Lula e Flávio nas redes: acompanhamento mostra que crise no STF foi ruim para os dois (Divulgação/Exame)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 7 de setembro de 2026 às 12h02.
Última atualização em 8 de setembro de 2026 às 06h58.
A crise no Supremo Tribunal Federal (STF) após a divulgação de novos documentos relacionados a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, ampliou a conversa negativa nas redes sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), mas por caminhos diferentes.
Levantamento da Datrix obtido em primeira mão pela EXAME mostra que Lula registrou uma piora contínua no saldo de sentimento associado ao episódio, enquanto Flávio ficou menos negativo no auge da repercussão e voltou a piorar nos dias seguintes.No caso de Lula, a Datrix identificou principalmente associações negativas com o STF, com Alexandre de Moraes e com outros desdobramentos relacionados ao Banco Master. Para Flávio, a conversa reuniu duas forças distintas: de um lado, críticas relacionadas aos repasses para o filme “Dark Horse”, a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro; de outro, manifestações favoráveis à ofensiva do senador contra Moraes.
Essa diferença aparece nos indicadores de sentimento calculados pela empresa. O saldo de Lula passou de -17,6 no período anterior à crise para -32,7 no auge da repercussão e -53,5 nos dias seguintes. No caso de Flávio, saiu de -40 para -22,2 durante o pico, antes de chegar a -55,7.
A Datrix ressalta que a melhora temporária do indicador de Flávio não significa que o episódio tenha sido positivo para o senador: mesmo no auge da repercussão, a conversa permaneceu com saldo negativo.Segundo o estudo, o movimento ocorreu porque as críticas relacionadas ao Banco Master passaram a dividir espaço com publicações favoráveis à cobrança de Flávio pela saída de Moraes.
“As redes sociais são como organismos vivos e também têm homeostase. O Caso Master, historicamente, é mais negativo para o senador Flávio Bolsonaro. Mas, no pico dos vazamentos sobre o ministro Alexandre de Moraes, o saldo ficou menos negativo para Flávio e bem mais negativo para Lula, associado mais vezes ao ministro”, afirma João Paulo Castro, CEO da Datrix.
“Na quinta e na sexta, com novas revelações e com o crescimento de ataques de partidários ao PT, o tema voltou a ser mais negativo para Flávio Bolsonaro e essa é a tendência, se nada novo acontecer”, diz Castro.
A mudança na conversa ocorreu após o ministro André Mendonça, relator do caso do Banco Master no Supremo, retirar o sigilo de um relatório da Polícia Federal que reuniu mensagens entre Vorcaro e Moraes. O documento trouxe detalhes sobre a relação do ex-banqueiro com o ministro e com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do magistrado.
Nas mensagens divulgadas, Vorcaro pediu a Moraes que atuasse junto ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. As respostas de Moraes a essas mensagens não constam no material divulgado. A PF também identificou informações sobre contratos entre empresas ligadas a Vorcaro e o escritório de Viviane.
Ao retirar o sigilo, Mendonça afirmou que o material deveria ser analisado pelo plenário do Supremo em sessão presencial, pública e transparente. A decisão abriu outra frente dentro da Corte. Gonet pediu a nulidade do relatório e sustentou que Mendonça ultrapassou os limites de sua competência ao determinar que a PF identificasse destinatários das mensagens sem pedido do Ministério Público ou da própria polícia.
A crise ganhou um novo capítulo em 3 de setembro, quando o presidente do STF, Edson Fachin, abriu um procedimento e pediu esclarecimentos a Moraes, Mendonça, Gonet e Andrei Rodrigues sobre as informações do relatório e os questionamentos apresentados pela PGR.
Foi nesse ambiente de exposição das mensagens, questionamentos sobre a condução da apuração e reação dentro do próprio Supremo que a Datrix identificou uma forte expansão da conversa digital sobre Moraes e Mendonça e efeitos distintos sobre Lula e Flávio.
A dimensão da repercussão ajuda a explicar por que o episódio passou a ocupar espaço na conversa digital sobre os dois presidenciáveis. Entre 1º e 4 de setembro, as discussões sobre Alexandre de Moraes e André Mendonça somaram 1,14 milhão de publicações e 43,4 bilhões de impressões, segundo a Datrix.
Desse total, o núcleo que também mencionava Vorcaro, Banco Master ou o financiamento de “Dark Horse” respondeu por 564.169 publicações, ou 49,5% do volume. Em alcance potencial, porém, a participação foi maior: 30,8 bilhões de impressões, equivalentes a 70,8% do total.
A média diária de publicações sobre Moraes e Mendonça passou de 20.163 entre 25 e 31 de agosto para 285.098 entre 1º e 4 de setembro, segundo o levantamento.O pico ocorreu em 2 de setembro, com 430.895 publicações sobre os dois ministros. Apenas o núcleo relacionado a Vorcaro e ao Banco Master respondeu por 230.561 publicações naquele dia.
A presença de Flávio na discussão foi maior em número de publicações. O senador apareceu em 85.846 posts associados ao núcleo do caso entre 1º e 4 de setembro, o equivalente a 15,2% do total. Lula apareceu em 33.180, ou 5,9%.
A distância diminui quando o estudo considera as impressões, métrica que estima o alcance potencial das publicações. Flávio somou 2,74 bilhões de impressões e Lula, 2,24 bilhões. Nas interações, foram 238,99 milhões para o senador e 59,23 milhões para o presidente.
Antes da divulgação dos novos documentos, a relação era diferente. Entre 25 e 31 de agosto, o recorte relacionado a Lula acumulava 280 milhões de impressões, ante 204 milhões no de Flávio. Segundo a Datrix, o episódio iniciado em 1º de setembro alterou essa distribuição.
A análise das narrativas feita pela Datrix ajuda a explicar a diferença entre os dois presidenciáveis.
No recorte de Flávio, o financiamento de “Dark Horse” pelo Banco Master apareceu em 47% das publicações classificadas e teve saldo de sentimento de -80,5. Ao mesmo tempo, a cobrança pela saída de Moraes e as críticas relacionadas ao STF representaram 27% do recorte e tiveram saldo positivo.
Para Lula, a narrativa mais frequente foi a associação com Moraes, presente em 27% do recorte e com saldo de -40,4. A delação de Vorcaro e referências ao diretor-geral da Polícia Federal apareceram em 19%, enquanto a discussão sobre aparelhamento do STF respondeu por 16%.
Segundo a Datrix, o contraste está no fato de que a mesma crise apareceu como combustível para a ofensiva de Flávio contra Moraes e, no recorte de Lula, como elemento de associação negativa entre o presidente e o Supremo.A empresa ressalta que os dados de sentimento e narrativas não representam a opinião do eleitorado. Essa parte do estudo considera uma amostra de publicações de veículos de imprensa, políticos e influenciadores.
O levantamento da Datrix combina duas camadas de análise. Os números de publicações, impressões e interações correspondem ao universo público monitorado nas buscas sobre Moraes, Mendonça e o núcleo Vorcaro/Banco Master.
Os indicadores de sentimento, temas e narrativas, por sua vez, foram calculados a partir de uma amostra de publicações de imprensa, políticos e influenciadores. A amostra temática classificou 2.665 publicações por candidato, com margem de erro declarada de 2%.
O período analisado vai de 25 de agosto a 4 de setembro de 2026. Segundo a Datrix, os dados de 3 e 4 de setembro utilizados em parte da análise ainda eram parciais no momento do fechamento do estudo.