EXAME Agro

PIB do agro cresce 12% em 2025 — mas feito não deve se repetir em 2026

Segundo analistas ouvidos pela EXAME, a base de comparação elevada e incertezas climáticas devem limitar o avanço do setor neste ano

PIB do agro: Alta de 12% em volume do Valor Adicionado da agropecuária em 2025 veio principalmente do aumento da produção e da produtividade na agricultura. (Jaelson Lucas/AEN/Divulgação)

PIB do agro: Alta de 12% em volume do Valor Adicionado da agropecuária em 2025 veio principalmente do aumento da produção e da produtividade na agricultura. (Jaelson Lucas/AEN/Divulgação)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 3 de março de 2026 às 12h04.

O Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária cresceu 11,7% em 2025, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados nesta terça-feira, 3. Apesar do avanço expressivo, analistas ouvidos pela EXAME avaliam que será difícil repetir esse ritmo em 2026.

Para Renato Conchon, economista da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o crescimento próximo de 12% no ano passado foi um ponto fora da curva, uma vez que a base de comparação era mais fraca: em 2024, houve quebra de safra em algumas regiões do país, o que reduziu o nível de produção naquele ano.

Com a recuperação e a safra recorde registrada em 2025, o salto estatístico acabou sendo mais intenso. Agora, com uma base de comparação mais elevada, a tendência é de desaceleração. A estimativa da CNA é de que o PIB do agro cresça 1,2% em 2026.

“O cenário geral é positivo, mas há pontos de atenção climáticos que podem influenciar os resultados, especialmente considerando que 2025 foi um ano forte e elevou a base de comparação”, afirma Conchon. O PIB brasileiro teve alta de 2,3% em 2025 e atingiu R$ 12,7 trilhões no ano passado.

A alta de quase 12% no volume do Valor Adicionado da agropecuária em 2025 foi puxada principalmente pelo aumento da produção e da produtividade na agricultura.

Dados do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), do IBGE, mostram que diversas culturas registraram expansão no período, com destaque para o milho, cuja produção cresceu 23,6%, e para a soja, com alta de 14,6% — ambas atingindo recordes na série histórica.

Para 2026, segundo Conchon, a safra de soja se desenvolve bem, apesar de atrasos pontuais no plantio e do excesso de chuvas em algumas regiões, o que pode afetar a qualidade dos grãos durante a colheita.

Levantamento da AgRural mostra que 39% da área cultivada no país estava colhida até quinta-feira, 26, contra 30% uma semana antes e 50% no mesmo período do ano passado. Com isso, o ritmo dos trabalhos se manteve como o mais lento desde a safra 2020/21.

Também há atrasos no plantio do milho segunda safra em determinadas áreas, fator que pode gerar impactos no segundo trimestre de 2026, diz Conchon.

Para Felippe Serigati, pesquisador do FGV Agro, o excesso de chuvas tem afetado a colheita da soja e, consequentemente, atrasado a entrada das áreas para o ciclo seguinte. Esse atraso impacta o plantio do milho safrinha, que em algumas localidades já está ficando fora da janela ideal, aumentando o risco de quebra de safra para o produtor.

“Parte dos agricultores do Centro-Oeste avalia substituir o milho de segunda safra por sorgo, que tem ciclo mais curto e consegue ser encaixado dentro da janela mais adequada. Ainda assim, há muita coisa para acontecer, já que boa parte do milho safrinha ainda está em fase inicial de desenvolvimento”, afirma.

Nas projeções do pesquisador, o PIB do agro deve crescer 1,0% em 2026, reforçando a expectativa de desaceleração após o forte avanço registrado em 2025.

PIB do agro na economia

O desempenho de 2025 elevou a participação do agro no PIB total do Brasil para 7,54%, acima dos 6,9% registrados em 2024. Em 2023, o setor representava 7,2% da economia; em 2022, 6,8%; e, em 2021, 7,5%, diz Conchon.

Segundo a CNA, sem o crescimento da agropecuária, o PIB brasileiro não teria avançado 2,3% em 2025, mas apenas 1,5%.

Apesar da desaceleração prevista para 2026, o cenário segue construtivo. A combinação de investimentos em tecnologia e perspectivas favoráveis para a maior parte das cadeias produtivas sustenta a expectativa de novo crescimento — ainda que bem mais moderado do que o observado no ano passado.

"Ainda é cedo, porém, para fechar qualquer número definitivo para 2026, sobretudo porque há um peso expressivo do milho safrinha no cálculo do PIB agropecuário. O plantio ainda está em andamento em várias regiões, e é preciso aguardar para entender se a produtividade cairá", diz Francisco Faria, do FGV-Ibre.
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