Palestra do SXSW no hotel Hilton Austin: eventos realizados em pontos diversos da cidade (Julia Beverly/WireImage/Getty Images)
Publicado em 19 de março de 2026 às 06h00.
O SXSW nasceu de uma pergunta simples: o que acontece quando você coloca música, tecnologia e cultura na mesma sala? Começava ali o evento, nos anos 1980, por quatro noites, com alguns talks e 177 bandas espalhadas por 15 bares em Austin, no Texas. Ninguém, nem mesmo seus mais otimistas criadores, imaginaria a dimensão que o evento tomaria em 2026: 3.700 atrações em sete dias, delegações de mais de 40 países, o lugar onde o mercado vem ler o futuro antes de ele virar notícia.
A pergunta que criou o SXSW é mais urgente agora do que em qualquer edição anterior. Não porque o festival está no auge. Mas porque está num momento em que a resposta ainda não está dada. O SXSW completa 40 anos no estágio que seus próprios executivos chamam de prove it year. A expressão é de Brian Hobbs, VP de Música do festival, em entrevista ao Austin American-Statesman.
Os números justificam a expressão. Em 2023, a conferência atingiu 76.015 participantes. Em 2025, caiu para 37.770. Neste ano, o festival aconteceu em sete dias em vez de dez, com 1.000 bandas em vez de 2.000. Ao mesmo tempo, o impacto econômico para Austin chegou a 377,3 milhões de dólares em 2024, superando os níveis pré-pandemia.
O festival aprendeu. E o que se viu em 2026 foi um SXSW que nasceu com o lema “Keep Austin Weird” mais enxuto, tentando lembrar quem era.
A redução de tamanho ocorre em meio a mudanças políticas e econômicas nos Estados Unidos, além de transformações estruturais na própria organização do festival. “Estamos passando por um momento de incertezas, e isso influi”, diz Tracy Mann, responsável pelo desenvolvimento de negócios do South by Southwest para o Brasil. “Mesmo as empresas de tecnologia, que sempre foram as maiores apoiadoras, estão mais conservadoras, querendo menos woke. Precisamos equilibrar isso e ver para onde o evento vai.”
A mudança está ligada também ao novo formato do evento sem o Austin Convention Center, o principal hub de conferências desde 1993. O prédio foi demolido e está sendo reconstruído em um projeto avaliado em 1,6 bilhão de dólares. Sem o centro de convenções, a programação foi redistribuída por diferentes espaços no centro da cidade, incluindo hubs temáticos, hotéis como o JW Marriott e áreas como o quadrilátero entre Congress e Red River.
Neste ano, a IA já não apareceu como promessa tecnológica, mas como parte do ambiente cotidiano, impactando trabalho, relacionamentos e a sociedade. A palestra mais disputada, como sempre, foi a de Amy Webb. Desta vez, a futurista anunciou, para a surpresa de muitos, o fim do tradicional relatório anual de tendências. Segundo ela, as empresas passarão a trabalhar com um novo modelo de análise, com base no que chama de convergências. Ou seja, cruzamentos entre tendências, incertezas, forças externas e catalisadores que, juntos, produzem mudanças mais amplas e mais difíceis de reverter.
Uma dessas convergências foi a do uso de tecnologia e biologia para ampliar capacidades físicas e cognitivas. Em um dos trechos da fala, ela projetou o que aconteceria se uma pessoa chegasse a um evento com mais resistência física, sono mais eficiente e mais capacidade de processamento de informação. “Isso me torna aproximadamente 2,2 vezes mais efetiva do que a pessoa média.”
Amy Webb: futurista decreta fim das tendências isoladas (SXSW/Divulgação)
Outra convergência apresentada foi a do trabalho ilimitado. Webb a definiu como o uso de sistemas automatizados para produzir trabalho em escala, sob demanda e sem participação humana, removendo limites como tempo, atenção e fadiga. O ponto, segundo Webb, é que a automação já não atinge somente tarefas repetitivas ou físicas. Ela passa a ocupar também atividades criativas, cognitivas e relacionais.
Uma terceira convergência foi a da terceirização emocional, a transferência de conforto e companhia de pessoas para máquinas. Segundo Webb, esse fenômeno surge de um desequilíbrio entre a demanda por apoio emocional e a capacidade das relações humanas de oferecê-lo. Em muitos casos, redes tradicionais de convivência se enfraqueceram. Assim, sistemas de IA passaram a ocupar um espaço antes preenchido por pessoas.
Greg Rosenbaum, que substituiu neste ano Hugo Forrest como curador do evento, destacou alguns temas em alta. Um deles foi a humanidade na era da inteligência artificial. A IA continuou dominante no festival, mas com uma mudança de abordagem: de que forma as pessoas estão evoluindo ao lado dessas tecnologias? Outro assunto foi a criatividade em um ambiente cada vez mais tecnológico. Muitas palestras abordaram ainda as mudanças nas decisões de consumo em um ambiente digital. O foco está em entender “os empurrões digitais invisíveis” que influenciam escolhas relacionadas a marcas, artistas e criadores. Rosenbaum encerrou o discurso incentivando os participantes a circular mais entre diferentes áreas. “A serendipidade é o ingrediente secreto do SXSW”, afirmou.
Greg Rosenbaum, novo curador do SXSW: humanidade na era da IA (SXSW/Divulgação)
Se há algo que não muda em Austin é a presença de brasileiros. Em 2025, foram 2.600 inscritos. Neste ano, 2.500. Parte dessa presença se materializa na SP House, iniciativa do Governo do Estado de São Paulo que se consolidou como um dos principais pontos de encontro do Brasil no SXSW. O espaço funciona como hub de networking, negócios e economia criativa. Nesta edição, passaram por lá cerca de 20.000 visitantes. As conexões geradas resultaram em mais de 100 milhões de reais em transações. Outros estados estiveram presentes no festival. Minas Gerais estreou a Casa Minas, com uma agenda de networking e programação cultural. Para Tracy Mann, o brasileiro carrega algo que o próprio SXSW persegue: a capacidade de entender que cultura e tecnologia, juntas, podem melhorar a sociedade e as conexões humanas.
Segundo especialistas ouvidos pela EXAME, uma falha do SXSW está em deixar de fora justamente quem mais inova. China, Japão e Coreia do Sul estiveram ausentes do debate. Para Ale Fu, executiva de tecnologia e filha de chineses, a ausência da Ásia revela um mundo fragmentado. “Os espaços que antes funcionavam como pontos de encontro globais começam a refletir as mesmas divisões geopolíticas que dominam o noticiário.” De acordo com Ronaldo Lemos, cientista-chefe do ITS Rio, a China tem desenvolvido o seu próprio circuito. “É uma questão do mundo multipolar. A China ocupa um dos polos e, como consequência, cada um quer criar seus atrativos.”
O SXSW vai continuar sendo relevante sem a Ásia? Essa é uma das muitas perguntas que ficam para quem esteve aqui neste ano. O evento diminuiu de tamanho, mas tem mantido relevância. Os assuntos mudam, as ferramentas evoluem. Neste momento, vale lembrar a pergunta que criou o festival: o que acontece quando você coloca música, tecnologia e cultura na mesma sala? Esse espírito continua vivo em Austin.
SP House: hub de networking e negócios como iniciativa do Governo do Estado de São Paulo (Julia Beverly/Getty Images)
O SXSW como o conhecemos hoje, palco de discussões sobre inovação, tecnologia e futurismo, é fruto de uma mudança significativa a partir dos anos 2000
→ 1987
Primeira edição do SXSW, inicialmente focado em shows, com 177 artistas
→ 1993
Início das conferências e das palestras, com estreia no Austin Convention Center
→ 1994
Introdução das trilhas Interativa e Cinema, marcando uma mudança significativa no evento. Performance icônica de Johnny Cash
→ 1995
O festival se desdobra em três verticais: filme, música e conferências de mídia
→ 2000
Início da diversificação de temas, com destaque para tecnologia e mídia interativa. O festival se consolida como espaço de estreias importantes do cinema e de novos artistas, como Norah Jones, White Stripes e James Blunt
→ 2006
O SXSW estreia uma nova trilha: Videogames
→ 2007
Jack Dorsey cria o Twitter em 2006, mas o lançamento oficial da rede social acontece durante o SXSW do ano seguinte
→ 2008
Aos 23 anos, Mark Zuckerberg conversa com a jornalista Sarah Lacy sobre a criação do Facebook e sua ambição em relação à rede social: estimular a comunicação e a conexão entre as pessoas.
+ O Airbnb é lançado durante o festival. As duas primeiras reservas realizadas na plataforma são em Austin, uma delas do CEO da companhia, Brian Chesky
→ 2009
Um aplicativo para iPhone chamado Foursquare é oficialmente apresentado. Com o conceito de check-in em restaurantes, bares e cinemas, o app logo se torna um sucesso global.
+ Também em 2009, Ryan Graves, o primeiro CEO da Uber, palestra no SXSW para falar sobre o então novo modelo de negócios com base na chamada gig economy
→ 2010
Lançado em 2008 na Suécia, o Spotify ganha força no mercado global depois que Daniel Ek, cofundador do streaming, participa de uma palestra no evento. A mídia da época o chama de “o próximo iTunes”
→ 2013
Elon Musk ocupa o palco principal para explicar por que acredita que o futuro da humanidade está em planetas diferentes da Terra
→ 2016
Em seu segundo mandato, Barack Obama discute o engajamento político no século 21
→ 2020
O SXSW é cancelado em razão da pandemia de covid-19. Apenas algumas sessões online são realizadas
→ 2021
Como consequência das dificuldades financeiras geradas pela pandemia, a organização vende 50% das ações do festival para a PMRC, dona das revistas Rolling Stone e Billboard
→ 2022
Realizado de forma híbrida, o evento marca a volta de algumas apresentações ao vivo, como um show da cantora Dolly Parton
+ Quase 15 anos depois de falar sobre o Facebook, Mark Zuckerberg volta em um painel especial sobre o metaverso e seu conglomerado de plataformas, agora chamado Meta
→ 2025
Com nomes como Jay Graber, CEO da Bluesky, o futuro das redes sociais se torna uma discussão constante
Juliana Pio e Marc Tawil, de Austin
