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Sem boi, alta de preço e frigoríficos fechados: o que acontece com a carne nos EUA

Menor rebanho bovino desde 1952 pressiona margens dos frigoríficos, eleva preços da carne e força a Tyson a reduzir capacidade nos EUA

Fachada da Tyson Foods nos EUA: Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões.

Fachada da Tyson Foods nos EUA: Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões.

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 14 de agosto de 2026 às 11h21.

A Tyson Foods, um dos maiores frigoríficos dos Estados Unidos, anunciou o fechamento de duas unidades e a intenção de vender outra em meio à escassez de gado que pressiona a indústria americana de carne bovina. A empresa encerrará as atividades da unidade de carne bovina em Joslin, Illinois, que emprega mais de 2 mil pessoas e tem capacidade para abater cerca de 3 mil bovinos por dia.

A companhia também pretende vender a planta de Pasco, em Washington, com capacidade para aproximadamente 2 mil abates diários, e fechar a unidade de produtos de carne bovina pré-embalados, conhecida como case-ready, em Eagle Mountain, Utah.

A leitura do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME), porém, é que o impacto sobre a capacidade total de abate do país pode ser menor do que sugere o anúncio — embora a mudança seja relevante para a própria companhia.

“À primeira vista, o anúncio parece representar outra retirada significativa da capacidade de processamento de gado nos Estados Unidos, mas acreditamos que o impacto sobre a indústria será consideravelmente menor do que parece inicialmente”, afirmam os analistas Thiago Duarte e Guilherme Gutilla.

Isso porque a capacidade adicional que pode ser recuperada com o segundo turno de Amarillo é semelhante à retirada com o fechamento de Joslin. Além disso, Pasco está sendo colocada à venda, e não fechada.

No curto prazo, o banco espera uma redução da capacidade, já que Joslin será encerrada e ainda não há prazo para a retomada do segundo turno em Amarillo. Mais adiante, porém, se Pasco continuar funcionando sob um novo controlador, o impacto líquido sobre a capacidade total de abate dos Estados Unidos pode ficar próximo de zero.

O anúncio ocorre em um momento em que os frigoríficos americanos enfrentam um dos períodos mais difíceis do ciclo pecuário nos Estados Unidos, marcado pela menor disponibilidade de animais, aumento dos custos e margens apertadas.

Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. Já o rebanho bovino total dos EUA atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir as áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar o caixa.

Em 2025, a produção americana de carne bovina recuou 4% em relação ao ano anterior, para 11,8 milhões de toneladas. Com isso, os Estados Unidos perderam para o Brasil a liderança global na produção da proteína.

As restrições sanitárias impostas às importações de gado do México, um dos principais fornecedores dos Estados Unidos, em razão do avanço da bicheira-do-Novo-Mundo, adicionaram pressão à disponibilidade de animais no país.

O resultado é alta nos preços da carne bovina. Desde 2020, a valorização chega a 75%, segundo dados do Federal Reserve de St. Louis. Segundo o USDA, os preços da proteína estão 16% acima dos níveis registrados há um ano, tornando a carne bovina um dos principais símbolos da inflação persistente no país, especialmente às vésperas da temporada de churrascos de verão.

A falta de gado já aparece diretamente nos resultados da Tyson. No terceiro trimestre, a companhia projetou prejuízo entre US$ 500 milhões e US$ 650 milhões em sua operação de carne bovina no ano fiscal de 2026, que termina em 30 de setembro.

Os resultados divulgados no início deste mês reforçam esse cenário. A receita da divisão de carne bovina caiu 3,9% no terceiro trimestre, pressionada por uma redução de 16% no volume comercializado.

Carne nos EUA

Donnie King, CEO da Tyson, afirmou em comunicado que dados recentes do USDA mostram poucos sinais de que os pecuaristas estejam ampliando seus rebanhos. No ano passado, o departamento anunciou um plano para recompor o rebanho americano, mas o processo deve levar pelo menos dois anos para começar a apresentar resultados.

Para o executivo, as restrições de oferta devem persistir, o que exige uma resposta estratégica da companhia. A Tyson afirma que a reorganização busca fortalecer a competitividade de sua operação de carne bovina no longo prazo diante de uma das maiores escassezes de gado já enfrentadas pelos Estados Unidos.

Esta não é a primeira vez que a Tyson reduz sua capacidade de produção diante da deterioração do mercado. No ano passado, a empresa já havia anunciado o fechamento de uma unidade em Nebraska.

O movimento também não está restrito à companhia. JBS e Cargill encerraram operações em unidades nos Estados Unidos em 2025, em um movimento interpretado por analistas como sinal de que as condições da indústria são ainda mais difíceis do que o esperado.

Com a recomposição do rebanho ainda distante e a oferta de animais pressionada, a Tyson afirma que não pretende esperar pela recuperação do ciclo pecuário para melhorar seus resultados.

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