Revista Exame

Riachuelo corta 60% dos químicos no jeans e avança em moda circular

Varejista aposta em rastreabilidade, reciclagem têxtil e biomassa renovável para reduzir emissões em uma das cadeias mais poluentes do mundo

André Farber, CEO da Riachuelo: “A sustentabilidade é o alicerce de um modelo que integra indústria, varejo e desenvolvimento social” (Leandro Fonseca/Exame)

André Farber, CEO da Riachuelo: “A sustentabilidade é o alicerce de um modelo que integra indústria, varejo e desenvolvimento social” (Leandro Fonseca/Exame)

Publicado em 27 de maio de 2026 às 06h00.

A indústria da moda responde por até 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, e o problema central está na origem: a pegada de carbono mais pesada vem dos materiais e tecidos usados na produção. É na fibra que está o nó, e também a maior oportunidade de transformação.

Foi exatamente nesse ponto, da fibra ao pós-consumo, que a varejista Riachuelo estruturou sua estratégia ESG. No Brasil, o desafio tem contornos ainda mais estruturais: o país é o terceiro maior produtor de algodão do mundo, mas exporta a matéria-prima para a China e importa o fio de volta.

A cadeia de beneficiamento — que transforma a fibra bruta em fio, tecido e produto acabado — foi sendo terceirizada para a Ásia ao longo de décadas, esvaziando a produção nacional e ampliando a dependência com alto custo ambiental e econômico. A Riachuelo decidiu que trazer essa cadeia de volta é parte do seu negócio.

“A sustentabilidade não é acessório, mas o alicerce de um modelo que integra indústria, varejo e desenvolvimento social”, afirma ­André Farber, CEO da empresa.

A companhia, que completou 78 anos em 2025, organizou seus compromissos em quatro eixos: impacto social, ecoeficiência, inovação em produto e pós-consumo.

A aposta mais recente no portfólio é o lançamento do primeiro jeans brasileiro com elastano feito de cana-de-açúcar, substituindo o petróleo por biomassa renovável. A coleção também incorpora viscose reciclada e tem produção 100% rastreável por blockchain, garantindo transparência em cada etapa do processo produtivo.

O pós-consumo também avançou. Em parceria com a Cotton Move, a Riachuelo criou a linha Pool Loop, que reutilizou 9,4 toneladas de aparas têxteis para produzir 42.000 peças com algodão reciclado, todas monitoradas digitalmente. O modelo mostra como o resíduo pode voltar ao início do processo como matéria-prima, fechando o ciclo sem gerar desperdício.

Parte dessa capacidade de inovação tem endereço certo. A fábrica de Natal (RN), a maior do setor na América Latina, funciona como laboratório de eficiência. O jeans convencional já usa tecnologia de ozônio e nanolaser, reduzindo em 70% o consumo de água e em 60% o uso de químicos.

São números que transformaram o que era padrão produtivo em referência para o setor e refletem anos de investimento em processos mais limpos. A unidade também serve de base para desenvolvimento e teste de novas tecnologias antes de serem escaladas para o restante da operação.

O mesmo cuidado se estende ao campo social. O Instituto Riachuelo concentra mais de 10 milhões de reais investidos na região do Seridó nos últimos cinco anos, em projetos que incluem profissionalização de oficinas de costura, cultivo de algodão agroecológico e preservação do bordado artesanal da comunidade rural Timbaúba dos Batistas.

São iniciativas que conectam geração de renda local à valorização da cultura regional e mostram como o desenvolvimento social pode nascer dentro da própria cadeia produtiva da moda.

O programa Agro-Sertão viabilizou o lançamento de 70.000 camisetas com algodão 100% agroecológico e tingimento natural, unindo a geração de renda local à redução de emissões na produção. Juntos, o Instituto e o Agro-Sertão mostram que a Riachuelo trata os eixos social e ambiental como parte do mesmo projeto.


DESTAQUES DO SETOR

Renner

Na Renner, varejista de moda, oito em cada dez peças já possuem atributos de sustentabilidade, e a meta é chegar a 100% até 2030. Um dos caminhos escolhidos pela empresa gaúcha é o algodão agroecológico, cultivado em sistemas que regeneram o solo em vez de esgotá-lo.

O projeto Florestas de Algodão, desenvolvido em parceria com a startup Farfarm e a Universidade Federal de Mato Grosso no bioma Cerrado, é o primeiro do setor de moda no Brasil a construir uma cadeia produtiva sustentável e regenerativa a partir de sistemas agroflorestais.

Os números de 2025 mostram o avanço mais amplo dessa agenda: 73,9% das matérias-primas têxteis já são circulares ou regenerativas, e 100% dos fornecedores de vestuário estão certificados em critérios socioambientais.

A companhia também foi a primeira do setor de moda no mundo a publicar relatório financeiro no padrão IFRS S1/S2, que apontou contribuição de 100 milhões de reais ao resultado operacional em 2024.

O compromisso de neutralidade climática vai até 2050, com foco em puxar a descarbonização para além das próprias operações e influenciar a indústria como um todo.

C&A

A C&A, companhia de moda e vestuário, estrutura sua agenda de sustentabilidade com metas vinculadas à remuneração da diretoria e reporte auditado ao mercado. Em 2025, teve nova meta aprovada pela Science Based Targets initiative (SBTi): redução de 42% das emissões absolutas até 2030, incluindo toda a cadeia de valor. Desde 2023, a varejista mantém 100% de energia renovável.

Em circularidade, atingiu 72,2% de matérias-primas de origem mais sustentável e produziu 2,9 milhões de peças com poliéster reciclado. A rastreabilidade avança via blockchain: pelo programa SouABR, já são mais de 100.000 peças com origem rastreada do campo ao produto final.

Rastreabilidade não é apenas uma demanda regulatória emergente; é uma vantagem competitiva que fortalece a credibilidade e sustentabilidade no mercado”, diz Cyntia Kasai, gerente sênior de ESG e Comunicação.

Em fornecimento, 946 parceiros foram avaliados em práticas socioambientais. Nos indicadores de diversidade, 64% das lideranças são mulheres e 31% são pessoas negras ou indígenas.

Para 2026, o foco é implementar o Plano de Transição Climática e ampliar para 80% o uso de matérias-primas sustentáveis.


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