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Amy Webb: Brasil pode ter ‘grandes motores econômicos’ com convergência tecnológica

Em entrevista à EXAME no SXSW, futurista aponta data centers, minerais estratégicos e agronegócio como algumas das oportunidades abertas pelas transformações tecnológicas

Amy Webb: futurista americana e CEO do Future Today Institute (	Brendon Thorne/Getty Images)

Amy Webb: futurista americana e CEO do Future Today Institute ( Brendon Thorne/Getty Images)

Juliana Pio
Juliana Pio

Editora-assistente de Marketing e Projetos Especiais

Publicado em 16 de março de 2026 às 15h15.

Última atualização em 19 de março de 2026 às 15h49.

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A futurista Amy Webb vê nas transformações tecnológicas discutidas no SXSW uma janela de oportunidade para países emergentes como o Brasil. Em entrevista à EXAME após anunciar o fim do relatório anual de tendências que apresentou por mais de uma década no festival, em Austin, Webb afirmou que a convergência entre tecnologias, tema central de sua apresentação, pode alterar a estrutura de poder global e abrir novos caminhos econômicos para o país.

Para ela, o futuro não será definido por tendências isoladas, mas pelo encontro simultâneo de várias mudanças tecnológicas, econômicas e sociais. Esse processo, que ela chama de convergência, ocorre quando diferentes forças — como inteligência artificial, biotecnologia, automação, novas cadeias de energia e transformações demográficas — passam a interagir entre si e produzem impactos maiores do que cada uma teria separadamente, redefinindo setores inteiros da economia.

Esse novo cenário, conforme a futurista, pode abrir espaço para países que antes tinham menos influência nas cadeias tecnológicas globais. “Essas oportunidades têm a ver com data centers, minerais de terras raras e mudanças na agricultura e no trabalho. Tudo isso pode se tornar grandes motores econômicos para o Brasil”, diz Webb, em conversa com a reportagem diretamente da SP House. Para ela, parcerias entre economias emergentes também podem ganhar mais peso no cenário internacional. Acompanhe a entrevista.

Como você vê o Brasil nesse cenário de convergências tecnológicas?

Acho que há muitas oportunidades no Brasil, porque as convergências que estão chegando, de certa forma, criam novas oportunidades para o país que não existiam antes. Essas oportunidades têm a ver com data centers, minerais de terras raras, mudanças na agricultura, no trabalho. Tudo isso pode ser potencialmente grandes motores econômicos para o Brasil. E também pode mudar um pouco a estrutura de poder global, dando mais alavancagem ao Brasil.

Você acha mesmo?

Acho, sim. Porque a China tem sido uma parceira de maneiras boas e ruins, assim como os Estados Unidos. Mas agora Brasil e Índia potencialmente têm essa nova parceria, uma parceria de longo prazo. São duas economias emergentes com enormes quantidades de talento e uma grande comunidade empresarial. Então acho que as condições estão dadas, mesmo com essas “tempestades” chegando. Acho que as condições estão certas para o Brasil se sair muito bem.

Você disse que empresas podem em breve controlar a camada que molda como as pessoas se sentem antes de pensar ou comprar. Que tipo de poder isso cria para as plataformas de tecnologia?

Isso cria um poder insustentável, poder demais. Se você pensar agora, e voltar ao escândalo da Cambridge Analytica, lembra disso? Aquilo já era uma enorme quantidade de poder. Observar pessoas e pensar sobre suas visões políticas e como poderiam votar.

Agora estamos falando de ordens de magnitude a mais de dados e da capacidade de entender tudo isso, fazer conexões e compreender tudo. As empresas que possuírem essa camada, essa camada de infraestrutura emocional, terão um poder enorme.

De que forma as empresas podem crescer, se adaptar e aproveitar as oportunidades desses novos cenários sem perder sua saúde?

Acho que a maioria das empresas nunca fez estratégia de longo prazo antes. Simplesmente não fez. Muitas empresas começam com uma visão, um novo produto, um novo serviço. Elas trabalham, trabalham, trabalham, lançam, se tornam populares ou algo assim, e então tudo passa a ser muito de curto prazo. Elas ficam apenas trabalhando nos números financeiros.

Toda empresa precisa ser capaz de fazer as coisas de curto prazo do negócio, as operações táticas e a execução. Mas também precisam fazer estratégia. E muitas empresas, muitas pessoas dentro das empresas dizem que estão fazendo estratégia, mas aquilo não é estratégia.

Então a principal coisa que toda empresa precisa fazer é construir essa capacidade de estratégia de longo prazo, que não é a mesma coisa que planejamento financeiro. Empresas que investirem nisso e dedicarem recursos a isso — e fizerem disso parte da gestão sênior — vão ficar bem ou pelo menos terão mais oportunidades. Todo o resto vai ter problemas.

Se estamos entrando em uma economia de “trabalho ilimitado”, o que acontece com o papel do trabalho humano no capitalismo?

Bem, foi exatamente disso que eu falei ontem. Obviamente o trabalho humano muda bastante e alguns empregos certamente vão desaparecer.

Mas temos muitos outros empregos que já têm escassez de pessoas e onde definitivamente precisamos de trabalhadores. Por exemplo, nos Estados Unidos a saúde tem uma enorme falta de profissionais. O último dado que eu vi mostra que, nos próximos dez anos, os Estados Unidos terão uma falta de cem mil médicos.

Isso já aconteceria de qualquer forma, mas é ainda pior porque temos uma população envelhecendo. A IA não pode substituir todos os médicos.

Vou dar um exemplo. Hoje de manhã estávamos descendo e um colega meu estava com um problema no olho. Meu marido, que é oftalmologista, está aqui comigo. Você pode tirar uma foto de um olho vermelho e a IA talvez diga que você é alérgico a alguma coisa. Mas meu marido levou dois segundos para dizer: “sua lente de contato está no lugar errado, faça isso e você vai ficar bem”.

Agora pense nisso em escala. Já temos uma enorme escassez nos Estados Unidos de enfermeiros, médicos e pessoas dispostas a trabalhar em hospitais. Temos escassez de encanadores e eletricistas. Então haverá uma enorme necessidade de humanos para realizar trabalho, mas precisamos incentivá-los a querer esses empregos, o que significa que precisamos pagar mais por esses trabalhos.

É um problema estrutural grande. Então eu não acho que teremos um problema de trabalho se planejarmos. Se não planejarmos, então pode acontecer exatamente o que eu disse ontem: pela primeira vez poderíamos ter o PIB subindo e o desemprego subindo ao mesmo tempo — e ambos sendo verdadeiros. Isso nunca aconteceu antes, até onde sei, em nenhum lugar do mundo. E ninguém está preparado para isso.

E no Brasil? Você conhece bem o país e os brasileiros. Acha que isso poderia ser pior lá do que em outros lugares?

Acho que é a mesma história em todos os lugares. Eu sei muito sobre o sistema de saúde nos Estados Unidos, mas não sei exatamente como é no Brasil. Mas sei que vocês têm escassez de professores no Brasil, certo? Às vezes o mesmo professor está tentando atender várias escolas em comunidades.

Vocês têm falta de professores, falta de assistentes sociais. Também têm problemas semelhantes de escassez. Então acho que isso é verdade em todos os lugares.

Nós priorizamos universidades e despriorizamos ofícios e outras áreas, para nosso próprio prejuízo.

Quando você fala de arte, paciência e resiliência, você não acha que essas qualidades são difíceis de desenvolver neste ambiente de ansiedade?

Acho que elas são difíceis de desenvolver imediatamente. Mas são habilidades que as pessoas podem construir com o tempo. O problema é que isso exige trabalho duro.

Vou voltar ao exemplo da minha filha. Ela tem essas habilidades porque meu marido e eu nos importamos muito com isso. Quando ela era pequena, nunca teve um iPad. Algumas pessoas vão jantar com os filhos e colocam um telefone na frente deles para os pais poderem conversar. Nós não fazíamos isso.

Incluíamos ela na conversa. No carro, quando era pequena, ela não tinha um iPad. Tinha que ficar entediada e olhar pela janela, e isso precisava ser suficiente.

Essas são habilidades que levam muito tempo para aprender e exigem algum sacrifício. Mas são incrivelmente importantes.

Uma das coisas que está começando a acontecer com a tecnologia é que as pessoas estão menos pacientes. Não sabemos mais ficar entediados. Não sabemos simplesmente sentar e ser resilientes sozinhos e resolver problemas por conta própria.

E isso é verdade tanto para pessoas comuns quanto para líderes empresariais. No meu trabalho eu lido o dia inteiro com líderes de empresas e vejo o mesmo problema.

Já vi alguns CEOs no último ano perderem completamente a cabeça porque não conseguiam fazer algo no telefone durante uma reunião. Ficaram furiosos porque não conseguiam acessar alguma coisa e tiveram que chamar alguém para ajudar.

Isso não é difícil de usar. E estamos falando de inteligência artificial avançada.

Qual é o maior erro que as empresas estão cometendo hoje ao tentar se preparar para essas convergências tecnológicas?

Elas estão tomando decisões baseadas no medo e no medo de ficar de fora, o FOMO.

Vou dar um exemplo: jornalistas e organizações de notícias estão entrando em parcerias com a OpenAI sem ter um plano de negócios.

Já vi isso em algumas empresas gigantes de notícias na Inglaterra e nos Estados Unidos. Elas fazem esses acordos e é ótimo no curto prazo porque recebem muito dinheiro. E as organizações de notícias precisam disso, eu entendo.

Mas não há um plano de negócios. Depois que você licencia seu arquivo, acabou. Você perdeu o valor.

Se você parar e pensar um pouco, a OpenAI precisa das organizações de notícias mais do que as organizações de notícias precisam da OpenAI.

Se você tirar um tempo e pensar em cenários de crescimento e disser à OpenAI: “esta é nossa proposta para trabalhar com vocês”, se eles disserem não, tudo bem. Eles vão voltar em algum momento, porque precisam mais de você do que você deles.

Acho que nessa corrida e com todas essas emoções, as empresas esqueceram disso.

Quanto tempo as empresas têm para se adaptar a essas mudanças?

Depende da indústria. Mas a resposta é que elas deveriam começar a agir agora. É diferente para cada setor, mas está chegando.

Este ano teremos eleições no Brasil. Se o apoio emocional passar cada vez mais para sistemas de IA, que riscos isso pode criar para a sociedade e para a democracia?

Essa é uma pergunta difícil. Acho que para qualquer sociedade e qualquer democracia, quando as coisas começam a mudar rápido demais isso pode ser ruim.

As pessoas precisam parar e pensar sobre como o mundo está mudando e o que isso significa. A IA emocional pode manipular as crenças das pessoas e isso pode impactar algo como o resultado de uma eleição.

  • *A jornalista viajou a convite da SP House, iniciativa do Governo do Estado de São Paulo durante o SXSW, em Austin (Texas)

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