Revista Exame
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Vamos escapar dessa crise?

O mundo encontra-se novamente à beira de uma crise de proporções potencialmente desastrosas. Alguns dos mais renomados analistas da atualidade explicam como o mundo — e o Brasil — poderá se safar

Incompreensão grega: protestos em Atenas contra aprovação de pacote de austeridade que elevou impostos e cortou gastos públicos (Louisa Gouliamaki/AFP Photo)

Incompreensão grega: protestos em Atenas contra aprovação de pacote de austeridade que elevou impostos e cortou gastos públicos (Louisa Gouliamaki/AFP Photo)

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Fabiane Stefano

28 de outubro de 2011, 10h12

São Paulo - Em tempos de incerteza na economia mundial, toda sorte de solução, estatística e tendência emerge na tentativa de elucidar uma cena em franca mutação. Para alguns, estamos às portas do inferno; para outros, a vida segue o curso de sempre. Não raramente, trata-se apenas de uma profusão de opiniões que mais escondem do que iluminam o que vem pela frente.

É nessa hora que o conhecimento e a experiência de algumas mentes privilegiadas podem ajudar a separar o concreto do que não passa de vapor, o irrelevante (ou o enviesado) do que realmente pode mudar a configuração da economia mundial. EXAME entrevistou alguns dos mais influentes economistas e analistas financeiros da atualidade.

Nessa lista figuram nomes como o economista americano Jeffrey Sachs, talvez a personalidade mais “pop” da elite acadêmica mundial, Barry Eichengreen, um dos mais respeitados analistas em assuntos cambiais, e o investidor Jim Rogers.

A seguir, eles falam dos desdobramentos da crise na Europa, epicentro da turbulência atual, explicam como a cambaleante economia americana pode reagir e quais os impactos mais prováveis para os emergentes e o Brasil.

Ao fim, os especialistas convergem para duas opiniões em comum. Lá fora, ainda dá para encontrar uma solução que afaste o mundo do caos. Por aqui, a mensagem é de otimismo — se o Brasil souber reagir à altura da gravidade do momento, temos tudo para encorpar como nação que se projeta neste início de século.

Europa

Uma das menores economias da União Europeia, a Grécia está vendo seu destino se tornar a diferença entre a disseminação da crise no mundo ou não.

Com um endividamento de 340 bilhões de euros, o país tem vivido à beira da insolvência — e a única forma de evitar um calote é por meio de um acordo dos países mais ricos do continente para salvá-la (o que, até o fechamento desta edição, não havia ocorrido).


Para analistas como Bob Doll, Jim O’Neill, Barry Einchengreen, Jeffrey Sachs e Lupin Rahman, o mais provável é a ocorrência dessa saída organizada.

A decisão tem custos políticos elevados em países como a Alemanha, mas não haveria outro caminho para os líderes europeus senão o de encarar a insatisfação de seus eleitores e serem mais audaciosos na construção de uma saída. A própria Alemanha não teria outra escolha, para não pôr em risco 50 anos de investimento na construção da União Europeia. 

EXAME - Qual é o futuro da Grécia e de outros países com problemas nas dívidas soberanas?

Bob Doll ­- O que está claro é que a Grécia não tem como pagar as suas contas. E o mundo todo sabe disso. Certamente haverá um calote. A questão é se isso se dará como uma reestruturação organizada ou caótica. A saída organizada está sendo buscada pelas autoridades europeias, que vêm trabalhando juntas para encontrar a melhor forma de transição.

Nesse caso, injetariam recursos para manter a liquidez no sistema financeiro e administrar essa passagem. No cenário mais caótico, as autoridades saem de cena e o calote é oficializado. Nesse caso, bancos precisarão ser capitalizados ou até mesmo nacionalizados. Creio que há uma probabilidade bem alta de sair a solução organizada.

Os problemas na Grécia são bem mais severos que os da Espanha, da Itália e de Portugal. Esses três países têm muitos ativos que poderiam ser vendidos e, com o tempo, cobrir seus endividamentos. Isso não significa que o episódio grego não vai contaminar os outros. Por isso é preciso adotar uma solução organizada.

Uma das coisas que o Banco Central Europeu (BCE) poderia fazer seria comprar títulos de dívida dos países com mais problemas. O BCE também poderia garantir os depósitos dos bancos para evitar que haja uma corrida bancária. Há várias maneiras de lidar com esse problema, mas nenhuma delas é fácil politicamente. 

EXAME - Em caso de um calote na Grécia, existe risco de uma nova crise financeira global?

Jim O’Neill - Sim, existe o risco de colapso do sistema financeiro. Potencialmente, pode ser tão ruim como foi em 2008, durante a crise do banco Lehman Brothers. As consequências para a economia global seriam muito danosas. E veja: todo mundo está discutindo a Grécia, mas a Itália também está em uma situação muito precária.


Nesse sentido, um calote da Grécia levaria outros países para uma situação grave, na qual teríamos um colapso no sistema bancário europeu. O contágio com outros mercados financeiros seria imediato. É por isso que o mundo precisar se empenhar e forçar a Europa a salvar o sistema bancário da zona do euro.

Todos os países europeus têm de concordar com um plano de longo prazo para a política fiscal e com a emissão de títulos em euros, os chamados eurobonds. O problema é que essas decisões passam pela Alemanha, cuja situação política é frágil — o que impede que a chanceler Angela Merkel tome uma medida mais audaciosa. Para resolver o impasse, precisaria haver uma mudança na coalizão política europeia.

EXAME - A zona do euro pode se romper, seja com a saída de Grécia ou Alemanha? 

Barry Eichengreen ­- Os últimos anos nos mostraram que quase tudo pode acontecer nos mercados financeiros. Mas acho que o rompimento da zona do euro será evitado simplesmente porque seria catastrófico e sairia muito caro em comparação com uma operação de salvamento de Grécia, Portugal ou Espanha.

A Grécia não deve abandonar o euro, uma vez que isso traria ainda mais problemas do que soluções. Ao reestruturar sua dívida, a Grécia terá mais um ano de recessão, mas voltará a crescer. Também é improvável que a Alemanha abandone a moeda comum. Nos últimos dez anos, a economia alemã cresceu porque as exportações cresceram.

Se o país abandonasse o euro, ele teria de criar um novo marco, que nasceria supervalorizado. Assim, as exportações alemãs entrariam em colapso, os investimentos congelariam e a economia do país entraria em recessão.

Além disso, a Alemanha investiu 50 anos para construir a União Europeia. E o bloco não resistiria a um cenário em que os alemães abandonassem unilateralmente a moeda comum.

EXAME - Os governantes europeus parecem não conseguir chegar a um acordo. O processo político põe em risco o projeto da União Europeia? 

Jeffrey Sachs - Existe, claramente, uma perda de vontade política em relação ao projeto comum. O que é um erro gravíssimo a essa altura, porque enfraquece os esforços para a busca de uma solução conjunta. A União Europeia é um bloco que une 27 estados- membros.


Mas cada país está dedicado a cuidar de sua política doméstica. Nesse arranjo, entram interesses eleitorais e econômicos completamente diferentes. Isso significa que um representante da Finlândia, por exemplo, é capaz de bloquear qualquer alternativa que possa ferir suas demandas domésticas.

Mas acho improvável que os países optem por voltar aos dias em que cada um tocava sua vida e a União Europeia não existia. São mínimas as chances de o euro implodir ou a União Europeia se dissolver. Isso só aconteceria num improvável cenário de falha completa do processo político. 

EXAME - Se o cenário europeu se agravar, como as empresas, sobretudo de países emergentes, serão afetadas? 

Lupin Rahman - Há três formas de contágio para os mercados emergentes. O primeiro é o aumento da aversão dos investidores ao risco — isso ocorreu em setembro e levou à saída de estrangeiros, o que desvalorizou as moedas e aumentou o custo de financiamento das empresas no exterior.

Os preços das commodities também são um forte canal de contaminação. O terceiro é a desaceleração do PIB mundial, que pode prejudicar os fundamentos econômicos dos emergentes e, com isso, os resultados das companhias. Como o cenário europeu é incerto, a volatilidade deve continuar.

Mas o cenário de médio prazo para os emergentes é positivo. Esses países estão melhor do que em 2008. Houve um aumento das reservas, e as economias internas são fortes graças ao aumento do consumo doméstico.

Estados Unidos

A crise na Europa piora a situação da economia americana, já abatida pela explosão do endividamento público e privado que foi o estopim da crise de 2008. A maior economia do mundo patina com tentativas até agora frustradas de estimular o investimento, recuperar a competitividade e gerar postos de trabalho.


O desemprego elevado entre jovens é visto como um dos piores problemas, porque compromete o futuro. Mas, como lembra o economista José Alexandre Scheinkman, mesmo com a confiança abalada, a capacidade americana de inovação é capaz de surpreender.

EXAME - O que deu errado na economia americana? 

Jim Rogers - Os Estados Unidos enfrentam uma recessão a cada período de quatro a seis anos. É assim desde que eu era jovem — e hoje eu tenho 68 anos. Só que agora os gastos e o endividamento são bem maiores. Isso significa que a situação ficará muito pior para os Estados Unidos e para a economia mundial nos próximos dois anos.

Esta crise será pior que a de 2008, porque os Estados Unidos já usaram todas as suas armas. A verdade é que os americanos cometeram erros demais nos últimos 50 anos, começando com a Guerra do Vietnã. Desde então, os Estados Unidos passaram de um grande credor para o maior devedor mundial.

E não dá para acordar um dia, dizer que agora tudo será resolvido e achar que os problemas desapareceram. É preciso assumir os erros — e também assumir as dívidas.

O que normalmente ocorre em recessões é que os débitos são liquidados e as pessoas perdem dinheiro. Mas, até agora, ninguém teve uma grande perda.

Houve uma imensa transferência de dívida privada para o setor público. É por isso que o endividamento do governo americano explodiu. Aumentamos o endividamento e nos recusamos a deixar as pessoas e as instituições quebrarem ou irem à falência. E agora é preciso liquidar parte dessa dívida.

Os Estados Unidos não podem continuar aumentando seu endividamento sem que isso os leve a um novo desastre. Os japoneses passaram por isso nos anos 90 e não funcionou.


O Japão perdeu uma década ­— e depois perdeu outra! Se os Estados Unidos continuarem a fazer o que vêm fazendo, também irão amargar uma ou duas décadas perdidas.

EXAME - Os planos de corte de gastos públicos, de criação de empregos e de mudança de perfil da dívida americana vão ajudar os Estados Unidos a voltar a crescer? 

Jeffrey Sachs - O governo persegue a estratégia errada com os estímulos de curto prazo, que não são adequados aos verdadeiros desafios nos Estados Unidos. A economia americana já não responde a esse tipo de medida, que não ajuda a recompor a confiança, os investimentos ou o consumo.

O Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, pode até intervir na liquidez dos mercados, mas não consegue resolver nenhum dos nós que estão no Congresso em razão das eleições de 2012. No caso da operação twist (troca de títulos do governo por papéis de prazo curto a fim de baixar o juro), a reação foi bem negativa.

Dias depois do anúncio, a bolsa americana caiu 6%. Também não acho que a criação de empregos de péssima qualidade com projetos de última hora seja desejável. Eu realmente não entendo a estratégia do governo Obama de tentar revigorar as aquisições no mercado imobiliário, quando os consumidores estão endividados e precisam economizar mais.

Acabamos de ver o estouro de uma bolha imobiliária e não vejo como isso seria rapidamente revertido. É por isso que os programas de estímulo costumam falhar.

Precisamos agora estimular investimentos de longo prazo e expandir a capacidade de exportar produtos que traduzem a competitividade e a produtividade americanas. Mas não temos feito isso.

EXAME - Quais as consequências de um desemprego alto persistir por muito tempo nos Estados Unidos? 

Barry Eichengreen - Se tivermos sorte, os Estados Unidos crescerão 1,5% em 2011, uma taxa muito baixa. Ou seja, o desemprego continuará alto, o que é péssimo politicamente, além de muito ruim para o futuro da economia. Se os jovens ficarem  desempregados por muito tempo, passarão a lutar apenas pelos empregos que pagam pouco.


O cenário pode ser de empregos temporários, aqueles sem nenhum tipo de treinamento. Portanto, eles serão menos produtivos. E rendimentos mais baixos ao longo da vida dos trabalhadores promoveriam maior desigualdade de renda no país.

 EXAME - Os americanos correm o risco de entrar em uma nova recessão? 

José Alexandre Scheinkman - Os Estados Unidos passaram por uma crise bancária séria. Mesmo no melhor cenário político possível, a economia americana naturalmente cresceria pouco depois dessa crise. Somam-se a isso as profundas divergências entre democratas e republicanos, que tornam todo o processo decisório em relação às medidas que devem ser tomadas muito mais complicado.

Ou seja, o quadro é tudo menos positivo. Mas, mesmo com todas essas dificuldades, há ainda setores da economia americana que continuam crescendo, principalmente na área tecnológica, ainda que o sistema financeiro esteja cambaleante. Não é que eu esteja otimista. Mas é bom lembrar que sempre podemos nos surpreender com a capacidade de inovação americana.

Emergentes

Se na última crise mundial países emergentes como China, Brasil, Índia e Rússia enfrentaram bem as intempéries dos mercados financeiros, ainda não está claro se conseguirão repetir o desempenho. Hoje, os emergentes contam com seus próprios problemas para resolver. Economias aquecidas, bolhas imobiliárias e inflação em alta são os desafios desses mercados em desenvolvimento.

EXAME - A crise deflagrada na Europa e uma nova recessão nos Estados Unidos podem abater a economia da China e de outros países emergentes?

Jim O’Neill - O maior problema da China não é a Europa nem a Grécia, mas a inflação. Os chineses precisam garantir que a inflação fique sob controle, em 4% mais ou menos. A China deve entrar numa fase na qual o crescimento será de melhor qualidade e muito provavelmente não tão forte quanto foi na última década. 


O país deve crescer de 7% a 8% nos próximos cinco anos e daí para a frente. Num certo sentindo, essas crises nos Estados Unidos e na Europa são boas para a China. Elas forçam os chineses a perceber que o futuro do país depende de decisões que afetam apenas sua própria economia — e não de suas exportações para qualquer lugar.

Pode parecer estranho, mas eu realmente acho que as crises têm ajudado a posicionar a China no mundo. Nas últimas semanas, por exemplo, os chineses estão acelerando o uso do iuane no mercado internacional. Eles já estariam prometendo a convertibilidade total da moeda chinesa até 2015.

Parte disso vem da preocupação com a instabilidade nos Estados Unidos e na Europa. Também acho que essa realidade se aplica a outros países emergentes. Cada vez mais os componentes do bloco Bric — Brasil, Rússia, Índia e China — serão importantes no mundo, especialmente em termos comerciais. Veja o exemplo da Índia, que creio estar dez anos atrasada em relação à China.

Com seu crescimento, a Índia caminha para importar quantidades cada vez maiores de commodities — assim como a China faz hoje. Nesse sentido, o Brasil é um fornecedor que vai ser beneficiado.

EXAME - O que os emergentes precisam fazer para se proteger da crise que vem dos países ricos? 

Jim Rogers - É inegável que, se os Estados Unidos e a Europa passarem a crescer menos, a China e os outros grandes países emergentes sofrerão repercussões. Mas a única coisa que as economias emergentes podem fazer é tentar não aumentar seu próprio endividamento.

Afinal, é só olhar o que está acontecendo nos países ricos para concluir que os desequilíbrios os conduziriam ao caos. Os emergentes também precisam estar atentos à inflação — repetidos episódios de altas de preços e de aquecimento dos setores imobiliários estão acontecendo na China, na Índia e no Brasil. 


No caso da inflação, é preciso agir rapidamente ou ficará cada vez pior. Não é para menos que a China vem tentando resfriar sua economia nos últimos anos.

Os chineses já aumentaram a taxa de juro seis vezes. Os países emergentes também terão de resistir à tentação de adotar medidas protecionistas. Historicamente, o protecionismo costuma ser adotado em tempos de crise — em geral, no longo prazo, o resultado é péssimo.

EXAME - A economia chinesa se tornou o principal motor da economia mundial. Mesmo depois da crise, ela conseguirá sustentar uma taxa de crescimento na casa dos 10% no futuro?

Peter Schwartz - É impressionante o que os chineses têm feito para administrar sua economia na última década. Eles passaram incrivelmente bem pelas crises de 2007 e 2008 — tanto o setor financeiro como a economia em geral. É verdade que existem riscos no momento, mas são comparáveis àqueles que foram superados recentemente.

Portanto, mais uma vez, a China pode sair bem da turbulência externa. É fato que a demanda por produtos chineses na Europa e nos Estados Unidos é significativa e qualquer redução será sentida. Mas também é verdade que a demanda interna da China está aumentando. Uma coisa compensa a outra.

A China já conseguiu tirar mais de 300 milhões de pessoas da pobreza. E ainda há mais 1 bilhão de chineses que precisam ascender economicamente. Ou seja, há 20 Coreias para ser colocadas de pé. Esse 1 bilhão de pessoas vai precisar de educação, de moradia e de comida — tudo a que aqueles primeiros 300 milhões de pessoas estão tendo acesso agora.

Com reportagem de Giuliana Napolitano