Carne bovina: produção dos EUA deve cair 1% neste ano, projeta USDA (Freepik)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 14h19.
Os Estados Unidos devem ampliar as importações de carne bovina em 2026 diante da crise estrutural que atinge a pecuária local, estima o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) em relatório de fevereiro.
A nova estimativa elevou as compras externas para 2,53 milhões de toneladas, alta de 22,7 mil toneladas em relação ao relatório anterior.
Enquanto as importações avançam, as exportações permanecem projetadas em 1,1 milhão de toneladas.
No início de fevereiro, o presidente dos EUA, Donald Trump, assinou uma ordem executiva para ampliar as importações de carne da Argentina. A expectativa é que o aumento contribua para a queda dos preços no mercado doméstico.
A crise enfrentada pelos pecuaristas se intensificou nos últimos cinco anos. O setor vive uma contração do ciclo pecuário, marcada pela redução do rebanho e menor oferta de animais para confinamento.
Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. O rebanho total de bovinos está no menor nível desde 1952, segundo o USDA.
A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar caixa.
Em 2025, a produção da proteína americana recuou 4% em relação a 2024, para 11,8 milhões de toneladas, o que fez o país perder o posto para o Brasil como o maior produtor mundial de carne bovina.
No outono passado, o USDA lançou um plano para apoiar pecuaristas na expansão dos rebanhos, incluindo maior acesso a áreas de pastagem.
Ainda assim, muitos produtores seguem optando por vender os animais para abate, em vez de mantê-los para reprodução, diante de secas prolongadas e altos custos de insumos.
Mesmo com sinais recentes de recomposição, a recuperação é lenta e pode levar de dois a três anos entre o nascimento do bezerro e o abate.
“Esse é um processo lento, pois leva de dois a três anos para criar um bezerro até o abate”, afirma Fernando Iglesias, analista de pecuária da Safras & Mercado.
O ambiente de oferta restrita e margens pressionadas também tem provocado reestruturações na indústria frigorífica.
Na sexta-feira, 13, a Cargill anunciou o fechamento definitivo de sua fábrica de processamento de carne bovina em Milwaukee, Wisconsin, com a eliminação de 221 empregos — a unidade interrompe a produção em meados de abril e encerra as atividades no fim de maio.
A decisão se soma a movimentos recentes de concorrentes. Em dezembro, a JBS Foods, braço americano da brasileira JBS, informou o encerramento permanente de uma unidade nos arredores de Los Angeles.
Antes disso, a Tyson Foods fechou uma fábrica em Nebraska, citando dificuldades no abastecimento de gado.
Apesar da retração atual, há sinais de ajuste no médio prazo. A projeção de produção para 2026 foi revisada para cima e agora está estimada em 11,76 milhões de toneladas — incremento de 83,9 mil toneladas em relação à previsão anterior, segundo o USDA.
A revisão considera aumento líquido no abate e pesos médios de carcaça acima do esperado no início do ano.
O cenário indica que, mesmo com a continuidade da contração do rebanho, ganhos de produtividade e ajustes no ritmo de abate podem sustentar uma leve recomposição da oferta em 2026 — ainda que o ciclo pecuário siga como o principal vetor de volatilidade do setor.
No mercado de boi gordo, o preço médio em janeiro nas cinco principais áreas de comercialização foi de US$ 234,58 por cwt, US$ 8,32 acima de dezembro e mais de US$ 30 superior ao recorde anterior para o mês. Na primeira semana de fevereiro, a média alcançou US$ 241,31 por cwt.
CWT é a sigla para hundredweight, unidade de peso utilizada nos EUA na comercialização de commodities agropecuárias, especialmente gado e carne.
Com base nos dados recentes, a projeção de preço para 2026 foi elevada em US$ 4,50, para US$ 240,25 por cwt — quase 7% acima do estimado para 2025.
Mesmo com possíveis pressões sazonais no curto prazo, o cenário estrutural de oferta restrita mantém o viés de alta para o mercado pecuário americano em 2026.