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Como os países tem trabalhado tecnologias verdes

Para navegar na economia de baixo carbono, as startups precisam estar certas de que as soluções ambientais que oferecem se provarão sustentáveis ao longo do tempo

 (Lionel Bonaventure/AFP/Getty Images)

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Gernot Wagner

12 de dezembro de 2022, 06h00

A disputa por posições na corrida pela energia limpa está em curso. Os Estados Unidos se juntaram ao páreo faz só dois meses, com a aprovação da Lei de Redução da Inflação. De lá para cá, a Áustria, por exemplo, anunciou um pacote de subsídios de 5,6 bilhões de dólares, que por si só mobiliza investimentos per capita à altura do esforço americano. Contudo, com mais governos adotando políticas industriais para transformar suas economias, decidir quais tecnologias verdes apoiar será um desafio crucial. É difícil escolher vencedores.

Os legisladores podem começar com a tarefa relativamente simples de identificar os perdedores. Dióxido de carbono, metano e outros gases de efeito estufa devem ser cortados a zero ou próximo de zero para estabilizar o clima global. Esse é um motivo pelo qual há tempos os economistas têm preferido a precificação de carbono como ferramenta primária de política ambiental. Ao forçar o poluidor a pagar o custo total de suas emissões, diz essa lógica, os governos podem deixar o mercado decidir quais tecnologias vão vencer.

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Mas isso é mais fácil falar do que fazer. Distorções de mercado generalizadas, amplos interesses declarados (tanto do lado das empresas quanto da mão de obra) e bloqueios robustos de infraestrutura tornam a metódica solução dos economistas praticamente impossível. Por exemplo, considere que mais de 90% da capacidade global de produção de carvão está isolada da competição de mercado por contratos que, em vários casos, se estendem por 20 anos ou até mais tempo. Um apoio tão inflexível a tecnologias sujas e datadas como o carvão, mesmo quando alternativas mais limpas, mais baratas e melhores estão disponíveis, mostra que é preciso fazer mais.

Para complicar mais a situação, há a urgência e a escala extrema do desafio. A energia tem um papel mais do que importante em nossa vida, e obter a neutralidade do carbono exigirá uma transformação abrangente da economia e da sociedade. Dadas as circunstâncias, alavancar o poder dos cofres públicos é mais do que apropriado, especialmente quando se considera quão para trás nós estamos na transição para a energia limpa. Porém, legisladores com verbas públicas limitadas ainda precisam tomar decisões difíceis quanto às tecnologias certas.

Margrethe Vestager, comissária europeia para a Concorrência, já declarou preocupação com uma corrida por subsídios. Políticas energéticas que quebrassem os países vizinhos poderiam, em última análise, barrar a transição verde global, mas “nós não estamos sequer próximos do ponto de saturação global dos investimentos necessários”, como declarou Brian Deese, diretor do Conselho Econômico Nacional dos Estados Unidos, em comentários ambiciosos sobre a estratégia industrial de seu país.

Uma corrida inicial importante para ficar de olho é a que acontece entre os combustíveis líquidos mais verdes e as opções 100% elétricas. Cada um tem suas vantagens, mas há questões difíceis sobre o que constitui uma vantagem, e para quem.

Combustíveis líquidos podem ser mais fáceis de substituir usando-se a infraestrutura existente de dutos, fornos e motores de combustão interna. Mas a física favorece a eletrificação na grande maioria dos casos, em especial de prédios e meios de transporte, que combinados representam cerca de 40% das emissões totais.

Eletrificar tudo com bombas de calor e motores de veículos elétricos (electric vehicles — EVs) é claramente a melhor solução no longo prazo. É cerca de cinco vezes mais eficaz esquentar e esfriar diretamente uma casa com eletricidade do que usar aquela eletricidade para produzir combustível líquido; além disso, os EVs podem ir cinco vezes mais longe do que os veículos que rodam com combustíveis verdes — em geral chamados de “e-combustíveis” ou “eletrocombustíveis” — usando a mesma energia. 

Ainda assim, os e-combustíveis podem permanecer uma opção promissora para a indústria, que responde por cerca de um quarto das emissões totais. Processos atuais de produção em geral requerem combustão para criar altas temperaturas. O hidrogênio entra em combustão a mais de 2.000 graus Celsius, o que o torna potencialmente mais adequado para a produção de cimento, vidro ou aço. Quem projeta as principais tecnologias de aço com baixo teor de carbono tem olhado para o hidrogênio como o combustível de escolha para substituir o carvão.

Mas também pode haver outras soluções no horizonte, graças à competição entre empreendedores para reinventar processos industriais consolidados há tempos. A startup Chement encontrou um jeito de fabricar cimento em temperatura ambiente, e a Electra tem usado um processo que produz aço a 60 graus Celsius.

Claro que resta saber se alguma dessas empresas vai revolucionar o setor em que atuam. Além disso, o sucesso inicial delas não significa necessariamente que combustíveis líquidos verdes não são, ou não deveriam ser, parte da solução. Mas o potencial para uma sacudida nesses setores mostra por que governos devem ter cautela em apoiar empresas de energia ou setores estabelecidos que fazem forte lobby por subsídios para suas tecnologias preferidas.

A coisa se complica ainda mais quando uma startup afirma que consegue descarbonizar o sistema energético apenas trocando os combustíveis líquidos sujos pelos verdes. A promessa de uma tecnossolução sem percalços pode ser tentadora demais. Como disse recentemente o fundador da produtora de “gás verde” Tree Energy Solutions, “podemos ir nos mesmos navios, nos mesmos canos, nas mesmas fábricas”. Esse tipo de troca um-por-um pode ter vantagens iniciais significativas, em especial para setores que ainda precisarão queimar combustíveis líquidos.

Carros elétricos em Lisboa, Portugal: a solução pode não ser a mais limpa para a mobilidade urbana (Universal Images Group/Getty Images)

Mas também há o risco de dano moral verde, em que a mera promessa de uma simples tecnossolução enfraquece o incentivo para buscar uma mudança mais abrangente e, em última análise, superior. Uma coisa é depender de e-combustíveis caros para processos industriais mais raros e difíceis de abandonar (ou para ostentar aquele carrão centenário). Outra muito diferente é usá-los para aquecer casas e alimentar os trajetos de ida e volta diários quando alternativas tecnológicas e economicamente preferíveis estão à disposição.

Como de costume, os alemães têm o neo­logismo perfeito para capturar o desafio ­atual: Technologieoffenheit, que conota tanto abertura a novas tecnologias quanto cautela de se fechar prematuramente a soluções menos limpas. Mas abertura não precisa significar desejo de afastar realidades físicas básicas. Em meio à crise energética deste ano, interesses declarados por tecnologias que de outro modo poderiam causar prejuízo estão forçando a mão na questão da abertura, ao mesmo tempo que afastam a necessidade de pensamento de longo prazo.

A última coisa de que precisamos é que novas decisões de políticas econômicas, regulatórias e de investimentos se fechem em outra tecnologia altamente ineficaz no longo prazo. Os empreendedores mais bem-sucedidos são bons em focar a principal tarefa à frente, em vez de se distrair com cada coisa nova que brilha. Legisladores terão de fazer o mesmo para determinar quais tecnologias impulsionar e quais deixar de lado.

(Divulgação/Divulgação)


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