Segurança alimentar do mundo depende de um frágil equilíbrio que envolve política, sustentabilidade e economia (Wikimedia Commons)
Repórter
Publicado em 10 de setembro de 2026 às 06h01.
A combinação de guerras, alta dos preços dos fertilizantes, mudanças climáticas e ataques à infraestrutura alimentar pode provocar uma nova onda de instabilidade no sistema alimentar global nos próximos anos, aponta um estudo do Council on Foreign Relations (CFR). A análise realça riscos crescentes e imediatos, especialmente para 2027 e 2028.
O estudo foi motivado por novos ataques russos contra instalações de exportação de alimentos na Ucrânia. No fim de julho, o Kremlin atingiu navios cargueiros no porto de Odesa, reduzindo a capacidade de um dos principais corredores de exportação de grãos do país. Em resposta, a Ucrânia atacou o porto russo de Novorossiysk e danificou dois terminais de exportação de grãos.
Para o CFR, o episódio mostra como a alimentação passou a ser incorporada à lógica da guerra moderna, sendo utilizada basicamente como armamento — o uso de alimentos como instrumento estratégico não é novo, mas ganhou alcance internacional com a globalização das cadeias agrícolas, o que permite que conflitos locais provoquem impactos muito além das fronteiras dos países envolvidos.
O exemplo da Rússia é particularmente preocupante. Segundo o estudo, o país vem utilizando as exportações de trigo como instrumento de influência sobre países africanos cuja cooperação diplomática é importante para Moscou. Ao mesmo tempo, grupos armados e governos também podem utilizar bloqueios, restrições à ajuda humanitária e destruição de infraestrutura para controlar populações ou pressionar adversários.
Segundo o CFR, o fenômeno pode assumir três formas principais: a manipulação das rotas de abastecimento e de ajuda alimentar, a criação ou exploração deliberada da insegurança alimentar e o ataque à infraestrutura responsável pela produção e distribuição de alimentos. A destruição de plantações, armazéns, reservatórios de água, estradas e portos também é destacada no estudo como uma ferramenta de coerção.
Na Ucrânia, os efeitos já são visíveis. Nos primeiros nove dias de agosto, o país exportou 463 mil toneladas de grãos, cerca de um terço do ritmo médio registrado antes da retomada dos ataques russos. A suspensão das operações das empresas de navegação ocorreu após um ataque com mísseis contra um navio carregado de milho, que resultou na morte de 10 tripulantes.
Apesar da gravidade da situação, as alternativas também são limitadas: o transporte terrestre pode custar entre US$ 50 e US$ 70 a mais por tonelada, enquanto os baixos níveis de água no rio Danúbio, um dos principais da Europa, localizado no leste do continente, reduziram a capacidade desse corredor de transportar volumes significativos de carga.
Uma nova interrupção prolongada nas exportações ucranianas poderia, portanto, reproduzir parte do choque observado em 2022, apura o CFR.
O problema, porém, não está apenas na redução da oferta de grãos e é complexo e interligado a uma série de fatores e variáveis, do clima aos conflitos e à economia.
Por exemplo, o sistema agrícola global enfrenta dificuldades com insumos em decorrência de múltiplos fatores: a guerra entre os Estados Unidos e o Irã e a interrupção parcial do tráfego no Estreito de Ormuz afetaram o fluxo de fertilizantes, enquanto o fenômeno El Niño ameaça reduzir a produção de algumas das principais culturas agrícolas do mundo.
Os preços dos grãos já refletem parte dessa pressão. Entre janeiro e julho de 2026, o preço do trigo no Hemisfério Norte subiu, em média, 24%; o arroz avançou 14%, a soja aumentou 8% e o milho teve alta de 4%. Ao mesmo tempo, agricultores reduziram as compras de fertilizantes após o salto de preços registrado em abril, uma decisão que pode afetar as próximas safras.
Por sua vez, o comportamento dos fertilizantes também é desigual:
"Para os agricultores, a alta dos preços coincide justamente com a temporada de compras. Os produtores do Hemisfério Norte, assim como os do Brasil, decidem sobre a compra de insumos para a segunda safra de milho entre setembro e dezembro — período em que a soja ainda está no campo e bem antes das respectivas janelas de plantio. Com a ureia barata e o fosfato caro, muitos podem optar por comprar o primeiro insumo em detrimento do segundo. Isso aumenta o risco de uma futura queda na produtividade, pois o solo possui uma reserva de fosfato capaz de suprir a ausência de fertilizante por uma safra, mas não por duas. Esse é mais um fator que contribui para uma possível crise alimentar em 2027", diz o CFR.
"Super El Niño" ameaça estabilidade climática sobre a qual plantios no mundo todo dependem, pondo em risco plantações que suprem o mercado global
Essa diferença pode produzir efeitos que vão além da próxima colheita. O solo consegue compensar a ausência de aplicação de fosfato por uma temporada, utilizando reservas acumuladas, mas uma segunda temporada de déficit tende a esgotar esses estoques.
O CFR estima que os impactos mais graves dessa dinâmica podem surgir em 2028, caso os produtores continuem a reduzir o uso do nutriente. O risco é particularmente relevante para produtores do Hemisfério Norte e do Brasil, que tomam decisões sobre a compra de insumos para determinadas culturas meses antes do plantio.
A pressão sobre a oferta agrícola, em turno, soma-se ainda às condições climáticas. Segundo o estudo, a Organização Meteorológica Mundial prevê que o El Niño de 2026 eleve as temperaturas e altere significativamente os padrões de precipitação por todo o mundo. O Centro de Previsão Climática da NOAA, entidade norte-americana, estima uma probabilidade de 90% de um El Niño muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
Os efeitos podem afetar diferentes regiões produtoras em todo o mundo. Dados analisados pelo CFR indicam riscos para o trigo australiano, o arroz indiano e, inclusive, a soja brasileira. Historicamente, episódios de El Niño reduziram as colheitas australianas de trigo, enquanto a Índia e o Brasil podem enfrentar, respectivamente, excesso de chuvas e combinação de calor e seca durante fases importantes das lavouras.
O resultado é uma convergência de choques que, normalmente, seriam analisados separadamente: de um lado, os ataques russos ameaçam a produção e as exportações de grãos ucranianos; de outro, a crise no Oriente Médio pressiona a economia, afetando a disponibilidade de fertilizantes. Ao mesmo tempo, o clima acrescenta uma terceira fonte de incerteza às próximas safras.
Para o CFR, esse cenário, quando considerado apenas por suas partes, pode gerar efeitos cumulativos sobre o sistema alimentar internacional nos próximos 12 a 24 meses, especialmente porque os choques atingem simultaneamente as duas pontas da cadeia agrícola: a oferta de insumos necessários à produção de alimentos e a capacidade de exportar a produção já existente.
O estudo defende, portanto, que os governos passem a tratar a segurança das cadeias agrícolas e a preservação do meio ambiente com a mesma prioridade dada às estruturas de defesa. A competição por estoques limitados de grãos e fertilizantes, combinada à disposição de governos e grupos armados de utilizar o acesso aos alimentos como instrumento de pressão, aumenta a vulnerabilidade do sistema global.
"Compreender a instrumentalização dos alimentos como arma — na interseção entre agricultura, mudanças climáticas, mobilidade humana, insurgências, cadeias de suprimentos e guerras comerciais — oferece um modelo para entender os novos conflitos do século XXI que se avizinham. Em suma: se planejadores estratégicos e formuladores de políticas compreenderem essa dinâmica, estarão um passo mais próximos de estarem preparados para enfrentar conflitos multidimensionais nas próximas décadas", conclui o estudo.