Tecnologia

Por que o Brasil ainda não tem 5G de verdade?

Cobertura avança para 80% da população e supera metas da Anatel, mas velocidade do 5G standalone fica abaixo do 5G híbrido e celulares passam a maior parte do tempo conectados ao 4G

5G no Brasil: cobertura cresce em número de cidades, mas qualidade do sinal ainda não acompanha a expansão (Mark Garlick/Getty Images)

5G no Brasil: cobertura cresce em número de cidades, mas qualidade do sinal ainda não acompanha a expansão (Mark Garlick/Getty Images)

Marina Semensato
Marina Semensato

Colaboradora

Publicado em 24 de maio de 2026 às 09h00.

O 5G chegou ao Brasil em 2022 com a promessa de conexões até 100 vezes mais rápidas que o 4G e latência baixa o suficiente para sustentar aplicações como cirurgia remota e veículos autônomos. Quatro anos depois, a rede está presente em mais de 1.500 municípios e deve alcançar cerca de 80% da população, segundo projeções do Ministério das Comunicações para o fim de 2026.

Ainda assim, a percepção de quem usa o celular no dia a dia é de que o sinal aparece por pouco tempo e nem sempre entrega a velocidade esperada. A distância entre o 5G anunciado e o 5G percebido explica por que parte dos brasileiros ainda questiona se o país tem, de fato, 5G de verdade.

Qual é o panorama do 5G no Brasil em 2026?

A expansão segue o cronograma do leilão conduzido pela Anatel em novembro de 2021. Em maio de 2026, o 5G já opera em 1.521 cidades, número que supera a meta original de 1.469 municípios prevista para o ano. A projeção do Ministério das Comunicações é chegar a 2.220 municípios até dezembro, incluindo mais de 800 cidades com menos de 30 mil habitantes.

No entanto, contar como município atendido exige apenas uma estação 5G ativa na cidade, e não cobertura integral da área urbana. Um município que aparece no mapa como coberto pode ter sinal restrito a poucos bairros ou a uma faixa comercial do centro.

O Brasil encerrou 2025 com 58,1 milhões de linhas 5G ativas, o equivalente a 21,5% da base móvel nacional, segundo dados da Anatel. A Vivo lidera com 23,1 milhões de acessos, seguida por Claro (20,6 milhões) e TIM (13,8 milhões). Em fevereiro de 2026, a base já ultrapassava 60 milhões de linhas.

Por que o 5G standalone é mais lento que o 5G híbrido no Brasil?

Um dos dados mais contraintuitivos do 5G brasileiro aparece na comparação entre as duas arquiteturas de rede. O 5G standalone (SA), chamado de "5G puro" por operar sem apoio da infraestrutura 4G, registrou velocidade média de download de 373,56 Mbps no quarto trimestre de 2025, segundo a Ookla. No mesmo período, o 5G non-standalone (NSA), que usa a rede 4G como âncora, alcançou 433,04 Mbps, quase 16% acima.

O levantamento coloca o Brasil entre os mercados onde o NSA superou o SA em velocidade de download — um comportamento incomum no comparativo global da Ookla. A Opensignal classificou o país no grupo de mercados em que o standalone ainda não entrega ganho de desempenho em relação ao NSA.

A diferença não está nos padrões do 5G em si, visto que SA e NSA operam sob as mesmas especificações do 3GPP. Porém, enquanto o NSA usa o núcleo de rede 4G como âncora, o SA roda sobre um core 5G nativo.

O que explica o desempenho inferior do SA no Brasil é a maturidade da rede. As operadoras lançaram o standalone com menos espectro alocado e menos estações ativas do que já operam no NSA. Além disso, as antenas SA tendem a ficar concentradas em áreas de alta densidade de usuários — e quanto mais gente compartilha a mesma célula, menor a velocidade individual.

Na latência, o SA leva vantagem: 32 milissegundos contra 37 ms do NSA, segundo a Ookla. A diferença importa para aplicações em tempo real, como jogos online e videochamadas, mas ainda não se traduz em ganho perceptível para o uso comum.

Quanto tempo o celular fica conectado ao 5G?

A cobertura formal diz pouco sobre a experiência real. Levantamentos da Opensignal apontam que, no Brasil, os celulares permanecem conectados à rede 5G por uma fração pequena do tempo de uso — a maior parte do período, o aparelho segue operando em 4G ou inferior. A rede standalone, por sua vez, cobre cerca de 5% das áreas povoadas do país, o que limita ainda mais a percepção de ganho.

O número reflete a baixa densidade de antenas. O sinal do 5G na faixa de 3,5 GHz tem alcance menor que o do 4G, o que exige mais estações-base para cobrir a mesma área. Em cidades onde há poucas antenas, o celular capta o 5G por breves intervalos e volta para o 4G ao se deslocar alguns quarteirões.

O que trava a expansão do 5G no Brasil?

O gargalo mais citado por especialistas e pelo próprio presidente da Anatel, Carlos Baigorri, é o preço dos aparelhos compatíveis. Smartphones com suporte ao 5G seguem caros para a maior parte da base brasileira, e modelos de entrada com a rede ainda partem de faixas acima de R$ 1.000.

Em entrevista ao NeoFeed, o CEO da Vivo, Christian Gebara, estimou que cerca de um quarto dos clientes da operadora possuem um smartphone com suporte ao 5G. Enquanto isso, aparelhos com 4G — mais baratos — seguem dominando as vendas. A Anatel tem discutido com o Ministério das Comunicações formas de reduzir o custo dos dispositivos, mas sem medidas concretas até o momento.

A carga tributária sobre serviços de telecomunicação também é um fator importante, segundo entidades do setor. Os impostos sobre telecomunicações no Brasil superam a média praticada em países desenvolvidos, numa diferença que encarece tanto o preço final dos planos quanto o investimento em infraestrutura.

A instalação de novas antenas depende de postes de energia elétrica e de fibra óptica para alimentar as estações-base. Em muitas cidades, a desordem nos postes — com cabos irregulares e ocupações ilegais — atrasa ou impede a expansão. Operadoras pagam mais de R$ 3 bilhões pelo direito de passagem, mas enfrentam entraves burocráticos e legislações municipais desatualizadas.

Quando o Brasil terá 5G em todos os municípios?

O cronograma do edital da Anatel prevê metas progressivas para cidades com menos de 30 mil habitantes: 30% até dezembro de 2026, 60% em 2027, 90% em 2028 e 100% em 2029. Para municípios com mais de 200 mil habitantes, a obrigação de cobertura vence em julho de 2026; acima de 100 mil, em julho de 2027.

A universalização até 2029 contempla todas as 5.570 cidades brasileiras, mas as obrigações do edital definem cobertura mínima em cada município — o que não equivale a sinal contínuo em toda a área urbana. Um município atendido no papel pode ter cobertura restrita a determinadas regiões.

O que falta para o 5G funcionar como deveria?

A rede 5G no Brasil já entrega velocidades médias de download acima de 430 Mbps no modo NSA — o desempenho mais rápido da América Latina, segundo a Ookla. O país também foi um dos primeiros a adotar o 5G standalone em larga escala, com 39 países no mundo operando essa arquitetura até abril de 2025, segundo a GSA.

O que separa o Brasil do "5G de verdade" não é a ausência da rede, mas a distância entre cobertura formal e qualidade percebida. Adensar a malha de antenas, ampliar o espectro alocado ao standalone, reduzir o custo dos aparelhos compatíveis e resolver os entraves de infraestrutura urbana são as etapas que transformam a promessa de 2022 em conexão estável na rotina de quem paga a conta.

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