Sagr@do digital

A tecnologia ajuda líderes religiosos a se conectarem com os fiéis em tempos de isolamento — e pode até revigorar a fé

“Bom dia, meu povo querido! [Vou] rezar e pedir a Deus para a internet funcionar porque aqui na roça quando chove…” Foi com essa saudação descontraída que o escritor e apresentador padre Fábio de Melo deu início à Missa da Santíssima Trindade, uma das mais importantes do ano litúrgico cristão, no dia 7 de junho. Celebrada na capela de sua casa, no interior de São Paulo, em meio à quarentena da ­covid-19, a solenidade foi acompanhada em tempo real por quase 100.000 pessoas e já atingiu mais de 1,2 milhão de visualizações desde que foi publicada em seu perfil no Instagram @pefabiodemelo.

Transmitidas todos os domingos pela manhã, as missas via live são a maneira que o sacerdote encontrou para se conectar a seus mais de 20 milhões de seguidores, que incluem personalidades como o publicitário Nizan Guanaes, a apresentadora Xuxa Meneghel e a atriz Sabrina Sato. Padre Fábio é um dos religiosos mais pop do país. Soma 3 milhões de CDs e 3,5 milhões de exemplares de livros vendidos, além de comandar um programa na TV Canção Nova. Ainda assim, as lives impulsionaram seu alcance. “Em cada missa ele fala agora com dois estádios de futebol ao mesmo tempo. Você acha que isso vai voltar atrás quando a pandemia passar?”, pergunta Guanaes (leia entrevista com Nizan Guanaes abaixo).

As incertezas instauradas pela pandemia, com reflexos brutais sobre a saúde pública e a economia, têm mexido com a subjetividade do brasileiro e sua relação com a fé. Segundo um estudo da consultoria de pesquisa de tendências Box1824, a experiência da religiosidade ou espiritualidade ganhou mais relevância na rotina de 49% da população. “Há uma forte busca por atravessar o trauma coletivo de forma mais serena”, avalia Gabriel Milanez, vice-presidente de estratégia da consultoria. E isso só é possível com a ajuda da tecnologia.

Diante da impossibilidade de frequentar igrejas, mesquitas, terreiros, sinagogas e outros espaços religiosos, a fé caiu na rede. A conexão com o sagrado ficou restrita ao confinamento da vida doméstica, onde online e offline, físico e virtual fundem-se, ou confundem-se, cada vez mais. O portal agora é a tela do smartphone ou do computador e, acima de tudo (Krishna, Buda, Jesus ou Alá?), está o repertório interior de crenças individuais, tão diversamente peculiar quanto a própria brasilidade. ­WhatsApp, Telegram, Zoom e Google Meet fazem o meio de campo entre instituições e praticantes.

Cada religião cria a própria forma de conexão. Para a publicitária e dançarina Jéssica Justino, adepta do candomblé, as religiões de matrizes africanas oferecem lições a todos. As práticas e as crenças nos orixás recomendam que as pessoas fiquem em casa, se cuidando. Palavras de conforto pelo telefone, além de ações sociais online, conectam os frequentadores de terreiros. Já o médico gastroenterologista Roberto Felipe Loyola, membro da comunidade católica Shalom, a prática religiosa acontece em missas virtuais, mas implica a participação de um mutirão de entrega de ­alimentos a pessoas em condição de vulnerabilidade social em São Paulo.

Loyola foi um dos 13.000 espectadores do Halleluya Solidário, versão digital do maior festival de música católica da América Latina. O padre Marcelo Rossi também se apresentou no evento, criado para angariar recursos para afetados pela covid-19. Promovida por grupos católicos e transmitida pelo YouTube no dia 7 de junho, a ação inclui coleta de alimentos e continuará até o final do mês.
Fiéis mais velhos ou pouco afeitos ao mundo digital não ficam de fora. No Lar de Tereza, no Rio de Janeiro, espíritas jovens assessoram os membros que desejam acompanhar reuniões particulares e palestras públicas, que ocorrem por videoconferência e em tempo real. Os encontros dos grupos de estudo do Evangelho Segundo o Espiritismo, antes realizados no 2o andar de um prédio em Copacabana, ganharam os apps de mensagem. Ninguém esquece ninguém. Frequentadora e voluntária da casa, a médica aposentada Louise Bastos telefona semanalmente para uma senhora de 92 anos para “dar o passe”. “Nós nos retroalimentamos, nos conectamos mesmo no isolamento”, diz.

Sentir-se acolhido no conforto do lar e conectado ao mundo pela tecnologia não está ao alcance de todos, ainda mais no Brasil, país com desigualdades históricas. “A pandemia aprofundou os problemas sociais. Quem vive na subalternidade percebe que seu lar, que deveria servir de abrigo e sobrevivência, não tem as estruturas necessárias para o isolamento, nem mesmo um celular”, pondera o pastor evangélico e militante do movimento negro Ras André Guimarães. “O que resta para o povo? A fé, a esperança, a possibilidade de buscar a força interna, que nos conecta com algo maior, independentemente da religião.”

Se por um lado o acesso desigual à tecnologia torna-se obstáculo para a vivência de uma espiritualidade conectada, muitas vezes são as regras da própria religião que afetam isso. Correntes mais tradicionais do judaísmo tendem a restringir o uso do celular e o acesso à internet durante o shabat, período que vai do pôr do sol de sexta-feira ao pôr do sol de sábado. Mesmo em tempos de confinamento. “Dada a complexidade dos rituais, a reunião da comunidade num mesmo espaço físico faz muita falta”, comenta a israelense Sarah Levy. De família laica, a profissional autônoma aproveitou as horas anteriores ao início da Páscoa para se conectar com os familiares. Pelo WhatsApp, claro.

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