Colheita de milho no Brasil: a Argentina caminha para uma produção de 63 milhões de toneladas em 2025/26, segundo projeções da HedgePoint, em linha com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). (Mateus Bonomi/Anadolu Agency/Getty Images)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 20 de agosto de 2026 às 06h00.
O Brasil precisa exportar ao menos 40 milhões de toneladas de milho na safra 2025/26 para equilibrar a oferta doméstica. Mas dois movimentos dificultam a tarefa: a Argentina chega com uma supersafra e pode embarcar 45 milhões de toneladas, enquanto o Irã, principal comprador do milho brasileiro em 2025, já reduziu as compras em 43% neste ano por causa da guerra.
A combinação pode levar a Argentina a ultrapassar o Brasil e assumir o posto de segundo maior exportador mundial, atrás dos Estados Unidos, segundo Luiz Roque, coordenador de Inteligência de Mercado da HedgePoint Global Markets.
“Com essa oferta tão grande, os argentinos podem exportar 45 milhões, podem passar o Brasil, né, como segundo maior exportador. E naturalmente, por questões logísticas, isso pode tirar volumes do Brasil”, afirmou Roque.
A Argentina caminha para uma produção de 63 milhões de toneladas em 2025/26, segundo projeções da HedgePoint, em linha com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). O volume representa um salto de 29% em relação à temporada anterior.
A Bolsa de Comércio de Rosário (BCR) trabalha com uma estimativa ainda maior, de 70 milhões de toneladas. Para o Brasil, a projeção é de 143 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Com mais milho disponível, as exportações argentinas podem saltar de 29,1 milhões para 45 milhões de toneladas, avanço de quase 55%. Os embarques mensais já mostram aceleração, e o país chega à disputa com outra vantagem.
“Eles estão com um preço muito competitivo, melhor do que o Brasil, e está chamando a atenção do mercado internacional”, disse Roque.
Antes da projeção da consultoria, o USDA levantou a hipótese de o país vizinho superar o Brasil. Nas projeções do USDA, os embarques argentinos devem atingir 45 milhões de toneladas, enquanto os brasileiros devem chegar a 42 milhões de toneladas.
Do lado brasileiro, a HedgePoint reduziu de 43 milhões para 41 milhões de toneladas sua projeção de exportações. Segundo Roque, agentes do mercado já trabalham com números ainda menores, próximos de 38 milhões de toneladas.
Se confirmado, o resultado do país vizinho deve marcar uma recuperação depois de a produção argentina ter sido afetada pela cigarrinha-do-milho, que provocou perdas nas lavouras ao disseminar doenças como o enfezamento e derrubou a produção da Argentina.
A concorrência argentina ganha peso porque um dos principais compradores do Brasil pisou no freio. O Irã foi o maior destino do milho brasileiro em 2025, com 9 milhões de toneladas, mas a guerra por lá, desde o fim de fevereiro, e os problemas logísticos mudaram esse cenário.
Entre janeiro e julho de 2026, os embarques brasileiros para o país recuaram 43% em relação ao mesmo período de 2025, de 2,69 milhões para 1,54 milhão de toneladas, segundo a HedgePoint.
“Se esse conflito perdurar por mais tempo, naturalmente a gente pode ver esse volume comprado pelo Irã diminuindo ainda mais”, afirmou Roque.
Outros mercados começaram a ocupar parte desse espaço. As exportações para o Vietnã cresceram 83% no período, para 1,62 milhão de toneladas. As vendas ao Egito avançaram 57%, para 2,61 milhões, enquanto as destinadas à Argélia aumentaram 76%, alcançando 701 mil toneladas.
A dúvida é se esses compradores conseguirão compensar uma retração prolongada do Irã. Na avaliação de Roque, ainda é cedo para cravar esse cenário.
A União Europeia também pode abrir uma janela para o cereal brasileiro diante dos problemas enfrentados pelas ondas de calor, que reduziram sua própria produção, mas Brasil, Estados Unidos e Argentina disputam esse mercado — e o produto argentino aparece atualmente como o mais barato entre os três, segundo Roque.
O Brasil ainda conta com uma demanda doméstica bem mais forte do que no passado. A Conab estima que o consumo doméstico do milho no país aumente 4,8% em relação à safra 2024/25 e alcance 95 milhões de toneladas.
Nas projeções da Hedgepoint, a expansão do etanol de milho deve elevar de 23 milhões para 28,5 milhões de toneladas o volume do cereal destinado à produção do biocombustível nesta temporada. Com o E32, esse consumo pode se aproximar de 29 milhões de toneladas.
O E32, nova especificação da gasolina vendida no Brasil, elevou de 27% para 32% a mistura obrigatória de etanol anidro. A medida, aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), amplia a demanda pelo biocombustível e também abre mais espaço para o etanol produzido a partir do milho.
O consumo adicional ajuda a absorver parte da oferta do cereal no mercado interno, mas ainda não elimina a necessidade de o Brasil exportar grandes volumes.
“É óbvio que o mercado interno aumentando entre 5 e 6 milhões de toneladas, como está aumentando nesse ano, para etanol é um fator de suporte, mas ainda depende de vender pelo menos 40 milhões para o exterior para poder tirar milho do Brasil”, disse Roque.
Não seria a primeira vez que a Argentina superaria o Brasil nos embarques do cereal. O país vizinho já superou o Brasil nas exportações de milho em diferentes safras, especialmente antes da consolidação da segunda safra brasileira e em anos marcados por problemas climáticos no país.
Um exemplo ocorreu na temporada 2020/21, quando a quebra do milho de segunda safra reduziu a oferta brasileira para exportação e abriu espaço para os argentinos.