Operação Fúria Épica: presidente Donald Trump autorizou ataques ao Irã em sala de guerra montada em sua residência em Mar-a-Lago, na Flórida (Daniel Torok/White House/Getty Images)
Repórter de internacional e economia
Publicado em 19 de março de 2026 às 06h00.
Acordar em um sábado e ver a notícia de que um país foi atacado pelos Estados Unidos já ocorreu duas vezes em 2026. E não são ataques triviais, mas tentativas de derrubar governos. Na Venezuela, em janeiro, o presidente Nicolás Maduro foi preso e levado para Nova York. No fim de fevereiro, um ataque aéreo, em parceria com Israel, matou o líder supremo do Irã, Ali Khamenei.
Foi a primeira vez na história em que os Estados Unidos atuaram diretamente para matar um líder estrangeiro e mostra, mais uma vez, que as regras internacionais adotadas desde 1945 estão sendo abandonadas. “Há uma ruptura da ordem global, o fim de uma ficção agradável e o começo de uma realidade severa, em que as principais potências geopolíticas estão sem limites, sem contenções”, disse o premiê do Canadá, Mark Carney, em um discurso em Davos, que já tem ares históricos.
Na ordem global criada depois de 1945, as principais potências do mundo passaram décadas sem invadir e conquistar países. Os Estados Unidos, mesmo sendo o país mais rico e bem armado do mundo, decidiram não expandir suas terras, mas usar formas de dominação mais sutis, como a instalação de bases militares em boa parte do mundo e a criação de um mercado global livre, que levou produtos como a Coca-Cola e o iPhone a quase todas as partes do planeta. Com as tarifas ampliadas desde o ano passado, Trump colocou a globalização comercial em xeque.
Agora, com os ataques, embaralha o campo militar. Nos dois casos, há um forte componente de incerteza.
Para Victor do Prado, professor de diplomacia na Sciences Po e conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), o conflito no Irã aumentou os riscos sistêmicos internacionais, criando um cenário — ainda mais — imprevisível. “Essa turbulência exacerba tensões existentes, especialmente no contexto da guerra na Ucrânia e das tensas relações entre a China e os Estados Unidos”, diz. “À medida que os governos enfrentam essas crises multifacetadas, o imediatismo se tornou ainda mais pronunciado, levando frequentemente a decisões apressadas.”
Bombardeios em Teerã: EUA e Israel acusam o país de buscar uma bomba atômica (Sepehr-M/Middle East Images/AFP/Getty Images)
Os sinais vindos dos EUA também são incertos. Em dezembro, Trump divulgou uma nova Estratégia Nacional de Segurança, que apontava uma mudança de foco: mais atenção à América Latina e ao Hemisfério Ocidental e menos a outras partes.
“Por pelo menos meio século, a política externa americana priorizou o Oriente Médio acima de todas as outras regiões. Os motivos são óbvios: o Oriente Médio foi, durante décadas, o fornecedor de energia mais importante do mundo, um palco de competição entre superpotências e repleto de conflitos. Hoje, pelo menos duas dessas dinâmicas não se aplicam mais”, diz o documento.
Mesmo após essa argumentação, os americanos atacaram o Irã. A nova estratégia defende um modelo que vigorava no século XIX: o de esferas de influência. Isso abre espaço para que outras potências, como China e Rússia, queiram aumentar seus domínios regionais. Moscou mostrou que já trabalhava com essa estratégia ao invadir a Ucrânia em 2022, e Pequim deixa claro que quer assumir o controle de Taiwan, o que traz a perspectiva de mais guerras a caminho.
Corrida armamentista
Um contexto em que potências atacam outros países livremente levará, naturalmente, a um desejo dos governos de aumentar suas defesas, o que dispara uma nova corrida armamentista.
Três dias após o ataque ao Irã, o presidente francês Emmanuel Macron fez um discurso ao lado de um submarino nuclear e prometeu investir mais em defesa. Alemanha e Japão, potências derrotadas na Segunda Guerra e que se mantiveram contidas por décadas no campo militar, também anunciaram planos de expansão, o que aproxima o mundo atual do cenário do século 19, quando várias potências médias e grandes disputavam pedaços do exterior à força e lutavam guerras em série.
A diferença, agora, é que tecnologias mais avançadas, como drones, espionagem digital avançada, como o hackeamento de câmeras de trânsito, e uso de inteligência artificial tornam as guerras ainda mais letais e com desdobramentos difíceis de prever.
Os EUA estão destruindo fábricas de mísseis do Irã, mas drones militares de 400 dólares, rápidos de produzir e fáceis de importar, são usados pelos iranianos em ataques precisos contra refinarias, aeroportos e tanques de guerra — acentuando os efeitos das guerras assimétricas.
Além disso, o Irã usa outra tática: aumentar o custo da guerra para os americanos, ao fazer um bloqueio comercial ao petróleo e atacar países vizinhos. “O Irã pode fazer pouco para contra-atacar a Marinha americana, mas tem como elevar o custo político e econômico de os EUA manterem a guerra”, diz Jonathan Hanson, professor de ciência política na Universidade de Michigan. É um plano que outros países também poderão considerar.
Emmanuel Macron: presidente da França exibiu submarino nuclear logo após ataques ao Irã e promete ampliar capacidade militar (Yoan Valat/Pool/AFP/Getty Images)
Para o Brasil, há um alerta para rever seus equipamentos militares, aumentar sua capacidade industrial na área e atualizar suas estratégias de defesa. “É preciso se preparar contra intervenções rápidas, que exigem reação imediata. Na Venezuela, a ação durou uma hora. Não é como em uma guerra normal, em que você tem tempo para ir ajustando sua defesa”, diz Rui de Almeida Silva, almirante da reserva e pesquisador sênior do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense.
Além disso, outro tema que gera debate é a designação de facções como Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho como organizações terroristas pelos EUA, o que poderia servir de justificativa para ações militares americanas no Brasil. Nicolás Maduro, afinal, foi alvo de uma operação depois de ser declarado membro do Cartel de los Soles, uma entidade cuja existência é questionada.
“Pelo histórico das relações entre Brasil e Estados Unidos, acho pouco provável que haja esse tipo de operação sem o consentimento do governo brasileiro. Mas o problema é que, dado o caráter imprevisível do governo Trump, há preocupação de que essas ações possam acontecer aqui”, diz Jorge Lasmar, coordenador da pós-graduação em Estudos de Terrorismo e Crime Transnacional da PUC-MG.
Dado o estilo de Trump, que não tem pudores em mudar de posição, é difícil prever até onde irá o apetite de ataque. “Será necessária alguma mudança na política interna dos EUA para que o país mude de direção e seja menos agressivo do que nos últimos meses”, diz Hanson. Até agora, há pouca resistência.
O Congresso não tem barrado suas ações militares, embora tenha a prerrogativa de declarar guerra. Por outro lado, os impactos dos confrontos na economia americana, como uma alta da inflação, podem levar o presidente a rever seus planos para evitar derrotas nas urnas.
Os EUA terão eleições de meio de mandato para renovar o Congresso em novembro, e uma derrota dos republicanos enfraqueceria a segunda metade do mandato. Enquanto isso, as ameaças prosseguem. Mesmo em meio aos ataques ao Irã, Trump fez ameaças ao regime de Cuba e mantém seus desejos de anexar Canadá e Groenlândia. Nos próximos meses, o premiê Mark Carney e outros chefes de governo têm cada vez mais razões para encarar uma nova “realidade severa”: o medo de virar notícia global pela manhã.
Presidente americano criou vários confrontos internacionais ao mesmo tempo
QUEM JÁ FOI ATACADO
→ Venezuela
Forças americanas prenderam o presidente Nicolás Maduro, acusado de envolvimento em tráfico de drogas. Sua vice, Delcy Rodríguez, assumiu o poder e aceitou obedecer às ordens dos EUA.
→ Irã
Ataque aéreo matou o líder supremo do Irã, Ali Khamenei. Junto com Israel, americanos fizeram diversos bombardeios ao país. Irã revidou com ataques a bases dos EUA e a países vizinhos.
→ Barcos no Caribe
Americanos passaram a afundar barcos suspeitos de levar drogas a bordo, com disparos à distância. Pelo menos 150 pessoas morreram até o começo de março.
Protestos em Havana: Trump ameaça derrubar regime cubano (Yamil Lage/AFP/Getty Images)
ALVOS EM RISCO
→ Cuba
Trump determinou um bloqueio à venda de petróleo para a ilha e tem dito que o regime socialista, no poder desde 1959, vai cair.
→ Canadá
Trump diz querer anexar o país e transformá-lo no 51o estado dos EUA.
→ Groenlândia
Presidente americano quer tomar território, hoje sob controle da Dinamarca, e diz que medida é fundamental para defesa dos EUA.
→ Espanha
País se recusou a deixar os EUA usarem base espanhola para atacar o Irã, e Trump ameaçou cortar todo o comércio entre os dois países.