EXAME Agro

Brasil ultrapassa os EUA e se consolida como maior produtor global de carne bovina em 2025

O novo ranking evidencia diferenças estruturais relevantes entre os dois maiores produtores do mundo

Carne bovina rastreável: governo do Pará anunciou a meta de ampliar o sistema para 100% do rebanho até 2030  (Bruno Cecim/Ag. Pará/Divulgação)

Carne bovina rastreável: governo do Pará anunciou a meta de ampliar o sistema para 100% do rebanho até 2030 (Bruno Cecim/Ag. Pará/Divulgação)

China2Brazil
China2Brazil

Agência

Publicado em 22 de dezembro de 2025 às 21h51.

Em 2025, o Brasil alcançou um marco histórico na pecuária mundial. Segundo dados oficiais do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o país superou os Estados Unidos e tornou-se o maior produtor global de carne bovina, consolidando uma posição que já vinha sendo construída ao longo de décadas por meio de ganhos de escala, produtividade e inserção internacional.

Mais do que uma mudança estatística, o novo ranking evidencia diferenças estruturais relevantes entre os dois maiores produtores do mundo — incluindo modelos produtivos, práticas regulatórias e exigências sanitárias, entre elas o uso de hormônios na produção de carne bovina.

Relatório do USDA

De acordo com o relatório “Livestock and Poultry: World Markets and Trade”, publicado pelo USDA – Foreign Agricultural Service, a produção brasileira de carne bovina em 2025 foi estimada em aproximadamente 12,35 milhões de toneladas em equivalente carcaça, enquanto a produção norte-americana ficou em torno de 11,81 milhões de toneladas.

Essa é a primeira vez na série histórica do USDA que o Brasil ocupa isoladamente a liderança mundial em produção de carne bovina, superando os Estados Unidos segundo a metodologia internacionalmente aceita de equivalente carcaça.

O crescimento da produção brasileira não está associado a uma expansão indiscriminada de área ou ao uso intensivo de insumos proibidos, mas sim a fatores estruturais consolidados como avanços genéticos e nutricionais, a melhoria no manejo de pastagens, maior eficiência produtiva por animal, além da profissionalização da cadeia frigorífica e a adequação crescente a protocolos sanitários internacionais.

Esses elementos permitiram ao Brasil elevar o volume produzido mantendo competitividade e acesso a mercados altamente regulados.

Um dos pontos mais relevantes — e frequentemente mal compreendidos no debate internacional — diz respeito ao uso de hormônios como promotores de crescimento. No Brasil, o uso de hormônios para promoção de crescimento em bovinos destinados à produção de carne é proibido por legislação federal.

Essa diretriz é estabelecida e fiscalizada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), por meio de seus sistemas de controle sanitário, registro de produtos veterinários e fiscalização oficial.

O uso de hormônios

A carne bovina produzida no Brasil não utiliza hormônios como promotores de crescimento, é submetida a programas oficiais de inspeção, e atende a exigências sanitárias de mercados que proíbem esse tipo de substância, como a União Europeia.

É importante destacar que substâncias hormonais podem ser utilizadas em protocolos reprodutivos, como sincronização de cio, o que é tecnicamente distinto do uso de hormônios para engorda ou ganho de peso. Esses procedimentos são regulados, rastreáveis e não têm relação com resíduos hormonais na carne destinada ao consumo.

Nos Estados Unidos, o cenário regulatório é diferente. O uso de hormônios como promotores de crescimento em bovinos de corte é legal e amplamente adotado, sob regulamentação da U.S. Food and Drug Administration (FDA).

Esses hormônios, naturais ou sintéticos, são utilizados por meio de implantes para acelerar o ganho de peso, melhorar a conversão alimentar, e reduzir custos de produção.

As autoridades sanitárias norte-americanas consideram essa prática segura para o consumo humano, e a carne produzida sob esse modelo é amplamente comercializada no mercado interno e em países que aceitam esse tipo de tecnologia.

Por outro lado, essa carne não é aceita em mercados que proíbem hormônios, como a União Europeia, o que historicamente gerou disputas comerciais internacionais

Para países importadores, em especial a China, maior compradora mundial de carne bovina, essas diferenças regulatórias são estratégicas.

O Brasil reúne hoje três atributos fundamentais como escala produtiva, capacidade de fornecimento contínuo, e produção alinhada a mercados que restringem o uso de hormônios.

Esse conjunto fortalece a posição brasileira como fornecedor estratégico de proteína animal, especialmente em um contexto de crescente atenção global à segurança alimentar, rastreabilidade e exigências sanitárias.

O próprio USDA projeta que, em 2026, a produção brasileira possa recuar levemente, aproximando-se novamente da produção norte-americana, em função do ciclo pecuário. Ainda assim, o marco de 2025 permanece simbólico e estrutural.

O Brasil deixa de ser apenas o maior exportador para se consolidar também como o maior produtor mundial de carne bovina, com um modelo produtivo que combina escala, competitividade e aderência a normas sanitárias restritivas.

A liderança brasileira na produção mundial de carne bovina em 2025 reflete mais do que volume. Ela expressa um modelo produtivo distinto, baseado em eficiência, clima favorável, tecnologia tropical e proibição do uso de hormônios como promotores de crescimento, em contraste com o modelo adotado pelos Estados Unidos.

Para o mercado global — e particularmente para a China — esse diferencial amplia a relevância estratégica do Brasil como fornecedor confiável de proteína animal em um cenário de transformação da geopolítica dos alimentos.

Acompanhe tudo sobre:Carne bovina

Mais de EXAME Agro

Tempestades geram prejuízo de 3 bilhões de euros na agricultura da Andaluzia

Trump amplia importação de carne da Argentina para conter preços nos EUA

Tarifa dos EUA sobre café solúvel deve cair em março, projeta setor brasileiro

Syngenta prepara IPO para levantar até US$ 10 bilhões em Hong Kong, diz jornal