Ciência

Por que os britânicos rejeitam o frango que está vindo dos EUA

Todo mundo odeia o frango americano lavado com cloro no Reino Unido, uma discussão que deve dar o tom de acordos comerciais na terra da Rainha pós-Brexit

Denunciados por políticos e ativistas de segurança alimentar, o frango lavado a cloro dos EUA se tornou o símbolo de acordos comerciais ruins (Tom Grillo/The New York Times)

Denunciados por políticos e ativistas de segurança alimentar, o frango lavado a cloro dos EUA se tornou o símbolo de acordos comerciais ruins (Tom Grillo/The New York Times)

TL

Thiago Lavado

Publicado em 15 de maio de 2021 às 08h00.

Londres — Neste momento pós-Brexit, em meio à pandemia no Reino Unido, com sua economia abalada pela recessão e a família real em luto e tumulto, é difícil encontrar um tema que una esta nação frágil. Mas o frango proveniente dos EUA – sim, o humilde animal de fazenda, consumido diariamente por milhões em todos os 50 estados – conseguiu essa proeza. Todo mundo o odeia.

O estranho é que o frango americano nem é vendido na Grã-Bretanha e, se as pessoas aqui conseguirem o que querem, nunca será. O que exatamente essa ave fez para apavorar tão profundamente os britânicos, embora poucos a tenham experimentado?

A resposta curta é que, depois do abate, algumas carcaças nos EUA são lavadas com cloro para eliminar patógenos potencialmente prejudiciais. Os americanos há anos saboreiam essa ave sem problema algum, mas na Grã-Bretanha ela está fortemente ligada à palavra "cloro", do mesmo modo que os rótulos de advertência são colocados em maços de cigarro – ou seja, sempre. A prática foi denunciada por editores, acadêmicos, políticos, agricultores e uma grande variedade de ativistas. Em outubro, um grupo de manifestantes vestidos de galinha se reuniu ao redor do Parlamento. As palavras "Cuidado! Cloro!" estavam estampadas no macacão amarelo que usavam.

As aves dos EUA são há muito ridicularizadas no Reino Unido, mas só se tornaram objeto de revolta pública quando ficou claro, há vários anos, que os dois países assinariam um novo acordo de livre comércio assim que os britânicos deixassem a União Europeia. Indiscutivelmente, o maior ponto de contenda antecipada em qualquer acordo desse tipo se concentra nos padrões alimentares dos EUA, que são amplamente considerados aqui como inferiores e sujeitos à sujeira e às más condições na busca por lucro.

É tudo uma grande calúnia, segundo a indústria avícola dos EUA, além de uma desculpa para impedir que a indústria britânica enfrente rivais americanas muito maiores. No entanto, com uma análise mais profunda, fica claro que a fobia ao frango com cloro vai um pouco além do prato. De alguma forma, os métodos americanos de criação do Gallus gallus domesticus, o nome científico da ave, tornaram-se um símbolo dos temores britânicos de que, sem os controles adequados, um acordo comercial com os Estados Unidos mudará o Reino Unido para pior.

"Esse é um exemplo clássico de como a crença ultrapassou as evidências e se transformou em um complexo discurso sociopolítico que é quase certamente motivado por algo muito diferente dessa questão real. O frango clorado é quase certamente um símbolo de questões muito mais profundas, relativas à confiança", disse Ian Boyd, professor de biologia da Universidade de St. Andrews, na Escócia.

As especificidades dessa desconfiança são difíceis de identificar. A maioria envolve uma sensação de que os Estados Unidos são uma força incontrolável e que, se o comércio entre os dois países – agora de cerca de US$ 230 bilhões por ano – for irrestrito, não há como prever o que os americanos vão vender e prejudicar.

Um temor semelhante era evidente no caso de alguns defensores do Brexit. Segundo o argumento deles, o Reino Unido é singular, e envolvê-lo em uma união de 27 outros estados minou sua singularidade. A palavra "soberania" foi muito usada, além da sugestão de que grande parte dela havia sido perdida para o resto da Europa e tinha de ser recuperada.

De certa forma, o "frango clorado" é a nova soberania, e isso se reflete no discurso de alguns críticos veementes – como Tim Lang, professor emérito de política alimentar, que declarou em entrevista: "A questão é se o Reino Unido vai se tornar o 51º estado dos EUA."

Para Lang, a perspectiva de uma invasão avícola dos EUA não é apenas uma ansiedade abstrata em relação ao imperialismo agrícola. É uma questão de saúde e segurança. Ele observou que, no fim da década de 1980 e no início dos anos 1990, os britânicos foram sacudidos por uma série de surtos alimentares envolvendo salmonela, E. coli e a doença da vaca louca. A Agência de Normas Alimentares foi criada em 2000 com o objetivo de repensar os sistemas de processamento do país. Na mesma época, a União Europeia adotou o que chama de princípio de precaução quanto à segurança alimentar e à ambiental. "Em caso de dúvida, o consumidor ou o interesse ecológico triunfam sobre os negócios. É melhor presumir que pode haver um problema do que fazer vista grossa e descobri-lo mais tarde", escreveu ele em um e-mail, resumindo o princípio.

Lang e outros dizem que a abordagem dos EUA ao processamento alimentar é deixar a higiene de lado durante a criação, o crescimento e o abate, e depois compensar os lapsos no fim com um bom desinfetante. Os críticos apontam que isso não funciona particularmente bem. Como prova, Lang pediu a um colega que lhe enviasse um artigo que citava a afirmação do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA de que um em cada seis americanos era acometido por uma doença de origem alimentar todos os anos. O artigo acrescentava que, no Reino Unido, esse número, segundo a Agência de Normas Alimentares, era de um em 60.

O mergulho no cloro não é apenas nojento. É ineficaz. No entanto, Tom Super, porta-voz do Conselho Nacional do Frango, que representa as empresas que processam cerca de 95 por cento do frango americano, diz que isso é besteira. Ele apontou que o próprio site da Agência de Normas Alimentares do Reino Unido contém uma advertência sobre a comparação dos números de doenças transmitidas por alimentos entre os países. "A gama de metodologias de estudo varia entre os países e dentro deles. Isso torna qualquer comparação e interpretação das diferenças um desafio", diz o site.

Super observou que apenas cinco por cento das galinhas são lavadas com cloro porque a indústria adotou um limpador melhor. (Ácido peracético, caso você esteja curioso.) Mas acrescentou que o foco no modo como as galinhas são lavadas não leva em conta a segurança e os cuidados incorporados no sistema dos EUA, a começar pela forma como os ovos são chocados e as galinhas, alimentadas. Padrões de higiene mais baixos? De acordo com ele, é uma bobagem total, uma desculpa para o protecionismo, que ignora as descobertas da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar; esta, em 2008, não encontrou nenhuma evidência de que o frango clorado seja inseguro. "A ciência está do nosso lado; os dados estão do nosso lado. Os americanos comem cerca de 150 milhões de porções de frango por dia, e praticamente tudo com segurança. Enviaríamos para o Reino Unido o mesmo frango que agora damos a nossos filhos e que exportamos para cem países ao redor do mundo", argumentou Super.

O momento para qualquer acordo comercial entre os EUA e o Reino Unido é desconhecido; a administração Biden falou pouco do assunto. Katherine Tai, representante comercial dos EUA, afirmou em sua audiência de confirmação que queria um pacto que "priorizasse o interesse dos trabalhadores americanos e apoiasse uma forte recuperação da nossa economia".

Vários especialistas em comércio frisaram que as negociações podem levar anos, em grande parte porque o acordo não parece ser uma alta prioridade nos Estados Unidos. Contudo, segundo Boyd, uma longa espera pode ser exatamente aquilo de que os britânicos precisam. Ele explicou que a agricultura aqui há tempos influencia a psique nacional, que supera em muito seu real significado econômico. Os consumidores aqui estão mais interessados em sustentar uma instituição – a agricultura – do que em comprar carne um pouco mais barata. E dar palestras ao público britânico sobre estudos e resultados de testes não mudará isso. "Se fôssemos abordar os temores em relação ao frango dos EUA com argumentos baseados em provas e campanhas publicitárias caras, então algo mais surgiria. Esse é um problema sociopolítico que será resolvido por meio de uma parceria esclarecida para construir uma relação comercial, e não intimidando as pessoas com fatos científicos", analisou Boyd.

David Henig, diretor do Projeto de Política Comercial do Reino Unido, que faz parte de um think tank em Bruxelas, declarou que o comércio entre os países continuará, mencionando termos e acordos que vigoram há anos. Quando os Estados Unidos se prepararem para enfrentar as questões mais espinhosas, os britânicos estarão prontos. "O lado britânico está ansioso por um acordo. Só não está interessado no frango."

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