O problema do Brasil é o Brasil

Ou, para ser mais exato, a degeneração do setor público que quase enlouquece quem quer, simplesmente, viver do próprio trabalho

O atual governo brasileiro não tem nenhum tipo de problema com a oposição, no Congresso, nos estados ou em qualquer outro lugar; como todo mundo sabe há muito tempo, não existe oposição no Brasil. Não tem, obviamente, dificuldades com a situação econômica internacional. Em vez de fatores que poderiam estar bloqueando o desempenho da economia brasileira, o que se verifica lá fora é justamente o contrário: uma combinação de condições e circunstâncias que só nos tem ajudado e que, na verdade, responde diretamente pela maior parte do crescimento do PIB registrado no último ano. O governo brasileiro não tem de fazer frente no momento a nenhuma sucessão de catástrofes naturais, nem teve de fazê-lo no passado próximo (ou remoto); não gasta 1 real com terremotos, erupção de vulcões, praga de gafanhotos ou peste negra, e nem, como deveria, com as secas ocasionais e as enchentes de todos os anos. Não há por aqui sinais de guerra civil, movimentos de insurreição nas ruas, brigas étnicas, de religião ou de língua. Não há problemas de escassez, sejam eles de alimentos, petróleo, minérios, água, energia. Não há, enfim, nada daquilo que em geral faz o ato de governar um desafio para o qual se exigem os talentos de um estadista de primeira classe.

O único problema sério do Brasil é o Brasil mesmo — ou melhor, a maneira pela qual o poder público foi se desorganizando, ao longo dos anos, até chegar ao estado de degeneração maligna em que vive hoje. E daí que vem, de uma forma ou de outra, a maior parte das dificuldades que o país encontra para produzir, criar riquezas, crescer, empregar gente, gerar renda, investir, poupar, distribuir os benefícios da prosperidade — e, naturalmente, os problemas que derivam disso tudo. Na sua última edição, EXAME publicou uma reportagem de capa com uma exposição detalhada e objetiva da situação de insanidade que o Estado foi criando, cumulativamente, para a economia brasileira com a construção, passo a passo, de um sistema fiscal suicida, regulamentos que bloqueiam a produção, normas burocráticas incompreensíveis, e assim por diante. Criam-se e são mantidas disposições que negam ao Brasil condições elementares de competitividade. Produzir torna-se uma tarefa cada vez mais cara. O trabalho não é recompensado. A inação imposta pela desordem administrativa retarda, encarece ou simplesmente impede o desenvolvimento da infraestrutura — e, quanto mais carente ela é, maiores são as barreiras para a operação eficaz da economia. A máquina pública, em grande parte, fugiu ao controle dos governantes. Mais que tudo, talvez, essa anarquia é um insulto à inteligência. Ela se instalou e sobrevive sob a responsabilidade do governo — mas, perversamente, os resultados que gera não são os que o governo quer. Na maior parte das vezes, aliás, esses resultados são justamente o contrário dos que o governo gostaria de obter.

A reportagem mencionada acima contém, no fundo, um programa de governo — se conseguisse resolver metade das questões ali expostas, não mais que isso, a administração da presidente Dilma Rousseff entraria para a história como a autora de uma verdadeira revolução na lógica e na eficiência do aparelho público no Brasil. Faria muito mais, só aí, que a soma de todos os projetos estratégicos, planos estruturantes e bulas ideológicas atualmente à disposição de seu governo. Mas quem conseguiria chegar lá? A mera enumeração das aberrações impostas pelo Estado à economia nacional é um atestado de quanto o Palácio do Planalto, suas dezenas de ministérios e o restante do governo são impotentes diante de uma máquina burocrática que toma as decisões reais, não obedece nem presta contas a ninguém e torna-se a cada dia mais desvinculada dos seus chefes, do público que a sustenta e dos interesses do país.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com seus 85% de popularidade, não conseguiu nada contra ela. Quis encarar o bicho, foi ignorado e desistiu de qualquer valentia.

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