(Bloomberg/Getty Images)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 2 de setembro de 2026 às 16h44.
O caso do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, cujas mensagens de visualização única trocadas com o ministro Alexandre de Moraes foram recuperadas pela Polícia Federal, reacendeu uma dúvida comum sobre o WhatsApp: se o aplicativo usa criptografia de ponta a ponta, como é possível que mensagens programadas para desaparecer acabem virando prova em uma investigação?
A resposta, segundo Fabro Steibel, especialista em tecnologia e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio), em entrevista à EXAME, está no fato de que a criptografia protege a mensagem durante o trajeto entre dois aparelhos, não depois que ela já chegou lá.
Segundo Steibel, o funcionamento pode ser resumido em dois terminais, dois celulares, cada um com uma "chave" única. "Só tendo essas duas chavinhas, você consegue abrir essa mensagem", diz.
A ponta a ponta serve principalmente para que intermediários no caminho (como torres de telefone, operadoras ou alguém interceptando o tráfego) não consigam entender o conteúdo, mesmo que capturem os dados, porque não têm as duas chaves necessárias.
O problema é o que acontece depois que a mensagem chega ao destino.
"O WhatsApp vai pegar as chaves do grupo, da outra pessoa, todas as chaves necessárias, e vai abri-la — ele consegue ver e vai armazenar essa informação. Se ele abrir e mostrar na tela, você consegue tirar o print, exceto se o aplicativo tiver uma proibição de que você tire print", afirma.
Segundo ele, aplicativos bancários são exemplos de sistemas que impedem esse tipo de captura de tela — bloqueio técnico que o WhatsApp não implementa.
Segundo ele, as mensagens também ficam armazenadas de forma descriptografada dentro do próprio aparelho, enquanto ele está ligado e desbloqueado. "Seria muito lento e espaçoso você criptografar o que tá ali. O WhatsApp usa a mesma tecnologia do Signal, mas, no terminal, decidiu por não guardar criptografado", afirma.
Isso significa que, se a perícia conseguir acesso físico ao celular desbloqueado, ela chega diretamente ao conteúdo das mensagens, sem precisar quebrar nenhuma criptografia.
A explicação de Steibel deixa claro que o recurso de visualização única não é uma proteção técnica robusta contra captura — é, na prática, uma promessa de comportamento do aplicativo.
"Quando você manda com esse anúncio de visualização única, ele vai te mostrar, mas ele não vai guardar na memória permanente essa mensagem. É isso que faz. Por isso, quando você clica de volta para visualizar, para gerar a imagem, ele não deixa", diz.
Mas nada impede, do lado de quem recebe, que a imagem seja registrada por outros meios enquanto está na tela.
"Você pode ter um aplicativo instalado ou um celular desbloqueado que tira uma captura de tela no momento em que a imagem é aberta. Ou simplesmente fotografar a tela com outro aparelho. O recurso de visualização única apenas garante que o aplicativo exiba a imagem sem salvá-la no armazenamento permanente do celular", afirma.
Segundo Steibel, aplicativos comuns baixados de lojas oficiais não recebem, por padrão, permissão para "enxergar" o que acontece na tela de outros aplicativos, essa é uma restrição de segurança do próprio sistema operacional.
A exceção existe justamente por causa de recursos de acessibilidade, pensados para pessoas com necessidades especiais.
"Quando você tá fazendo, por exemplo, um acesso remoto porque seu computador quebrou, você instala um programa que vai perguntar: 'Tem certeza?' Mas você vai dar acesso global ao seu computador", diz.
É esse tipo de permissão — usada tanto em manutenções legítimas quanto em golpes — que, uma vez concedida, permite gravar a tela continuamente ou automatizar uma ação toda vez que uma imagem de visualização única é aberta.
"Via de regra, você não consegue fazer isso. Mas se você tiver um celular desbloqueado em que algo se instalou, ou se você deu essa permissão, você consegue", diz.
Ele lembra ainda que existe uma forma ainda mais simples de burlar a proteção, sem depender de nenhuma permissão especial: fotografar a tela de um aparelho com outro celular — como fazem, segundo ele, repórteres que capturam imagens do celular de alguém à distância.
O processo de perícia digital também segue um protocolo padronizado para preservar a validade da prova. O especialista faz um clone completo do celular apreendido, que é mantido como evidência original intacta, e trabalha apenas sobre essa cópia.
No caso de Vorcaro, segundo o relatório da PF, a extração dos dados do iPhone foi feita com "ferramentas forenses apropriadas" — o documento não identifica publicamente qual produto foi usado na extração em si, embora a PF disponha de equipamentos como Cellebrite e GrayKey, populares em investigações desse tipo.
A análise dos dados já extraídos, por sua vez, foi feita com o software Indexador e Processador de Evidências Digitais (IPED), ferramenta forense de código aberto desenvolvida pela própria Polícia Federal, usada para indexar grandes volumes de informação, localizar palavras-chave e cruzar metadados e logs do sistema operacional.
Segundo o relatório, os investigadores cruzaram horários de abertura e fechamento de aplicativos, o momento exato das capturas de tela e os registros do sistema para reconstruir a sequência de ações — em um dos casos, por exemplo, Vorcaro fez uma captura de tela às 16h32min31s (horário UTC), fechou o aplicativo de notas cinco segundos depois e enviou uma mensagem ao contato salvo como "Alexandre de Moraes BRASILIA" 32 segundos após o print. Também foi calculado o hash do conteúdo extraído — um código matemático usado para comprovar que os dados não foram alterados durante a análise.