(Crédito: Globo/ Manoella Mello)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 28 de agosto de 2026 às 23h08.
Última atualização em 28 de agosto de 2026 às 23h45.
O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro não apresentou o contrato firmado entre a produtora responsável pelo filme biográfico de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. A provocação partiu de questionamentos durante uma sabatina na TV Globo nesta sexta-feira, 28.
Na ocasião, Flávio Bolsonaro defendeu o financiamento de um filme sobre seu pai. Segundo ele, não há irregularidades na operação e todos os dados estão abertos ao público.
"É um livro que está fechado, ressignificado e na prateleira para quem quiser abrir. Está aberto ao público, pela imprensa", afirmou o senador.
Apesar disso, o documento apresentado pela defesa da produtora não esclarece quem financiou integralmente a obra.
Uma perícia privada contratada pela defesa de Karina Gama, dona da Go Up Entertainment, identificou um contrato de investimento firmado pelo fundo americano Havengate Development Fund LP, além de extratos bancários, documentos de remessa e registros financeiros. O laudo, porém, não cita o nome de Vorcaro nem o de outros eventuais financiadores do filme.
O parecer do profissional, apresentado em junho, descartava o uso de dinheiro público na produção. O perito, no entanto, afirmou ao jornal O Globo que não mapeou a origem dos recursos repassados pelo fundo Havengate, sediado nos Estados Unidos, para financiar o longa-metragem.
O senador afirmou na entrevista ao Jornal Nacional ainda que os recursos obtidos para a produção não foram destinados diretamente a ele, mas ao projeto cinematográfico. “Esse foi um patrocínio que não tem nenhuma transferência para Flávio Bolsonaro, sim para um filme”, disse. "Todo o patrocínio que foi feito ao filme foi usado no filme".
A documentação apresentada até agora permite conhecer parte da estrutura financeira declarada pela produtora, mas não esclarece a relação entre o fundo americano identificado na perícia e os recursos atribuídos a Daniel Vorcaro. Segundo a Folha de S.Paulo, o ex-controlador do Banco Master chegou a pagar R$ 61 milhões para financiar o filme, mas seu nome não aparece no laudo da perícia privada.
O documento aponta que o Havengate Development Fund LP assinou, em 24 de fevereiro de 2025, um contrato de investimento para o longa. Até a elaboração do laudo, os aportes atribuídos ao fundo somavam US$ 13,3 milhões, valor equivalente ao custo total declarado da produção.
A obra teria custado US$ 13,4 milhões, cerca de R$ 75 milhões. Desse total, R$ 20,9 milhões foram gastos no Brasil entre junho de 2025 e junho de 2026, enquanto a produção nos Estados Unidos consumiu US$ 9,66 milhões, aproximadamente R$ 54,2 milhões, de acordo com a perícia.
A Folha ressalta, porém, que a conclusão sobre a origem privada dos recursos se restringe ao conjunto de documentos disponibilizado pela defesa. Ou seja, a perícia não equivale a uma conclusão definitiva das investigações oficiais sobre o financiamento do filme.
Dark Horse, filme sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro e com previsão de estreia após as eleições, passou a ser alvo da Justiça após mensagens reveladas pelo The Intercept Brasil mostrarem negociações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master preso na Operação Compliance Zero, para financiar a produção.
Segundo a reportagem, o valor discutido entre os dois chegou a R$ 134 milhões, dos quais pelo menos R$ 61 milhões teriam sido repassados por Vorcaro para custear o filme sobre a campanha presidencial de Bolsonaro em 2018.
Em maio, Flávio prometeu apresentar, em até 30 dias, uma prestação de contas detalhada sobre os recursos, mas não cumpriu o prazo. Em agosto, afirmou que o assunto era uma “página virada” e disse que as contas já haviam sido apresentadas, sem detalhar os valores ou o destino do dinheiro.
O financiamento do filme é investigado em duas frentes no Supremo Tribunal Federal (STF). Uma, sob relatoria do ministro André Mendonça, apura os repasses feitos por Vorcaro.
A outra, conduzida pelo ministro Flávio Dino, envolve materiais apreendidos na Operação Wi-Fi, que investiga um contrato de R$ 108 milhões entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB) para o programa WiFi Livre SP.
A apuração busca esclarecer se recursos públicos, inclusive de emendas parlamentares, foram usados para financiar a produção.