Orelha marca uma virada institucional em um caso que mobilizou o país e extrapolou o campo criminal.

Com o envio do processo ao Ministério Público, a investigação entra agora na esfera judicial — movimento que, para moradores da Praia Brava, no Norte da Ilha de Santa Catarina, onde Orelha viveu por 10 anos, sob os cuidados dos moradores, representa também a possibilidade de normalização da vida comunitária e da retomada de agendas de desenvolvimento que haviam sido temporariamente impactadas pela repercussão do episódio.

A escalada do caso nas redes sociais — que ultrapassou 50 milhões de visualizações e gerou mais de 100 mil buscas no Google em poucos dias — criou um ambiente de forte tensão social, incerteza institucional e cautela entre moradores, poder público e parceiros privados. Parte das ações ligadas ao novo ciclo de revitalização urbana do bairro acabou sendo adiada como medida de prudência.

Em entrevista exclusiva à EXAME, o publicitário Daniel Araújo, presidente da Associação de Moradores da Praia Brava, falou pela primeira vez sobre o caso, lamentou o crime bárbaro, mas salientou sua confiança nas autoridades responsaéveis pelo inquérito e afirmou que o encemento da fase investigativa permite recolocar o planejamento nos trilhos.

“ Algumas iniciativas e lançamentos de ações ligados ao processo de revitalização acabaram sendo adiados diante do ambiente de tensão. Agora, com a conclusão do inquérito e o avanço institucional do caso, conseguimos separar responsabilidades individuais da vida coletiva do bairro e retomar projetos com mais previsibilidade”, afirma.

Apesar do impacto momentâneo no cronograma de ações, a Praia Brava segue inserida em um dos ciclos mais consistentes de valorização urbana e imobiliária de Florianópolis. Segundo a Associação de Moradores, o volume geral de vendas dos empreendimentos atualmente em implantação no bairro é estimado em aproximadamente R$ 2,1 bilhões.

O dinamismo recente reforça o apetite do mercado. Empreendimentos lançados ao longo do último ano apresentaram ritmo acelerado de comercialização, com casos de esgotamento em poucos meses e alta demanda por unidades de padrão elevado, especialmente frente-mar. Cinco coberuras foram vendidas nesta temporada, totalizando cerca de R$ 100 milhões.

Esse movimento se traduz diretamente em capacidade de reinvestimento urbano. A associação estima que cerca de R$ 6 milhões provenientes de outorgas urbanísticas, após acordo firmado com a Prefeitura, e instrumentos vinculados aos novos projetos deverão ser direcionados para obras de qualificação do bairro nos próximos ciclos.

Entre as intervenções previstas estão novos acessos à orla, canalização e fechamento de valas com sistemas modernos de drenagem, implantação de ciclovias, parques e requalificação de vias e calçadas — ações voltadas a transformar o espaço público em ambiente de convivência, segurança e permanência.

Setor de Serviços alerta

Para Araújo, o Caso Orelha evidenciou o quanto bairros turísticos e de alto valor imobiliário são sensíveis a choques reputacionais. “A Praia Brava é um território que depende de imagem, confiança, fluxo de pessoas e previsibilidade institucional. Quando o debate sai do campo da justiça e entra na radicalização, toda a cadeia econômica sente”, afirma.

Segundo ele, a conclusão do inquérito ajuda a estancar esse risco. “A resposta do Estado é fundamental para devolver equilíbrio. A partir disso, conseguimos avançar novamente em planejamento urbano, investimentos e ações coletivas.”

A repercussão do Caso Orelha também mobilizou o setor de serviços. Em nota oficial, a Abrasel Santa Catarina — braço estadual da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, que representa empresas do segmento de alimentação fora do lar — defendeu rigor na apuração do crime, mas fez um alerta sobre os efeitos econômicos de um eventual desgaste da imagem de Florianópolis.

Publicitário Daniel Araújo é o presidente da Associação dos Moradores da Praia Brava, de Florianópolis (Divulgação/Divulgação)

“O caso do cachorro Orelha gerou uma forte comoção em todo o país e um movimento legítimo por justiça. É fundamental que haja uma apuração rigorosa do caso e também a responsabilização e punição dos envolvidos”, afirmou a entidade. Ao mesmo tempo, destacou que a população local não compactua com atos de crueldade contra animais. “Os moradores de Florianópolis de forma alguma aceitam ou são cúmplices de atos de crueldade com os animais.”

A principal preocupação da Abrasel é o impacto no calendário econômico. “Estamos em plena temporada de verão, às vésperas do Carnaval, período extremamente importante para uma parte relevante do setor de alimentação fora do lar”, diz a nota. Segundo a entidade, episódios isolados não podem se transformar em um movimento de “cancelamento” da cidade, com reflexos diretos sobre bares, restaurantes, empregos e renda. “Esperamos que os lamentáveis acontecimentos não impactem a imagem de cidade querida por todos que cultivamos há anos.”

A Praia Brava se distingue em Florianópolis por sua forte organização comunitária. A Associação de Moradores representa atualmente 13 condomínios, cerca de 1.200 unidades residenciais, além de casas e novos empreendimentos em implantação — base que sustenta iniciativas contínuas de preservação ambiental, segurança, ordenamento urbano e convivência social.

Esse capital social, avalia Araújo, foi determinante tanto para a reação ao crime quanto para a capacidade de reorganização após o pico de tensão. “O mesmo senso coletivo que gerou comoção é o que agora permite retomar projetos, investimentos e o cuidado com o bairro.”

Com o avanço do caso para a esfera judicial, a expectativa da comunidade é que o episódio se transforme em ponto de aprendizado institucional — com justiça para os responsáveis e restauração de um ambiente de estabilidade necessário ao desenvolvimento urbano e econômico.

“A violência contra o Orelha contraria tudo o que a Praia Brava representa. Mas a resposta organizada da comunidade, somada à atuação das instituições, mostra que o bairro tem maturidade para atravessar crises sem perder seus valores nem seu projeto de futuro”, conclui Araújo.

Entenda o caso

A Polícia Civil de Santa Catarina finalizou, nesta terça-feira, 3, a investigação sobre a morte do Cão Orelha e maus-tratos ao Cão Caramelo, em Florianópolis. Para chegar à autoria dos crimes, foi montada uma força-tarefa que envolveu as forças de segurança do Estado.

Quatro adolescentes foram representados pelo caso Caramelo e um adolescente teve o pedido de internação no caso Orelha. Além disso, no caso Orelha, foram indiciados três adultos por coação a testemunha. As investigações foram conduzidas pela Delegacia Especializada no Atendimento de Adolescentes em Conflito com a Lei (DEACLE) e pela Delegacia de Proteção Animal (DPA), ambas da Capital.

O Cão Comunitário Orelha foi atacado na madrugada do dia 4 de janeiro, por volta das 5h30 da manhã, na Praia Brava, no Norte da Ilha. De acordo com os laudos da Polícia Científica, ele sofreu uma pancada contundente na cabeça, que pode ter sido por um chute ou algum objeto rígido, como um pedaço de madeira ou uma garrafa. No dia seguinte, Orelha foi resgatado por populares e morreu em uma clínica veterinária por conta dos ferimentos.

Para chegar ao autor do crime, a Polícia Civil analisou mais de 1 mil horas de filmagens na região, em 14 equipamentos que captaram imagens. Foram 24 testemunhas ouvidas, 8 adolescentes suspeitos investigados, além de provas como a roupa utilizada pelo autor do crime, que foi registrada em filmagens. Um software francês obtido pela Polícia também analisou a localização do responsável durante o ataque fatal ao Cão Orelha.

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