Paixão dá dinheiro?

Já é possível investir em vinhos ou obras de arte no brasil — mas misturar prazer com dinheiro pode não ser tão divertido quanto parece

O executivo paulistano Alexandre Zákia dedicou 35 de seus 54 anos ao mercado financeiro — até que um infarto interrompeu sua carreira em 2009. Os médicos recomendaram a Zákia que largasse o corre-corre do mundo das finanças e, caso quisesse continuar trabalhando, que trabalhasse então numa atividade sem nível algum de estresse. O que fazer? Ele decidiu, então, dedicar-se a uma antiga paixão: os vinhos. Mas de uma forma um tanto peculiar. Em vez de tomar uma tacinha por dia, Zákia lançou um fundo de investimento em vinhos, o primeiro na história do país. O Bordeaux Wine Fund Multimercado varia de acordo com o preço dos melhores vinhos da mais tradicional região produtora do mundo — um total de 24 ícones, como Château Lafite Rothschild, Château Margaux e Château Haut-Brion. O aporte mínimo deixa claro que a coisa não é para iniciante — 1 milhão de reais. Zákia está em fase de captação. “É muito mais divertido saber quais rótulos são mais valorizados e estudar as especificidades de uma vinícola francesa de Bordeaux do que ficar o dia inteiro ligado no sobe e desce do Ibovespa”, diz Zákia. Pode até ser divertido — mas dá dinheiro para quem investe?

Essa é uma pergunta que se tornará mais comum no mercado brasileiro daqui em diante. Populares nos Estados Unidos e na Europa, os fundos que investem na paixão dos investidores (conhecidos lá fora como passion investments) começam a ganhar espaço no Brasil. Nos últimos cinco anos, foram lançados 11 fundos desse tipo no país. Ao todo, captaram mais de 100 milhões de reais para comprar obras de arte, vinhos e financiar produções cinematográficas. Empolgados com o potencial de crescimento desse filão, executivos estudam a criação de outros fundos abertos para o público em áreas como preservação de florestas e aquisição de direitos econômicos de jogadores de futebol. O surgimento dessas alternativas de investimento tem tudo a ver com a sofisticação do mercado brasileiro e a sequência de anos de crescimento econômico. “Os clientes passaram a exigir uma diversificação maior em sua carteira de investimentos”, diz a economista Rachel Campbell, consultora do fundo Emotional Assets, que investe em selos, relógios antigos e outros objetos colecionáveis.

Bolhas

No exterior, os passion investments são cercados por polêmica. Para muitos consultores financeiros, o investimento em obras de arte, por exemplo, é ainda mais suscetível à formação de bolhas do que o mercado acionário. Também é impossível obter a liquidez de uma aplicação em ações (o número de investidores desses fundos é muito menor do que aqueles que investem em bolsa ou renda fixa, assim como seu tamanho). Finalmente, há um problema que pouco tem a ver com retornos — misturar paixão com dinheiro, dizem os críticos, pode acabar com o prazer do que era mero hobby. Mas, na queda de braço entre críticos e defensores, os defensores estão ganhando. A crise de 2008 levou milionários do mundo inteiro a aumentar seus investimentos em ativos que podem ser pendurados na parede, guardados na adega ou exibidos no pescoço. Segundo uma pesquisa da consultoria Capgemini, indivíduos com patrimônio entre 1 milhão e 5 milhões de dólares, além de imóveis, aplicaram 30% de seu dinheiro em itens de luxo colecionáveis em 2009 — um crescimento de 11% em relação ao ano anterior. Com juros baixíssimos no mundo desenvolvido, a demanda por investimentos alternativos tem crescido. E alguns dos principais fundos desse segmento têm apresentado retornos invejáveis.


Lá fora, existem modalidades de investimento para um bocado de paixões diferentes. Há, por exemplo, um fundo que investe em carros da Ferrari ou da Jaguar produzidos nos anos 50. Fundos que compram obras de arte são os mais procurados — em alguns casos, o investidor pode tomar, por exemplo, um quadro emprestado por uns dias. Como começam a surgir por aqui, os fundos alternativos ainda têm um leque restrito no Brasil. Um dos mais novos da lista é o Brazil Golden Art (BGA), da gestora Plural Capital, fundada por ex-sócios do banco de investimento Pactual. O fundo já levantou 40 milhões de reais para adquirir obras de arte contemporânea, sobretudo de artistas jovens. “Queremos descobrir um novo Vik Muniz, uma nova Beatriz Milhazes”, diz Heitor Reis, um dos responsáveis pelo BGA e ex-diretor do Museu de Arte Moderna da Bahia. A ideia é aproveitar o bom momento vivido por artistas brasileiros no mercado internacional. Recentemente, a casa de leilões Christie’s vendeu a obra Pai­sagem Canibal, de Adriana Varejão, por 602 500 dólares, quase o dobro do valor pretendido inicialmente.

Para os apaixonados por cinema nacional — sim, eles existem —, há no mercado uma série de fundos dedicados a fomentar a produção de filmes. Fundada pelo ex-diretor do Banco Central Luiz Augusto Candiota, a gestora Lacan tem cinco desses fundos sob gestão (Rio Bravo e banco Fator competem com a Lacan nesse segmento). Dois dos filmes financiados pela Lacan são Divã, com a atriz Lilia Cabral, e De Pernas pro Ar, segunda maior bilheteria do cinema nacional em 2011. Há um grande benefício para quem investe em cinema. Desde 2006, as pessoas físicas que apoiam os filmes nacionais podem abater seus investimentos do imposto de renda, respeitado o limite de 6% do valor devido ao Fisco.

Que tipo de cuidado tomar na hora de investir em hobbies? Especialistas recomendam níveis de cautela acima da média. “Um quadro que, atualmente, é estimado em 200 000 reais pode passar a valer 1 milhão num leilão com apenas um lance de um comprador aficionado”, diz o professor William Eid Júnior, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas. E o que sobe nessa velocidade pode cair com força semelhante logo depois. Pesquisar a origem do produto, levantar o histórico do vendedor e acompanhar a carteira de outros fundos semelhantes são alguns dos conselhos dos especialistas para quem deseja transformar a paixão em dinheiro. Outro ponto importante é ter a noção exata de que a liquidez desses fundos é baixa se comparada à de outros tipos de investimento, como ações ou renda fixa. É mais difícil, portanto, vender as cotas. “Ou seja, esses produtos são indicados para investidores qualificados que tenham como meta obter retorno em pelo menos cinco anos”, diz Eid. Pode ser divertido, pode até dar dinheiro — mas fácil não é.

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