Irã adota a bloqueio de internet via satélite para isolar população (Piero Cruciatti/AFP)
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Publicado em 17 de janeiro de 2026 às 10h44.
Última atualização em 19 de janeiro de 2026 às 08h43.
Há quase duas semanas, as autoridades do Irã desligaram totalmente os serviços de internet e telefonia no país. A medida ocorre em meio a uma onda de protestos contra o governo, que bloqueou a rede para conter a organização popular e limitar a circulação de informações sobre a violência estatal.
Os atos começaram no fim de dezembro e foram motivados, a princípio, pela disparada nos preços de alimentos básicos, após o governo encerrar um programa de subsídios cambiais. Com o avanço das manifestações, a liderança religiosa do país passou a ser questionada, o que fez a crise econômica se tornar também política.
Até o momento, não há números oficiais sobre o número de pessoas afetadas. A ONG Human Right Activists News Agency (HRANA) estima que pelo menos 2 mil pessoas morreram e 10 mil foram presas.
A dimensão tecnológica da crise se tornou central. Especialistas ouvidos pelo Financial Times avaliam que o bloqueio imposto pelo governo iraniano está entre os mais profundos e sofisticados já registrados no país. Tradicionalmente, Teerã mantinha ativa a Rede Nacional de Informação (NIN), uma infraestrutura doméstica criada para sustentar serviços internos enquanto o acesso à internet global era cortado.
Apelidada de “internet halal”, a NIN permitia que autoridades e setores estratégicos da economia continuassem operando durante períodos de instabilidade. O modelo, porém, mostrou-se insuficiente em 2019, quando manifestantes passaram a se organizar até por meio de chats de videogames autorizados pelo regime. Segundo um engenheiro de software iraniano exilado, ouvido pelo FT, a conclusão interna foi direta: na próxima crise, seria necessário “cortar tudo”.
Foi o que ocorreu agora. Pela primeira vez, a própria NIN foi desligada, ainda que temporariamente, afetando até apoiadores do regime e jornalistas que possuíam os chamados cartões SIM “brancos”, antes isentos de bloqueios.
Para impedir conexões alternativas, como a internet via satélite, o governo iraniano recorreu ao uso de jammers, equipamentos de interferência eletrônica conhecidos no Brasil por bloquearem caixas de som em praias — prática considerada ilegal no país. Segundo explicou ao G1 Thiago Ayub, diretor de tecnologia da Sage Networks, esses dispositivos emitem sinais na mesma frequência de satélites e antenas receptoras, embaralhando a comunicação.
No Irã, o efeito é potencializado pela instalação de antenas de alta potência próximas aos receptores da Starlink, serviço de internet via satélite da SpaceX. “O êxito iraniano demonstra investimento em pesquisa e desenvolvimento para conter o uso de satélites de baixa órbita”, afirmou Ayub.
Apesar do bloqueio, vídeos e relatos conseguiram atravessar o apagão, mostrando cenas de violência, necrotérios e testemunhos de civis. Pesquisadores do Projeto Ainita apontam que a arquitetura centralizada da internet iraniana — com apenas um ponto de conexão com a rede global — facilita cortes totais, criando um “ponto único de falha”.
Após o choque inicial, algumas conexões da NIN foram restabelecidas de forma controlada. Serviços como aplicativos de transporte, sistemas de pagamento e abastecimento de combustível voltaram a funcionar apenas internamente, numa tentativa de manter a economia operando durante o isolamento.
No plano internacional, autoridades dos Estados Unidos buscam alternativas. O presidente Donald Trump sinalizou interesse em uma parceria com a SpaceX para ampliar o acesso à internet no Irã. Na terça-feira (13), a empresa teria liberado o serviço sem cobrança de assinatura, embora haja relatos de instabilidade, atribuída tanto à interferência eletrônica — técnica já usada pela Rússia na guerra da Ucrânia — quanto ao uso esporádico das antenas para evitar detecção.