Tabuada, lousa — e lucro

Depois das faculdades, as escolas são a aposta da vez dos grupos de educação. O choque de capitalismo no ensino básico é uma boa notícia para investidores e alunos?
Escola da Eduinvest: a aprovação no vestibular aumentou após a aquisição, em 2011 (Germano Luders/Exame)
Escola da Eduinvest: a aprovação no vestibular aumentou após a aquisição, em 2011 (Germano Luders/Exame)
Por Pâmela CarbonariPublicado em 13/08/2015 13:55 | Última atualização em 13/08/2015 13:55Tempo de Leitura: 6 min de leitura

São Paulo — Não foi desperdiçando oportunidades que a Kroton virou a maior rede de ensino do mundo. Depois de abrir o capital em 2007, a empresa comprou mais de 20 faculdades e chegou a 1 milhão de alunos e a 20 bilhões de reais de valor de mercado. Agora os executivos da Kroton dedicam-se a estudar um novo — e promissor — nicho: o ensino básico.

A empresa é dona de um único colégio, o Cidade Jardim, em Belo Horizonte, e atende outras 800 escolas com seu sistema de ensino, o Pitágoras. Mas a ideia da Kroton, discutida no último ano em longas reuniões na sede da empresa, na avenida Paulista, é fazer com o ensino básico o mesmo que fez com o superior — dominar o mercado.

Dinheiro, a empresa tem. Até julho a Kroton deverá receber mais de 1 bilhão de reais pela venda da rede de faculdades Uniasselvi. Entre seus executivos há um consenso crescente de que comprar escolas é uma ótima forma de multiplicar esse dinheiro. Um número crescente de concorrentes pensa igual. 

Depois da explosão do ensino superior na última década, quando o número de universitários passou de 3 milhões para 5,5 milhões, investidores e empresários da educação parecem ter chegado juntos à mesma conclusão: a bola da vez são as escolas de ensino fundamental e médio, aquelas com alunos de 6 a 17 anos.

Os principais grupos de ensino básico do país têm planos de investimento recordes. A Abril Educação, dona do sistema de ensino Anglo, começou a comprar escolas em 2011. Hoje, tem 24 unidades de cinco redes. E pretende investir 200 milhões de ­reais até 2016, o maior volume de sua história.

O empresário Chaim Zaher, dono de 35 escolas, como as da rede paulistana Pueri Domus, investiu nos últimos dois anos 150 milhões de reais na compra de três redes. Seu plano é, até 2020, passar de 45 000 para 100 000 alunos. A prioridade são escolas bilíngues. Três estão em construção. O momento promissor também atrai novatos.

O empresário Jorge Paulo Lemann, dono da cervejaria Ambev, e outros 20 empresários investiram para criar o grupo educacional Eleva. De 2013 para cá, compraram as redes de escolas Pensi, Elite e Colegium, que têm 28 000 alunos no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Fundos de private equity, como o Advent e o Pátria, também estudam oportunidades nesse mercado. “O setor tem um enorme potencial. Ainda mais em um momento de crise. A educação dificilmente vai ser cortada pelas famílias”, diz Ricardo Scavazza, sócio do Pátria.

Dois motivos explicam tamanho interesse. Primeiro, investir em ensino superior ficou mais complicado. O corte do governo no Fies, programa federal de financiamento estudantil, dificultou a vida das universidades. No primeiro semestre, 175 000 pessoas deixaram de entrar na faculdade por falta de financiamento, segundo a consultoria Hoper.

Quem quer investir em educação, hoje, acaba olhando com mais atenção para o ensino básico, que depende menos dos humores do governo. A outra explicação é, ao mesmo tempo, social e demográfica. Na última década, o aumento do poder de compra fez com que milhares de alunos trocassem a combalida rede pública por escolas privadas.

Desde 2007, o número de escolas particulares no Brasil passou de 32 500 para 40 000, de acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). O número de alunos passou de 6,4 milhões, em 2007, para 9 milhões, em 2014. Na rede pública, o número de escolas e de alunos está em queda livre (veja quadro).

Em paralelo, a redução dos índices de natalidade aumentou a capacidade das famílias de pagar pela educação. Nos últimos dois anos, o faturamento das escolas privadas cresceu 23%, para 40 bilhões de reais. “Em muitas famílias, é a primeira geração de pais que tem condições de pagar a escola dos filhos”, diz Eduardo Mufarej, presidente da Abril Educação. “Isso cria um enorme mercado.”

Um setor familiar 

Até a década passada, o melhor caminho para faturar com educação básica eram sistemas de ensino. O negócio consiste em criar apostilas e vender para o maior número de escolas possível. Os sistemas de ensino da Abril Educação atendem 776 000 alunos em 2 480 colégios. O do grupo Positivo, de Curitiba, tem mais de 1 milhão de alunos.

O Objetivo, de São Paulo, 430 000. O problema é que a receita por aluno é pequena, e o potencial de crescimento também — o país já está dividido entre os grandes competidores. Se a consolidação dos sistemas de ensino já aconteceu, na gestão de escolas o potencial de criação de grandes grupos é imenso. Empresários do setor veem semelhanças com o ensino superior de anos atrás.

O setor é dividido entre pequenas e médias escolas, administradas por famílias e professores sem experiência de gestão e sem nenhuma ambição. “As escolas estão sempre no limite. Em muitas, os donos sofrem com os aluguéis altos. Em outras, os herdeiros estão fartos do negócio”, diz Marco Gregori, dono do grupo de educação Eduinvest, que desde 2011 comprou as escolas paulistanas Anhembi Morumbi, Anchieta e Politec.

Para os investidores, o ensino básico tem vantagens sobre as faculdades. O público é oito vezes maior. A mensalidade média é mais cara. O ciclo de vida dos alunos, quatro vezes mais longo. Mas a moleza termina aí. Criar e administrar um grupo de escolas pode ser mais complicado do que unir dezenas de faculdades.

O Brasil tem cerca de 39 000 escolas, cada uma delas com aproximadamente 230 alunos. As grandes empresas desse setor, portanto, não serão construídas com grandes tacadas, mas com dezenas e centenas de pequenas aquisições. Para piorar, a gestão de uma rede de escolas exige cuidados que dificultam os ganhos de escala.

Executivos do setor dizem que, nas escolas, os pais dos alunos gostam de interferir no conteúdo lecionado, o que dificulta uma gestão acadêmica centralizada. No ensino superior, cursos de direito, filosofia e administração são iguais em todas as unidades de uma rede. “As universidades são um negócio mais de massa. As escolas podem dar muito dinheiro, mas funcionam mais como alta-costura, com produtos sob medida”, afirma Patrice Etlin, sócio do fundo de investimento Advent.

E, para os alunos, essa visão mais capitalista do ensino é uma boa? Em comparação com a péssima qualidade da rede pública, as escolas particulares se saem bem. No último Ideb, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, de 2013, o ensino médio da rede privada recebeu nota 5,4, numa escala até 10. Nos últimos anos do ensino fundamental, a nota foi 5,9. A rede pública levou 3,4 e 4, respectivamente.

O problema é que o aumento do número de escolas e de alunos fez a qualidade da rede parti­cular cair — em 2011, a nota era 5,7 para o ensino médio e 6 para os anos finais do fundamental. Ainda que timidamente, os grandes grupos têm bons resultados para mostrar. A Abril Educação tem uma escola entre as 100 melhores no Enem, o exame do ensino médio.

A Eleva, uma entre as dez primeiras. Na Eduinvest, o número de alunos aprovados em vestibulares aumentou 20% em três anos. Se os novos grupos ajudarem a melhorar a qualidade da educação, seus investidores e, principalmente, seus alunos só têm a ganhar.

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