Marcio Kumruian, da Peça.Aí e ZiYou: receita de 100 milhões de reais com aposta em mercado “zoado” (Leandro Fonseca /Exame)
Editor de Negócios e Carreira
Publicado em 27 de fevereiro de 2026 às 06h00.
Um dos pioneiros do comércio eletrônico no Brasil, Marcio Kumruian está acelerando novamente um negócio de tecnologia. Depois de vender o marketplace de artigos esportivos Netshoes ao Magazine Luiza, em 2019, e sair da operação no ano seguinte, o empreendedor aposta num setor pouco sexy para uma startup. Kumruian está dedicando um bom tempo do seu dia na operação da Peça.Aí, uma plataforma com a meta de ser uma mão na roda para as oficinas mecânicas.
Por ali, o mecânico pode comprar peças direto de fabricantes e receber as compras na hora marcada. Em São Paulo, a entrega pode levar até uma hora e meia. Além disso, na Peça.Aí dá para contratar serviços financeiros, como o de maquininhas para pagamentos eletrônicos. Ou, ainda, alugar um scanner automotivo, cada vez mais útil para o mecânico entender onde está o defeito no veículo. Uma peça dessas custa até 20.000 reais.
A receita da Peça.Aí vem de comissões por vendas na plataforma. Ao contrário de um marketplace convencional, no qual vendedores e compradores interagem diretamente, a ideia de Kumruian é colocar o Peça.Aí como um curador da compra. Assim que o cliente coloca um pedido no sistema da Peça.Aí, alguém da empresa checa com a rede de 400 fornecedores quem tem a peça com o melhor custo-benefício e na menor distância.
Trânsito em São Paulo: idade média da frota brasileira aumentou de 8 para 11 anos desde 2015 (Leandro Fonseca /Exame)
Assim, Kumruian quer resolver três dos principais problemas das 120.000 oficinas em operação no Brasil. Um deles é a encomenda de peças inadequadas. Hoje em dia, na hora de buscar partes automotivas, é muito comum o mecânico acionar contatos pelo WhatsApp, num processo rudimentar cujo sucesso depende da rede de contatos do profissional.
Falta ao Brasil uma varejista referência na venda de autopeças, como é comum nos Estados Unidos. Por lá, marcas como a AutoZone, dona de uma rede de 6.698 lojas e vendas anuais na casa de 19 bilhões de dólares, concentram peças de múltiplos fabricantes e atendem tanto motoristas como mecânicos. Há ainda o problema da demora na entrega – um perrengue para o cliente com pressa de ter o veículo de novo rodando por aí. Por fim, num mercado tão informal, o risco de golpes em compras online é enorme. “Esse é um setor grande, fragmentado e de baixo teor tecnológico”, diz Kumruian. “Para falar o português claro, é um mercado bem zoado.”
A Peça.Aí é a terceira aposta de Kumruian desde a venda da Netshoes. Na época, o empreendedor criou a ZiYou, uma plataforma para aluguel de esteiras ergométricas estilosas para cuidar da saúde sem sair de casa. O negócio bombou na pandemia, assim como o da americana Peloton, de bikes e esteiras para residências. A Peloton começou vendendo bikes e esteiras. No fim de 2022, precisou migrar para o modelo de assinatura mensal dos equipamentos em razão da perda de interesse de clientes de volta ao trabalho presencial. A mudança de comportamento colaborou para um tombo de 97,5% no valor das ações da companhia na Nasdaq desde 2021. Nesse período, Kumruian fez poucos ajustes no modelo de negócios da ZiYou, cuja receita deve bater 50 milhões de reais neste ano.
Fabricante alemã de peças Bosch: investimento na Peça.Aí ampliou o canal de vendas (Bosch/Divulgação)
Ao mesmo tempo que apostava no mercado fitness, Kumruian já tinha olhos para o “mercado zoado” das oficinas mecânicas. No fim de 2021, meses depois de abrir a ZiYou, ele anunciou a Tunne, um marketplace de peças automotivas. O plano era vender para o cliente final e levá-lo para uma rede de 200 oficinas cadastradas na plataforma. Percalços no funil de vendas forçaram um ajuste de rota. “Não conseguimos gerar demanda suficiente para as oficinas”, diz ele. “Nesse processo, olhei para as dores dos mecânicos e pensei em como criar uma espécie de ‘iFood’, um lugar para eles encontrarem de tudo.”
A Peça.Aí, portanto, é uma consequência direta do revés da Tunne. Logo depois de ter virado a chave de Tunne para Peça.Aí, em 2023, Kumruian vendeu 20% do novo -negócio para o gigante alemão Bosch, uma das maiores fabricantes de autopeças do mundo e dona de uma rede de revendedores espalhada por todo o Brasil. A parceria trouxe capital e uma porção de contatos de oficinas para Kumruian. Para a Bosch, abriu um novo canal de vendas. Desta vez, a investida no mercado de autopeças tem tudo para prosperar. Em 2025, a Peça.Aí faturou 25 milhões de reais. Com base no ritmo de aquisição de clientes, a expectativa é das melhores para 2026. “Vamos dobrar de tamanho neste ano”, diz ele.
A insistência de Kumruian nas oficinas mecânicas tem tudo para trazer um bom retorno. As vendas de autopeças para reposição (o chamado aftermarket, no jargão do setor) giram 100 bilhões de reais por ano, de acordo com estudo da McKinsey. O volume deve crescer daqui para a frente por causa dos desafios da economia brasileira. A combinação de inflação errática com juros altos desde a pandemia reduziu o poder de compra do brasileiro para um automóvel. Enquanto isso, as montadoras priorizaram lançamentos de carros de alto padrão, como SUVs, em detrimento de opções populares.
O resultado: crescimento lento da frota. Em 2025, ela chegou a 48 milhões de unidades, alta de 17% em dez anos. No período, a idade média dos veículos rodando Brasil afora aumentou de 8 para 11 anos. Quanto mais velha a frota, mais cresce o volume de serviços nas oficinas. “Cabe à nossa indústria também manter essa frota mais velha em circulação, por meio do segmento de reposição”, diz Cláudio Sahad, presidente da Abipeças e do Sindipeças, associações do setor. Em paralelo, as mais de 120.000 oficinas mecânicas em operação no Brasil também vão precisar da tecnologia para sobreviver daqui para a frente. Elas estão pressionadas pelo cenário macro: o custo do capital aumentou, e o cliente está mais chorão com preços e prazos.
AutoZone: gigante com 6.698 lojas nos Estados Unidos e receita anual de 19 bilhões de dólares (Justin Sullivan/Getty Images)
Para piorar, a competição online ficou pesada. Atualmente, algo como 7% das vendas de autopeças no país são fechadas pela internet. A projeção é que a fatia chegue a 30% até o fim da década. Boa parte da expansão será puxada por motoristas dispostos a pesquisar por conta própria em marketplaces. Ou seja, boa parte do processo de venda vai ser digital — e o mecânico precisa estar preparado. O Mercado Livre já percebeu o potencial desse mercado. “Estamos próximos de mecânicos e também avançamos numa experiência de ponta a ponta”, diz Roberta Donato, vice-presidente de Marketplace do Mercado Livre. “A gente hoje já oferece a instalação de pneus com rede parceira crescente, e em grandes centros como São Paulo temos também um serviço turbo que entrega em até três horas, dando mais agilidade tanto para o consumidor quanto para a oficina.”
Há mais investidores de olho no potencial do mercado de autopeças no Brasil. Vide o exemplo da startup Mecanizou, fundada na zona norte da capital paulista em 2021 também com a promessa de levar eficiência ao universo das oficinas. De lá para cá, a empresa já captou 14 milhões de dólares numa rodada liderada pelo fundo de venture capital -Monashees, um dos mais seletivos em operação na América Latina e com aportes em unicórnios como 99, Loggi e MadeiraMadeira.
Assim como a Peça.Aí, a Mecanizou quer facilitar a vida do mecânico na hora de cotar peças para seus clientes. A diferença está no posicionamento: além de operar um marketplace próprio entre distribuidores de peças e 3.000 oficinas, a Mecanizou quer vender a infraestrutura dessa plataforma para empresas dispostas a montar as próprias plataformas de revenda. “Por trás da Decolar [e-commerce de passagens aéreas e pacotes] há uma empresa chamada Amadeus, que é quem pluga os sistemas de precificação das empresas aéreas e permite esse mundo digital”, diz Ian Faria, CEO da Mecanizou. “Queremos ser a mesma coisa para o mercado automotivo.”
Há muitos perigos no caminho de -Kumruian e de outros empreendedores dispostos a mudar o jeitão do mercado de autopeças. A começar pelas diferenças geográficas num país diverso como o Brasil. Uma coisa é garantir uma entrega dentro do prazo num grande centro como São Paulo; outra é fazer a mesma coisa numa região longe dos grandes centros.
O grau de abertura para a tecnologia varia muito entre as oficinas, boa parte delas tocada por gente que aprendeu o ofício sozinha e ainda é resistente a mudanças. Há ainda a competição dos carros elétricos a caminho. A popularização de fabricantes chineses promete ampliar as opções de veículos populares — e, quem sabe, voltar a reduzir a idade média da frota brasileira.
Por fim, a inteligência artificial vai colocar mais informação na mão do cliente final, o que deve pressionar a barra da qualidade na cadeia produtiva inteira. Em meio a tudo isso, Kumruian quer acelerar o rumo da Peça.Aí. A partir de agora, ele quer usar ainda mais a IA para promover o “match” correto entre as mais de 400.000 peças diferentes no catálogo da companhia e os pedidos vindos das oficinas.
Além disso, deve lançar agentes de IA para analisar o score de crédito dos mecânicos e, assim, ofertar financiamentos alinhados com o tamanho do bolso de cada um. Em outra frente, quer expandir a empresa pelo Brasil, além de entrar em outros tipos de veículos, como os pesados. “Em poucos anos, já tenho duas companhias que juntas estão faturando 100 milhões de reais”, diz ele. “Estou de volta ao game.”