Ciência

Árvores do Japão revelam tempestade solar de 'céu vermelho' de 800 anos

Estudo identifica evento do ano 1200 a partir de registros medievais e carbono-14, ajudando a prever riscos para futuras missões espaciais

Céu vermelho: cientistas investigaram período de atividade intensa do Sol na Idade Média (Getty Images)

Céu vermelho: cientistas investigaram período de atividade intensa do Sol na Idade Média (Getty Images)

Publicado em 17 de maio de 2026 às 11h47.

Um antigo “céu vermelho” observado no Japão medieval ajudou cientistas a descobrir evidências de uma tempestade solar extrema ocorrida há mais de 800 anos. O estudo combinou registros históricos com análises de carbono-14 preservado em árvores antigas para reconstruir um raro evento de radiação solar do início do século XIII.

A pesquisa foi conduzida por cientistas do Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa e publicada nos Proceedings of the Japan Academy Series B.

De acordo com os autores, é provável que o evento tenha ocorrido entre o inverno de 1200 e a primavera de 1201, durante um período de atividade solar excepcionalmente intensa.

Árvores preservaram sinais de tempestade solar

Os cientistas analisaram árvores asunaro enterradas no norte do Japão e identificaram picos incomuns de carbono-14 nos anéis de crescimento da madeira. Segundo os pesquisadores, esses aumentos podem ser produzidos quando partículas de alta energia liberadas pelo Sol atingem a atmosfera terrestre.

Durante tempestades solares extremas, parte dessas partículas passa por regiões próximas aos polos magnéticos da Terra e desencadeia reações atmosféricas capazes de gerar carbono-14. As marcas ficam preservadas em organismos vivos, incluindo árvores antigas.

Diário medieval descreveu 'céu vermelho'

A investigação também utilizou registros históricos japoneses e chineses. Uma das principais pistas apareceu no "Meigetsuki", diário do poeta japonês Fujiwara no Teika, que descreveu “luzes vermelhas no céu” vistas ao norte de Kyoto em fevereiro de 1204.

Os pesquisadores acreditam que o fenômeno registrado pode ter sido uma aurora intensa causada pela atividade solar extrema. Relatos semelhantes também apareceram em documentos históricos chineses da mesma época.

Sol medieval pode ter sido mais ativo

Segundo a pesquisadora Hiroko Miyahara, os dados indicam que o Sol passou por um período de atividade muito mais intensa durante os séculos XII e XIII.

Atualmente, os ciclos solares costumam durar cerca de 11 anos. No entanto, a equipe identificou ciclos de apenas sete a oito anos no período analisado, sinal considerado compatível com um Sol extremamente ativo.

Os cientistas afirmam que o estudo ajuda a compreender melhor eventos solares subextremos, capazes de ocorrer com maior frequência do que as tempestades mais raras e devastadoras.

Descoberta pode ajudar futuras missões espaciais

Diante disso, pesquisadores acreditam que entender o comportamento solar do passado é importante para prever riscos futuros ligados ao chamado clima espacial. Eventos de prótons solares podem lançar partículas altamente energéticas pelo espaço e representar ameaças para satélites, espaçonaves e astronautas.

Os cientistas citam que, em 1972, uma sequência de tempestades solares ocorreu entre as missões Apollo 16 e Apollo 17. Caso astronautas estivessem em atividade na Lua durante aquele período, poderiam ter sido expostos a níveis potencialmente letais de radiação.

Com isso, a equipe afirma que combinar registros históricos e análises de carbono-14 pode ajudar cientistas a reconstruir com mais precisão a história da atividade solar da Terra e compreender melhor como eventos extremos de clima espacial ocorreram ao longo dos séculos.

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