(Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 15 de julho de 2026 às 08h55.
Para idosos, o uso do reconhecimento facial em aplicativos e dispositivos pode ser um problema maior do que para pessoas mais jovens.
Segundo testes do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia (NIST, na sigla em inglês), dos Estados Unidos, a taxa de erro de um sistema de reconhecimento facial salta de cerca de 1% entre pessoas na faixa dos 20 anos para até 5% entre quem tem 70 anos ou mais — o que quer dizer que, para a terceira idade, o risco de falha pode ser até cinco vezes maior.
A situação é preocupante principalmente porque a biometria facial é amplamente usada em aplicativos de bancos, carteiras digitais e serviços governamentais (como o site do Gov.br) para autenticação e prova de vida.
As razões são físicas e técnicas. Os sistemas de biometria comparam a imagem capturada na hora com uma foto registrada antes — e o envelhecimento altera justamente os traços que o algoritmo usa para reconhecer alguém.
Rugas, flacidez, mudanças na estrutura da pele e alterações de peso ao longo dos anos reduzem a semelhança entre as duas imagens.
O problema se agrava quando a foto de referência é antiga.
Muitos idosos têm no cadastro uma imagem tirada há anos, o que amplia a distância entre o rosto atual e o registrado.
Além disso, boa parte dos algoritmos é treinada com bases de dados que contêm menos exemplos de rostos envelhecidos, o que os torna menos precisos para esse grupo.
A dificuldade não se limita ao reconhecimento facial nem à fisiologia. Há uma barreira estrutural que atinge os mais velhos de forma desproporcional — a falta de dispositivos compatíveis, a internet limitada e o baixo letramento digital.
Para Fernando Eduardo Cardoso, coordenador do curso de Gestão Pública da Uniasselvi, a exclusão é perigosa justamente por ser silenciosa.
"Aos poucos, os serviços se tornam digitais, e não percebemos aqueles que não são incluídos no novo modelo", disse em entrevista ao site Viva, especializado em pessoas acima dos 50 anos.
Na prática, a biometria exige que a pessoa segure o celular na altura do rosto, permaneça imóvel por alguns segundos, mantenha os olhos abertos de determinada forma e garanta boa iluminação — uma sequência de exigências que pode ser difícil para quem tem menos familiaridade com a tecnologia ou limitações motoras e visuais.
Após várias tentativas malsucedidas, o sistema costuma bloquear novos acessos até o dia seguinte.
As consequências aparecem no uso cotidiano de serviços essenciais.
No portal do governo, que usa a biometria facial como um de seus pilares de autenticação, usuários relatam bloqueios na etapa de reconhecimento mesmo com a biometria já cadastrada.
O problema afeta especialmente idosos, trabalhadores e famílias que dependem da conta para solicitar benefícios sociais e emitir documentos.

O problema não é só de acessibilidade. Segundo o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), idosos, pessoas negras, indígenas e pessoas trans estão entre os que mais relatam dificuldade com a biometria facial.
A entidade aponta duas causas distintas: para idosos, pesam o envelhecimento e o baixo letramento digital — o que torna a ferramenta, em suas palavras, "etarista"; para pessoas negras, indígenas e trans, o problema é o viés do algoritmo, que, segundo o Idec, "não foi adequadamente treinado para uma população diversa como a brasileira".
Diante das falhas, governo e especialistas passaram a oferecer caminhos que não dependem do rosto.
No gov.br, é possível elevar o nível da conta sem o reconhecimento facial — por meio da validação pelo aplicativo de um banco credenciado, ou usando a nova Carteira de Identidade Nacional (CIN), que traz dados biométricos atualizados.
O Ministério da Gestão e da Inovação afirma ter implementado ajustes no sistema desde 2023, com o objetivo de ampliar tanto a segurança quanto a acessibilidade e reduzir casos de bloqueio indevido.
Para os especialistas, porém, o desafio de fundo permanece: garantir que a digitalização dos serviços não deixe para trás justamente quem tem menos recursos para se adaptar a ela.
Se você ou um familiar idoso enfrenta bloqueios recorrentes no acesso a serviços digitais, vale procurar os canais de atendimento presencial do órgão responsável, que costumam oferecer alternativas à validação por biometria.