EXAME Agro

Gado mexicano anima frigoríficos, mas não resolve crise nos EUA

Retomada das importações melhora o cenário para frigoríficos americanos, mas impacto é insuficiente para encerrar ciclo de baixa rentabilidade, diz BTG

Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. Já o rebanho bovino total dos Estados Unidos atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do USDA.

Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. Já o rebanho bovino total dos Estados Unidos atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do USDA.

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 28 de julho de 2026 às 10h12.

A decisão do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) de reabrir, de forma gradual, a fronteira sul para a importação de gado mexicano foi recebida com entusiasmo pelo mercado financeiro.

Desde o anúncio, as ações dos frigoríficos americanos subiram cerca de 8% em média, refletindo a expectativa de melhora nas margens do setor. Na avaliação do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME), porém, a reação parece otimista demais.

A fronteira foi fechada em 2025 após a detecção de casos do verme-da-bicheira-do-Novo Mundo no México, uma praga que representa risco ao rebanho bovino. A medida buscou evitar a entrada da doença nos EUA e proteger a pecuária local. Com o avanço das ações de controle sanitário, o governo americano iniciou agora uma reabertura gradual das importações de gado.

Em relatório divulgado nesta terça-feira, 28, os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla afirmam que a medida representa um catalisador positivo para a indústria, mas está longe de solucionar o principal problema enfrentado pelos frigoríficos dos EUA, a escassez estrutural de gado para abate.

"A forma como vemos, o mercado está precificando uma narrativa de fundo do poço, ou o primeiro catalisador positivo em uma história de baixa que já dura 18 meses. Isso é uma boa notícia, mas não é uma panaceia", afirmam os analistas no relatório.

Segundo o banco, a reabertura da fronteira deve aumentar a disponibilidade de animais para abate e elevar a utilização das plantas frigoríficas, mas o efeito é limitado diante da magnitude do ciclo pecuário americano.

O principal argumento dos analistas é de que a rentabilidade dos frigoríficos depende muito menos do preço do boi e muito mais da taxa de utilização de suas plantas industriais.

A análise ocorre em um momento em que os frigoríficos americanos enfrentam um dos períodos mais difíceis do ciclo pecuário nos EUA, com aumento de custos e margens apertadas.

Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. Já o rebanho bovino total dos Estados Unidos atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do USDA.

A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar o caixa.

Em 2025, a produção americana de carne bovina recuou 4% em relação ao ano anterior, para 11,8 milhões de toneladas. Com isso, os Estados Unidos perderam para o Brasil a liderança global na produção da proteína. O resultado foi uma deterioração das margens do setor.

"O que determina a criação de valor em mercados de commodities é a escassez, não a abundância. Os frigoríficos possuem capacidade de abate. Quando essa capacidade se torna abundante em relação à oferta de gado, eles acabam ficando com uma parcela menor dos lucros da cadeia", afirmam Duarte e Guttilla.

Os gráficos apresentados pelo BTG mostram que existe forte correlação entre a utilização das plantas e as margens operacionais de empresas como JBS, Tyson Foods e MBRF. À medida que a utilização caiu nos últimos anos, as margens acompanharam o movimento.

Mesmo considerando um cenário otimista, em que o México exporte 1,4 milhão de cabeças de gado para os Estados Unidos em 2027 — volume considerado o limite sustentável sem comprometer o abastecimento mexicano —, o impacto seria relativamente pequeno.

Segundo as estimativas do BTG, esse fluxo adicional representaria aproximadamente um ano e meio de oferta extra de animais, fazendo com que, ao final de 2027, a taxa de utilização dos frigoríficos americanos estivesse apenas próxima dos níveis observados atualmente.

"Em um cenário otimista, estimamos que isso daria à indústria americana cerca de um ano e meio adicional de oferta de gado durante um ciclo de baixa que pode durar mais do que o dobro desse período. Isso é bom? Sim. É suficiente? Muito provavelmente, não", afirmam os analistas.

Na prática, o banco argumenta que a indústria continuará enfrentando um ambiente de margens pressionadas enquanto o rebanho americano não voltar a crescer de forma consistente.

Crise da carne

Segundo análise do BTG, os Estados Unidos permanecem em uma fase inicial do processo de retenção de novilhas, etapa considerada fundamental para a reconstrução do rebanho bovino.

Atualmente, 48,5% dos bovinos abatidos nos EUA são fêmeas, como vacas e novilhas. Para o BTG Pactual, esse percentual ainda é alto e indica que muitos produtores seguem enviando essas fêmeas para os frigoríficos, em vez de mantê-las nas fazendas para reprodução.

O banco estima que essa participação precisa cair para cerca de 43%, sinalizando que mais vacas estão sendo preservadas para gerar bezerros e recompor o rebanho. Só então a oferta de gado poderá crescer de forma mais consistente no médio prazo.

Enquanto isso não acontece, a disponibilidade de animais para abate continuará restrita, limitando a recuperação da indústria.

O relatório mostra que o fechamento da fronteira provocou um crescimento do rebanho mexicano, que passou de aproximadamente 17 milhões para 19 milhões de cabeças entre 2021 e 2025.

Como cerca de 1,2 milhão de animais deixaram de ser exportados anualmente durante o período de restrições, eles permaneceram no mercado mexicano, ampliando o estoque disponível.

Mesmo assim, os analistas ponderam que o potencial de exportação possui um limite. Segundo suas estimativas, o México consegue enviar aproximadamente 1,4 milhão de cabeças aos EUA sem comprometer sua própria oferta doméstica de carne bovina.

Outro fator que reduz o impacto imediato da medida é que a reabertura começou apenas pelo posto de Douglas, no Arizona, responsável por cerca de 16% das entradas de gado mexicano em 2024 — os maiores corredores de importação continuam fechados, incluindo Santa Teresa e Columbus.

Acompanhe tudo sobre:ExportaçõesCarne bovinaEstados Unidos (EUA)México

Mais de EXAME Agro

China aposta na planta que cresce mais rápido no mundo para conter desertos

Milho e trigo: o estrago bilionário da onda de calor europeia na produção de alimentos

Por que a China virou trunfo deste frigorífico em meio a margens apertadas

Por que a Argentina deve colher mais trigo e menos milho na safra 2026/27