Ciência

Cern: da física à tecnologia

Foi com a ajuda do LHC que, em julho deste ano, cientistas encontraram evidências do bóson de Higgs, a partícula que explicaria o início do universo


	INFO viu de perto como funciona o Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern). De seus laboratórios saíram inovações como a web, o mouse e a tela sensível ao toque
 (Fabiano Cândido/INFO)

INFO viu de perto como funciona o Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern). De seus laboratórios saíram inovações como a web, o mouse e a tela sensível ao toque (Fabiano Cândido/INFO)

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Da Redação

Publicado em 21 de dezembro de 2012 às 14h25.

Genebra - Quem pousa no aeroporto de Genebra, na Suíça, e pega a Route de Meyrin, uma das principais avenidas da cidade, demora dez minutos para chegar ao que parece um campus universitário. No meio de grandes espaços gramados, prédios de quatro andares e galpões metálicos estão instalados em ruas com nomes de cientistas famosos, como Isaac Newton.

O ar bucólico do local, encravado na fronteira entre a França e a Suíça, só se dissipa quando o visitante depara com um globo de 27 metros de altura e um tubo cilíndrico azul com 10 metros de comprimento.

Eles indicam que ali está uma das maiores obras do homem. A 100 metros de profundidade e fora do alcance dos olhos, uma máquina que faz colidirem partículas próximas à velocidade da luz para simular o começo do universo. Conhecido como LHC, o grande colisor de hádrons ocupa um túnel circular com 27 quilômetros e promove reações nucleares que atingem bilhões de graus centígrados.

Foi com a ajuda do LHC que, em julho deste ano, cientistas encontraram evidências do bóson de Higgs, a partícula que explicaria o início do universo. O equipamento é uma das estrelas do Cern, o Centro Europeu de Pesquisa Nuclear, onde já foram criadas tecnologias hoje comuns no nosso dia a dia, como a tela sensível ao toque.

Criado em 1954 pelos europeus para desenvolver a física básica de partículas, o Cern reúne especialistas em diversas áreas. São físicos, engenheiros, cientistas da computação, torneiros mecânicos e ferramenteiros, que ocupam os quase 200 prédios do complexo.

De várias nacionalidades e trabalhando em projetos distintos, eles costumam se encontrar para trocar ideias no restaurante coletivo, onde um prato de carne de pato com arroz e salada custa 26 reais. A comida saborosa atrai gente importante do mundo científico.


Ganhadores do Prêmio Nobel de Física, como Jack Steinberger, aparecem para tomar um café e almoçar. É no restaurante que os pesquisadores do Cern buscam soluções para comprovar suas teorias.

“É nessa hora que pensamos em tecnologias que podem responder às questões da física”, diz o engenheiro eletrônico brasileiro Denis Damazio, integrante do experimento Atlas, um dos detectores que acusaram a provável existência do bóson de Higgs.

Damazio é um dos 100 brasileiros que fazem pesquisas no Cern. Chegou lá em 2000, por meio de um programa de pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ). Fazendo a ponte-aérea Brasil-Suíça para terminar o doutorado com tema em energia liberada durante a colisão de partículas, ganhou visibilidade e um trabalho como pesquisador no Brookhaven National Laboratory, parte do Departamento de Energia dos Estados Unidos.

Sua especialização lhe rendeu um convite para morar na Suíça e fazer pesquisas no Cern, onde participou de vários projetos. Programou o software que controla o fornecimento de energia para uma parte do LHC e instalou peças no Atlas. Hoje, escreve um código para refinar as informações importantes em meio à grande quantidade de dados gerada quando uma partícula colide com outra no acelerador.

O trabalho de Damazio ainda não ganhou o mundo, mas tem boas chances. O Cern é considerado um grande celeiro de inovação. A mais famosa novidade surgida ali foi a web, criada no começo da década de 1990 pelo físico e cientista da computação britânico Tim Berners-Lee.

Ele pensou na rede como uma forma de ajudar a comunidade científica local a trocar dados com pesquisadores e universidades de outros países. Em poucos anos, a tecnologia extrapolou o meio acadêmico. Berners-Lee não registrou a patente nem recebeu um centavo pela invenção, mas ganhou um lugar de destaque no Centro de Computação do Cern.


Em uma vitrine na entrada do complexo encontra-se o computador NeXT, onde rodou o primeiro servidor web da história. Ele conserva até hoje um recado escrito à mão por Berners-Lee: “Esta máquina é um servidor. Não a desligue”.

A popularização de smartphones e tablets também pode ser creditada ao Cern, pelo menos em parte. A tela sensível ao toque, o principal elemento desses gadgets, foi concebida no começo da década de 1970 por Bent Stumpe.

Engenheiro eletrônico dinamarquês, Stumpe criou a tela para reduzir a quantidade de botões no console que seria montado no centro de controle de um acelerador. Foram poucos dias entre esboçar um projeto e criar o primeiro protótipo da tela, produzida e usada pelo Cern em vários projetos, antes de ser adotada pelos fabricantes de gadgets.

Stumpe não ficou só nessa invenção. Ele esboçou um equipamento para mover um cursor nos monitores que mostravam dados do acelerador. Surgia ali uma espécie jurássica do mouse.

Hoje, os pesquisadores do Cern mantêm uma espécie de viveiro nerd, com vários modelos. A brincadeira rendeu uma página na web que conta como os mouses são tratados (abr.io/mouse). O poder de inovação do Cern é um chamariz para as empresas de tecnologia. Grandes fabricantes de equipamentos cedem máquinas que ainda não chegaram ao mercado para o instituto testar.

O Cern mantém, desde 2001, o OpenLAB, uma iniciativa que cria parcerias entre a instituição e empresas privadas com a finalidade de desenvolver novas tecnologias. Para ser aceito no projeto, o fabricante tem de colaborar com bolsas científicas.


Prédios atômicos - As pesquisas do instituto são feitas em galpões que lembram os industriais. Nessas grandes salas um alerta chama a atenção. Ele exige o uso de um dosímetro, equipamento cuja função é medir e alertar se uma pessoa está em contato com elementos radioativos.

“Provocamos reações nucleares nos aceleradores. A radioatividade é baixa, mas é preciso carregar o aparelho pendurado no pescoço”, afirma Damazio. Por causa do risco, o acesso a alguns dos galpões é controlado. No prédio do experimento Atlas, por exemplo, há uma passagem para o detector, que está a cerca de 90 metros abaixo da terra.

Quando está em operação, se transforma em um lugar hostil: campo magnético elevadíssimo, radiação e temperatura de 270 graus negativos no interior.

Computadores controlam os 11 aceleradores em funcionamento no Cern, em centros que funcionam sem parar. Todo pesquisador que passa uma temporada no Cern, não importa se graduando ou PhD, entra na escala de um centro de controle.

A brasileira Andressa Sivolella, estudante de engenharia elétrica e computação da UFRJ, é um deles. “Temos de agir rápido, caso um equipamento falhe”, diz. Nas horas vagas, ela cuida de uma startup chamada Twist, que mantém com cinco sócios, também estudantes da UFRJ.

Todos passaram pelo Cern. “Integramos todo tipo de banco de dados e usamos esse conhecimento para criar uma solução para o setor de logística”, afirma Andressa.


Muitas das invenções que surgem no Cern são concebidas em conjunto. “Juntamos histórias de vida, conhecimento e dividimos o trabalho”, diz o cientista brasileiro Marko Petek, integrante do experimento CMS, outro detector que pesquisa o bóson de Higgs.

O trabalho no Cern começa oficialmente às 9 da manhã, mas não é incomum que pesquisadores estiquem no laboratório até a madrugada. Nas semanas que antecederam o anúncio do bóson de Higgs, a equipe do detector CMS varou muitas noites.

“Ficamos pilhados, porque precisávamos revisar todos os dados e ter certeza do que seria anunciado ao mundo”, diz Petek. Nessa hora, a rotina dos pesquisadores é igual à de um médico.

“Às vezes o celular toca de madrugada e preciso deixar minha esposa e meus dois filhos e correr para ver o que acontece”, diz Damazio. Em comum, os cientistas que passam pelos corredores do Cern têm um sonho: descobrir algo importante que deixe seu nome marcado na história da instituição e, quem sabe, virar placa de uma rua do campus.

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