Mulheres ainda são poucas e sem poder nas empresas

Uma pesquisa revela que as mulheres ainda são minoria no topo das empresas — e mesmo as que estão lá comandam áreas que raramente as levam à presidência

São Paulo - No começo de outubro, numa conferência nos Estados Unidos em que se discutia o espaço das mulheres em empresas de tecnologia, o indiano Satya Nadella, presidente mundial da fabricante de softwares Microsoft, falou que as mulheres não deveriam pedir aumento salarial. “Trata-se de ter fé que o sistema lhe dará isso quando chegar a hora”, disse Nadella.

Como esperado, a declaração gerou celeuma. O executivo até que tentou atenuar. Naquela mesma tarde, enviou um e-mail a todos os funcionários da Microsoft pedindo desculpas por ter se expressado mal. Para limpar mesmo a barra, Nadella falou na reunião anual de acionistas, em novembro, que pretende aumentar a diversidade na empresa.

Atualmente, 83% dos cargos de gerência ou superiores na Microsoft são ocupados por homens. Dos 14 vice-presidentes, apenas três são mulheres, responsáveis pela área de recursos humanos e pelos departamentos financeiro e de desenvolvimento de negócios. Antes de assumir a presidência, Nadella estava à frente do negócio de servidor e de ferramentas da empresa. Já Steve Ballmer, seu antecessor, foi executivo de vendas e de produtos.

A Microsoft não foge a uma regra que impera no mundo corporativo: ainda há poucas mulheres na cúpula das empresas, e as que estão lá ocupam cargos que quase nunca formam presidentes. É um retrato que foi comprovado recentemente por um estudo do instituto de pesquisa do banco Credit Suisse feito com 28 000 líderes de 3 000 empresas em 36 países.

Segundo o estudo, as mulheres em cargos de chefia são minoria em todas as áreas das companhias. No mundo, elas ocupam apenas 13% da alta liderança. No Brasil, não chegam a 10%. Quando alcançam o topo, grande parte dessas profissionais ocupa cargos considerados de apoio, como recursos humanos, comunicação, jurídico e contabilidade.

“São searas menos influentes na estrutura de gestão e de poder das empresas”, diz Stefano Natella, chefe do centro de pesquisa do Credit Suisse e responsável pela análise. “Raramente os presidentes são egressos delas.”

Há algumas razões para o cenário ser ainda tão desfavorável às mulheres. Segundo especialistas, grande parte da culpa é das empresas, que desestimulam as executivas a buscar a ascensão na carreira. Poucas companhias têm políticas para ajudar as profissionais a conciliar demandas pessoais e profissionais, como flexibilidade no horário de trabalho e licença-maternidade estendida.

Outro banho de água fria na ambição feminina é a diferença salarial. Um levantamento feito neste ano pelo Fórum Econômico Mundial revelou que as profissionais brasileiras recebem 70% da remuneração de seus colegas homens na mesma função.

Uma das explicações para a diferença, segundo um estudo da Universidade Yale, é que as ofertas de salário inicial aos homens são mais generosas. Com o tempo, mesmo recebendo aumentos, equiparar a remuneração fica mais difícil.

As próprias mulheres colaboram para que sua presença na alta hierarquia seja tímida. Isso porque, na hora de decidir a carreira que vão seguir, muitas fogem das áreas que formam a maioria dos presidentes. “Elas assumem que não terão sucesso em searas que julgam mais áridas e, por isso, nem correm o risco”, diz Matthew Bidwell, professor de gestão de Wharton, escola de negócios da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos.

Em 2012, ele analisou para quais vagas 1 255 profissionais — entre pessoas que estavam concluindo o MBA em universidades renomadas dos Estados Unidos — estavam se candidatando. Conclusão: as mulheres optavam por trabalhos que permitissem mais equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal em ambientes que parecessem menos hostis.

Do universo pesquisado, apenas 4% das profissionais se interessaram por vagas relacionadas às finanças — ante 12% para áreas como marketing e logística. A paulista Alessandra Bomura, de 44 anos, é um exemplo de profissional que se aventurou em um ambiente dominado pelo sexo oposto e se deu bem.

Formada em ciência da computação, desde 2011 ela é vice-presidente de TI e atendimento ao consumidor da empresa de telefonia GVT, comprada recentemente pela Telefônica. É a única mulher nesse nível hierárquico na empresa.

“Já me senti muito sozinha em alguns momentos”, diz Alessandra. Há três anos, ela precisou contratar pessoas para ocupar duas diretorias e se empolgou com a perspecti­va de aumentar a presença feminina. Acabou contratando dois homens. “Não apareceram candidatas”, diz.

Ideia equivocada

Para piorar a situação, apesar da visibilidade que o assunto ganhou nos últimos anos, percepções equivocadas sobre as mulheres no universo do trabalho ainda persistem. Acredita-se, por exemplo, que elas não sonhem em ocupar cargos estratégicos. Há algum fundo de verdade nisso?

A consultoria McKinsey perguntou a 547 executivos na América Latina — entre gerentes e diretores de ambos os sexos — se eles almejavam se tornar vice-presidente ou presidente. As mulheres se revelaram ligeiramente mais ambiciosas: 79% delas responderam “sim”, ante 73% dos homens. Outro equívoco é o mito de que elas sempre sacrificam a carreira em detrimento da vida pessoal.

“Sempre soube que haveria momentos em que seria obrigada a escolher”, diz Chris Rego, que comanda um importante negócio da americana Mondelez — a divisão de chicletes e gomas. “Nunca cogitei abrir mão do trabalho, independentemente do que tivesse de fazer.”

Na teoria, tanto Alessandra quanto Chris, no cargo que hoje ocupam, têm mais chance de assumir a presidência da empresa em que trabalham. E isso é bom. A má notícia é que elas são exceção. A julgar pela complexidade dos desafios a ser superados, devem permanecer como tal por um bom tempo.

Obrigado por ler a EXAME! Que tal se tornar assinante?


Tenha acesso ilimitado ao melhor conteúdo de seu dia. Em poucos minutos, você cria sua conta e continua lendo esta matéria. Vamos lá?


Falta pouco para você liberar seu acesso.

exame digital

R$ 12,90/mês
  • Acesse onde e quando quiser.

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.
Assine

exame digital + impressa

R$ 29,90/mês
  • Acesse onde e quando quiser

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.

  • Edição impressa mensal.

  • Frete grátis
Assine

Já é assinante? Entre aqui.