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O risco político voltou, diz analista americano

Na opinião do cientista político Ian Bremmer, os tempos de euforia com países como o Brasil passaram. Não basta mais olhar só para a economia, os investidores terão de prestar atenção crescente na política

São Paulo - Para o americano Ian Bremmer, um dos cientistas políticos mais respeitados da atualidade, o que caracteriza os mercados emergentes é o fato de as questões políticas serem tão importantes quanto as econômicas para determinar como o país vai crescer e tratar os investidores.

Traduzindo: em países maduros, é a economia, e só ela, que prevalece na avaliação dos investidores. Segundo Bremmer, os riscos políticos nos países emergentes foram subestimados após a crise de 2008, pois todos estavam maravilhados com o crescimento de Brasil, China e Turquia, entre outros.

Mas empresas e investidores foram obrigados a voltar a prestar atenção na instabilidade desses países nos últimos meses, em meio a sucessivas ondas de protestos. Dono da consultoria Eurasia Group, Bremmer acredita que o Brasil tem condições de continuar recebendo recursos de companhias e fundos estrangeiros, especialmente nos projetos de infraestrutura.

Mas diz que, se as manifestações nas ruas ameaçarem a realização da Copa em 2014 e da Olimpíada em 2016, o resultado será desastroso — o país pode perder a capacidade de atrair capital de longo prazo. De seu escritório, em Nova York, ele falou a EXAME.

EXAME - Quais podem ser os efeitos dos protestos no Brasil para o futuro da economia e para a capacidade do país de atrair investimentos? 

Ian Bremmer - O aumento da pressão costuma fazer os governos lidar com desafios que estavam sendo ignorados por alguma razão. Os protestos recentes mostraram que o Brasil tem uma democracia consolidada e uma sociedade civil ativa, que consegue fazer suas demandas ser ouvidas.

A presidente Dilma Rousseff tem uma popularidade elevada e seu tom, ao responder a essas demandas, tem sido equilibrado — algo diferente do que vem ocorrendo na Turquia, por exemplo, onde o primeiro-ministro Recep Erdogan tem sido truculento. Mas as manifestações não têm força para provocar grandes mudanças na forma como a política econômica é conduzida. 

EXAME - Mas governos e o Congresso têm reagido às manifestações com o anúncio de uma série de medidas. O populismo não é um risco? 

Ian Bremmer - O governo brasileiro sabe que precisa reduzir despesas, e os manifestantes pedem justamente o contrário: mais gastos em educação, saúde e infraestrutura. Acho difícil que o governo siga nessa direção e gaste mais. Talvez faça algumas mudanças na forma como grandes projetos são executados para ganhar tempo e alguma simpatia da população.


Na prática, porém, as medidas que foram tomadas para responder às manifestações foram tímidas. De forma geral, a estratégia é reempacotar projetos que já estavam na pauta, como direcionar as receitas do petróleo para a educação. 

EXAME - Há mais ganhos políticos do que econômicos com essa demonstração de força da democracia?  

Ian Bremmer - Sem dúvida. O Brasil é mais maduro na política do que na economia. Até recentemente, as mudanças econômicas que ocorreram na última década no país estavam sendo amplamente superestimadas.

Parecia que nada podia dar errado num país com uma demografia favorável, uma classe média emergente, reservas energéticas gigantescas, terras para garantir a expansão agrícola, presidentes populares e, além de tudo, prestes a sediar  dois grandes eventos, a Copa e a Olimpíada. Os protestos foram um choque de realidade.  

EXAME - Esses avanços recentes podem estar em risco? 

Ian Bremmer - Não acredito nisso. Os fundamentos continuam ali. A economia está crescendo menos, mas está crescendo, e há mais emprego e investimentos.

Vejo um pouco de exagero no pessimismo, e isso é natural. Sempre que as condições mudam, parte dos investidores reage de maneira desproporcional: hoje, estão tirando dinheiro do país. Mas acredito na capacidade do Brasil de atrair recursos de longo prazo para projetos de infraestrutura.

O governo tem se mostrado mais aberto a multinacionais do setor. Converso com os presidentes dessas companhias e eles continuam otimistas com o Brasil. O risco é haver problemas durante a Copa ou a Olimpíada.

Se os protestos tomarem grandes proporções, se houver gente ferida e morrendo nas ruas, será um sinal de que o país não funciona. O mundo estará assistindo, vai comparar com a experiência bem-sucedida de Pequim, e verá que o Brasil está numa situação pior. 

EXAME - Há algo em comum entre os protestos que vêm ocorrendo nos diferentes países emergentes? 

Ian Bremmer - A semelhança é que todos têm uma raiz econômica. Eles ocorrem num momento em que o produto interno bruto de países como Brasil, China, Rússia e Turquia está crescendo menos. Mas o alvo das manifestações é diferente. Na Rússia e na Turquia, que têm governantes autoritários, os protestos são contra quem está no comando.


No Brasil, a insatisfação é mais ampla e difusa. A presidente Dilma continua bem avaliada pela população, mas as prioridades adotadas pelo governo estão sendo questionadas. Num certo sentido, é uma situação mais parecida com a da China. Os líderes chineses também têm popularidade alta, mas a nova classe média tem expectativas elevadas e a percepção de que nem todas estão sendo atendidas.

Na China, as pessoas querem menos poluição e mais seguridade social. No Brasil, mais segurança, educação e transporte público de qualidade.  

EXAME - O risco político dos mercados  emergentes está aumentando? 

Ian Bremmer - O risco sempre existiu, mas foi subestimado logo depois da crise de 2008, porque estávamos maravilhados com o crescimento desses países. Saímos da fase aguda da crise e vimos que esses países são instáveis. O risco político é muito maior do que nos mercados desenvolvidos.

Houve protestos nos Estados Unidos, como o Occupy Wall Street, e alguns menores no Japão, mas sem grandes consequências. Ninguém duvida que esses países têm democracias consolidadas. Os grupos de descontentes acabam cooptados por grandes partidos políticos ou marginalizados.

É diferente nos países emergentes, onde protestos podem mudar governos e até regimes políticos. Os investidores estão ficando cientes disso. 

EXAME - Diante disso, a relutância de alguns investidores em colocar dinheiro nos países emergentes pode  não ser só temporária? 

Ian Bremmer - Pode. O cenário externo, com uma perspectiva de aumento dos juros nos Estados Unidos, está mais difícil para os países emergentes, que também têm de lidar com dificuldades próprias. Os investidores que decidirem colocar dinheiro nesses mercados terão de entender quais governos estão, de fato, preparando a economia para enfrentar esses desafios — a de se acostumar com retornos mais voláteis.

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