Rio2C: holding prepara voo para a capital paulista em agosto (Leandro Fonseca/Exame)
Repórter de Casual
Publicado em 28 de maio de 2026 às 19h06.
Última atualização em 28 de maio de 2026 às 19h10.
Houve um tempo, cerca de cinco anos atrás, em que falar de economia criativa no Brasil era sinônimo de discutir incentivos fiscais e projetos de nicho. De debater financiamento de cultura, mas sem lucro garantido e sem projeto a longo prazo.
Hoje, ainda bem, o cenário mudou. O mercado do audiovisual, de publicidade, de games e de música é um dos vetores mais dinâmicos do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. Só em 2023, segundo estudo da Firjan publicado no ano passado, a indústria criativa movimentou R$ 393,3 bilhões no país — o equivalente a 3,59% do PIB.
O grande catalisador dessa maturidade do setor atende pelo nome de Rio2C. Nascido originalmente com foco voltado para o mercado audiovisual, o evento expandiu as fronteiras ano após ano para outras áreas culturais e voltou, em 2026, para discutir "o código do sentido", em um mundo envolto por inteligência artificial e excesso de informação.
"Sempre quisemos trazer essa discussão de indústria criativa e o reconhecimento dessa atividade como atividade produtiva", disse Rafael Lazarini, idealizador do evento e vice-presidente Latam da Live Nation, em entrevista exclusiva à Casual EXAME. "Um indicador muito claro de que fomos bem-sucedidos nisso é ver, hoje, as secretarias públicas se tornando Secretarias de Cultura e Economia Criativa ou Indústria Criativa. Isso não existia quando lançamos o evento."
O coração do Rio2C é a curadoria. São mais de 800 horas de conteúdo em 12 palcos para discutir a criatividade em todos os níveis econômicos, conceituais e estruturais. Neste ano, painéis sobre regulamentação do Video On Demand (VOD), coprodução com países ibero-americanos, impacto da reforma tributária no audiovisual, manutenção da indústria da arte, da moda e da publicidade foram alguns dos temas principais do evento.
"Eu continuo acreditando que o nosso refúgio está na cultura. Ela tem muito de intuição, de percepção, de como você viveu a vida. E é um motor econômico. Isso, eu tenho certeza, a tecnologia não vai substituir."

No ecossistema defendido pelo Rio2C, a criatividade e a inovação precisam andar juntas para a formação de novos negócios culturais. Faz parte da filosofia que Lazarini aprendeu com os anos de trabalho na indústria.
Criatividade sem o espírito empreendedor não chega a lugar nenhum. A ideia só vira inovação quando é aplicada na prática", pontua o fundador. "O Rio2C tem um olhar para esse criador inovador, seja ele de um filme, de uma série, de uma empresa. Queremos ser palco para discussões importantes, para trazer visões contraditórias e deixar que as pessoas formem a própria opinião. Para fazer com que esses criadores saiam com ideias."
Tratar a cultura como negócio, entende ele, exige colocar na mesma mesa todos os elos da cadeia produtiva, dos criadores independentes às plataformas gigantes de distribuição. No caso do audiovisual, nos últimos anos, o Rio2C atraiu tanto os grandes players do mercado, como os streamings (Netflix, Disney, HBO, Amazon), quanto as pequenas produtoras, criadores de conteúdo e novas marcas.
"Nesse espaço, a gente se posiciona na melhor palheta de discussão: políticas públicas, discussões sobre VOD (Video on Demand), captação de capital privado. Trazemos as produtoras independentes, os advogados das plataformas de streaming e os próprios canais. O audiovisual precisa dessa maturidade comercial para prosperar."
O setor, aos poucos, tem prosperado na interação com grandes empresas apoiadoras da cultura no Brasil — e movimentado a economia do país com isso. A indústria audiovisual foi uma das que mais cresceu nos últimos anos no Brasil, impulsionada tanto por verba pública quanto pelo investimento de capital privado.
Dados do estudo "A Contribuição Econômica da Indústria Audiovisual do Brasil", da Oxford Economics, mostram que a área movimentou R$ 70,2 bilhões no PIB do Brasil em 2024, o melhor número desde 2017, segundo a Ancine. Ficou acima de setores como o têxtil, extrativista, farmacêutico e automobilístico, por exemplo.
Lançamento do SP2B, em São Paulo: ocupará mais de 20 espaços do Parque Ibirapuera no ano que vem, reunindo conferências, festivais, exposições e encontros de negócios (Divulgação/Divulgação)
Sob essa lógica de tirar as ideias do papel e resolver dores reais do mercado, para além daquelas somente culturais, a holding liderada por Lazarini se prepara para um passo estratégico em direção ao coração financeiro do país ainda neste ano: o lançamento do SP2B.
O evento é inteiramente novo e ocupará o Parque do Ibirapuera, em São Paulo, no mês de agosto. Se no Rio de Janeiro a palavra-chave é criatividade, em solo paulista o conceito central será o empreendedorismo — mas longe dos clichês corporativos tradicionais.
O objetivo do novo projeto é estruturar as dores crônicas das pequenas e médias empresas brasileiras (PMEs), que representam a maior fatia de empregos e do PIB nacional, mas frequentemente sofrem com a falta de capacitação, gestão de caixa e planos de sucessão.
"Empreender, na etimologia, é tomar para si. Você não precisa ser empresário para ser empreendedor. Queremos pegar o pensamento do ecossistema de inovação e aplicar de forma ampla para as pequenas e médias empresas de setores convencionais", explica Lazarini sobre a nova operação em São Paulo. "Se a gente conseguir criar um movimento que diminua em 1% a mortalidade de empresas dessa fase no Brasil, isso terá um impacto gigantesco na economia real."
A escolha do Ibirapuera para desenhar essa nova jornada de negócios veio justamente para arejar ideias e transformar a cidade em um empreendedorismo mais colorido, explica o fundador.
"Ocupar um parque exige um investimento de pensamento e de design de evento enorme. Não é um copy and paste. Mas o Ibirapuera traz uma pegada única, é a área mais verde da cidade, onde os prédios são esculturas do Niemeyer, e traz de volta aquele elemento do SXSW de estar totalmente inserido e integrado ao contexto da cidade".
O evento acontece entre os dias 9 a 16 de agosto e já tem ingressos à venda. "O nosso papel é esse: organizar um pouquinho o caos, sem mudar a nossa natureza", conclui Lazarini.