Luz, câmera e máscara: o cinema reaprende a trabalhar

Sem cenas de beijos e com equipe reduzida no set, medição de temperatura... a indústria do cinema se adapta ao trabalho durante a pandemia

Uma foto do diretor espanhol Pedro Almodóvar e da atriz Tilda Swinton, ambos de máscara e proteção de plástico, revela a nova cara do dia a dia do cinema: se a sétima arte quer voltar ao trabalho, precisa seguir os protocolos de segurança. Almodóvar está filmando um curta-metragem em Madri, The Human Voice, baseado em uma peça de 1928 do francês Jean Cocteau. A Espanha, com novos casos diários de contaminação pelo novo coronavírus sob controle, difere muito da situação dos Estados Unidos, líder no número total de ocorrências. Mesmo com a situação crítica, Hollywood permitiu a volta das atividades, ainda que com regras: monitoramento constante de temperatura e equipe reduzida estão entre as novas diretrizes.Há também recomendação para que roteiristas evitem criar cenas de beijos e outras proximidades físicas. Tudo em nome da segurança.

Sabendo que promover sem parar o próprio trabalho pode soar fora do tom em um momento de preocupações mais urgentes, há até quem tenha optado pela discrição na hora de religar a câmera, ainda que esteja seguindo as normas. O diretor Sam Levinson só contou que havia filmado um novo projeto depois de concluir o trabalho. Ao lado da atriz Zendaya, com quem trabalha na série da HBO ­Euphoria, e do ator John David Washington, filho de Denzel Washington e ator do sucesso Infiltrado na Klan, Levinson escreveu o drama romântico Malcolm & Marie em uma semana e levou outros 16 dias para filmar.

A filmagem aconteceu em apenas uma locação, na Caterpillar House, uma mansão de projeto arquitetônico sustentável em Carmel, na Califórnia. A equipe, enxuta, precisou ficar em quarentena em Monterrey antes do início dos trabalhos e não podia sair da casa durante o serviço. No dia a dia, todos passavam por medição de temperatura e testes de covid-19 periodicamente. A equipe de filmagens também usou chapéus de abas largas, que ajudavam a lembrar a necessidade de manter distanciamento uns dos outros. Não mais que 12 pessoas trabalhavam ao mesmo tempo. Um chef também foi posto em quarentena junto com o grupo, preparando refeições e evitando qualquer ­comida vinda de fora.

Enquanto a pandemia não acaba e os cinemas não reabrem com capacidade máxima, Hollywood tem segurado suas produções já prontas, com medo de que não haja público e, portanto, retorno financeiro. O caso mais emblemático é Tenet, novo filme do diretor Christopher Nolan. Ele vinha havia meses investindo em sua divulgação, vendendo-o como um suspense de ficção científica sem precedentes, com um roteiro mais complexo e intrigante do que seu sucesso de 2010, A Origem. O coronavírus pôs o sonho do Oscar em ­stand by. O filme, que pretendia faturar no verão americano, teve a estreia adiada três vezes e agora deve estrear no fim de agosto. Por enquanto, a única certeza são os 205 milhões de dólares investidos pela Warner Bros.



SÉRIE

O tom sério da ficção

O debate urgente sobre abuso sexual e racismo é o tema de I May Destroy You | Guilherme Dearo

Série "I May Destroy You", na HBO Série “I May Destroy You”, na HBO

Série “I May Destroy You”, na HBO (HBO/Divulgação)

A atriz e roteirista Michaela Coel ficou famosa na TV inglesa com a comédia de toques absurdos Chewing Gum, sobre uma garota religiosa que tenta perder a virgindade. Mas as risadas ficaram para trás. Para a BBC, em parceria com a HBO, Coel produz e estrela uma série dramática baseada numa experiência pessoal traumatizante, quando foi vítima de abuso sexual. Em I May Destroy You, Coel é Arabella, escritora da geração millennial que tem sua vida transformada depois de ir a um bar e ter sua bebida adulterada com uma droga. Ao acordar no dia seguinte, passando mal, flashes de memória mostram que ela foi vítima de estupro. A partir daí, os episódios levantam um debate urgente sobre racismo e também sobre a tênue linha do que é consentimento. A atriz sabe que o tema do seriado é difícil e que pode gerar gatilhos na plateia, mas defende o processo terapêutico de refletir sobre os próprios traumas. Para evitar cenas fora do tom, a produção contou com uma “coordenadora de intimidade”, que trabalhou em séries como Sex Education.

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