Um enigma presidencial

Joaquim Levy tem posições opostas ao angu econômico criado por Dilma nos últimos quatro anos. Será que ela está disposta a deixar o novo ministro trabalhar, ou ele já deve contar seus dias no governo?

São Paulo - A presidente Dilma Rousseff está entre os maiores craques que a política brasileira já produziu em matéria de ocultar seu pensamento praticamente todas as vezes em que fala ao público.

Quando fala de improviso, tudo o que diz se transforma num segredo automático, pois a aparente falta de conexão entre seus circuitos neurológicos e sua voz torna incompreensível a maior parte daquilo que está dizendo.

Quando lê um discurso previamente escrito, faz afirmações que vão diretamente contra a realidade visível dos fatos, contra o que disse em falas anteriores e contra a lógica comum. O resultado, em ambos os casos, é uma pergunta que vem se repetindo há quatro anos: “O que a Dilma quis dizer?”

Foi o caso, mais uma vez, do discurso de posse para seu segundo mandato, quando anunciou “ajustes” para uma economia que, de acordo com ela própria, está perfeitamente ajustada.

Num momento em que o Brasil cresce 0,5% ao ano, a balança comercial tem déficit pela primeira vez em 15 anos — um tipo de fiasco que se julgava pertencer ao passado da economia brasileira — e a desordem nas contas públicas bate recordes, Dilma continua a imaginar que é a presidente perfeita.

Os Estados Unidos acabam de divulgar que sua economia cresceu espetaculares 5% no terceiro trimestre do ano passado, seu melhor desempenho nos últimos 11 anos. Dilma, que passou todo o seu primeiro governo hostilizando os americanos e dizendo que sua política econômica estava errada, repetiu em seu discurso que a “crise internacional”, e só ela, é a culpada por qualquer problema que possa ter havido na economia brasileira nos últimos quatro anos.

A presidente disse que o grande lema de seu segundo mandato será “Brasil, Pátria Educadora” — mas por que já não foi assim no primeiro? Poderia ser apenas uma tolice, mas é pior.

Dilma colocou o Ministério da Educação da Pátria Educadora, nada menos do que o Ministério da Educação, no bazar de compra e venda de apoios políticos no Congresso; no caso, um órgão absolutamente estratégico foi vendido para um partido nanico, o que garante resultados opostos aos prometidos no discurso.

A Petrobras, mergulhada na crise mais destrutiva de sua história, fica exatamente como está — pela prosa da presidente, a corrupção que devasta a empresa é culpa de “inimigos externos”, e não da pilhagem a que vem sendo submetida com a cumplicidade dos governos petistas dos últimos 12 anos. Melhor parar por aqui.

A questão verdadeira, diante de tudo isso e de todo o resto, não é ficar tentando descobrir o que Dilma quer dizer, e sim colocar os olhos naquilo que ela faz. O que interessa de verdade, agora, é prestar atenção nos atos reais do governo — e, aí, o foco principal está no ministro Joaquim Levy.

O novo comandante da economia brasileira — ou o primeiro do governo Dilma, já que desde sua posse em 2011 o ministro foi a própria Dilma — vai mesmo colocar em prática suas ideias? Ou melhor: vai ficar no governo até o fim ou já está no corredor da morte, contando os dias que faltam para sua demissão? É uma pergunta esquisita para se fazer nos primeiros dias de uma administração.

O programa de Levy é perfeitamente conhecido pela presidente, e ele só foi nomeado porque a chefe concorda com tal programa — do contrário, por que diabo não nomearia outro qualquer? Levy, como se sabe, tem posições opostas ao angu econômico criado no governo Dilma.

As soluções que propõe para os problemas críticos da economia brasileira são, igualmente, o oposto dos experimentos tentados pela presidente. Enfim, os adversários de Levy, a começar por colegas de ministério, não têm sequer a sombra de um projeto econômico alternativo ao dele — ou seja, se o que Levy propõe é ruim, quais seriam as propostas certas?

Sem ele a presidente simplesmente não terá nada. Mas isso tudo são considerações lógicas. Dilma, a qualquer momento, pode se cansar do novo ministro e voltar ao fracasso de seu primeiro governo — que, aliás, considera um sucesso. É esperar.

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