Tecnologia

A tática do governo do Irã para desligar a internet do país

Bloqueio dos serviços de rede e telefonia busca conter manifestações e ocultar a repressão no país

Irã adota a bloqueio de internet via satélite para isolar população (Piero Cruciatti/AFP)

Irã adota a bloqueio de internet via satélite para isolar população (Piero Cruciatti/AFP)

Marina Semensato
Marina Semensato

Colaboradora

Publicado em 17 de janeiro de 2026 às 10h44.

Há quase duas semanas, as autoridades do Irã desligaram totalmente os serviços de internet e telefonia no país. A medida ocorre em meio a uma onda de protestos contra o governo, que bloqueou a rede para conter a organização popular e limitar a circulação de informações sobre a violência estatal.

Os atos começaram no fim de dezembro e foram motivados, a princípio, pela disparada nos preços de alimentos básicos, após o governo encerrar um programa de subsídios cambiais. Com o avanço das manifestações, a liderança religiosa do país passou a ser questionada, o que fez a crise econômica se tornar também política.

Até o momento, não há números oficiais sobre o número de pessoas afetadas. A ONG Human Right Activists News Agency (HRANA) estima que pelo menos 2 mil pessoas morreram e 10 mil foram presas.

Apagão total é um dos mais sofisticados da história do Irã

A dimensão tecnológica da crise se tornou central. Especialistas ouvidos pelo Financial Times avaliam que o bloqueio imposto pelo governo iraniano está entre os mais profundos e sofisticados já registrados no país. Tradicionalmente, Teerã mantinha ativa a Rede A dimensão tecnológica da crise se tornou central. Especialistas ouvidos pelo Financial Times avaliam que o bloqueio imposto pelo governo iraniano está entre os mais profundos e sofisticados já registrados no país.

Tradicionalmente, Teerã mantinha ativa a Rede Nacional de Informação (NIN), uma infraestrutura doméstica criada para sustentar serviços internos enquanto o acesso à internet global era cortado.

Apelidada de “internet halal”, a NIN permitia que autoridades e setores estratégicos da economia continuassem operando durante períodos de instabilidade. O modelo, porém, mostrou-se insuficiente em 2019, quando manifestantes passaram a se organizar até por meio de chats de videogames autorizados pelo regime. Segundo um engenheiro de software iraniano exilado, ouvido pelo FT, a conclusão interna foi direta: na próxima crise, seria necessário “cortar tudo”.

Foi o que ocorreu agora. Pela primeira vez, a própria NIN foi desligada, ainda que temporariamente, afetando até apoiadores do regime e jornalistas que possuíam os chamados cartões SIM “brancos”, antes isentos de bloqueios.

Jammers e guerra eletrônica

Para impedir conexões alternativas, como a internet via satélite, o governo iraniano recorreu ao uso de jammers, equipamentos de interferência eletrônica conhecidos no Brasil por bloquearem caixas de som em praias — prática considerada ilegal no país. Segundo explicou ao G1 Thiago Ayub, diretor de tecnologia da Sage Networks, esses dispositivos emitem sinais na mesma frequência de satélites e antenas receptoras, embaralhando a comunicação.

No Irã, o efeito é potencializado pela instalação de antenas de alta potência próximas aos receptores da Starlink, serviço de internet via satélite da SpaceX. “O êxito iraniano demonstra investimento em pesquisa e desenvolvimento para conter o uso de satélites de baixa órbita”, afirmou Ayub.

Apesar do bloqueio, vídeos e relatos conseguiram atravessar o apagão, mostrando cenas de violência, necrotérios e testemunhos de civis. Pesquisadores do Projeto Ainita apontam que a arquitetura centralizada da internet iraniana — com apenas um ponto de conexão com a rede global — facilita cortes totais, criando um “ponto único de falha”.

Após o choque inicial, algumas conexões da NIN foram restabelecidas de forma controlada. Serviços como aplicativos de transporte, sistemas de pagamento e abastecimento de combustível voltaram a funcionar apenas internamente, numa tentativa de manter a economia operando durante o isolamento.

No plano internacional, autoridades dos Estados Unidos buscam alternativas. O presidente Donald Trump sinalizou interesse em uma parceria com a SpaceX para ampliar o acesso à internet no Irã. Na terça-feira (13), a empresa teria liberado o serviço sem cobrança de assinatura, embora haja relatos de instabilidade, atribuída tanto à interferência eletrônica — técnica já usada pela Rússia na guerra da Ucrânia — quanto ao uso esporádico das antenas para evitar detecção.

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