Dívidas das maiores empresas do país crescem 6% em 2017

O levantamento de MELHORES E MAIORES aponta que as dívidas das 500 maiores empresas do país somaram 786 bilhões de dólares
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Daniela Rocha

Publicado em 05/07/2018 às 05:00.

Última atualização em 05/07/2018 às 05:00.

Quando se fala em dívida, a primeira ideia é que se trata de algo necessariamente ruim, sinônimo de ineficiência e má gestão. Nem sempre isso é verdade. Segundo especialistas, uma dívida pode ser “saudável” se contraída para financiar o crescimento da empresa, possibilitando um aumento da receita e do patrimônio — desde que, é claro, não fuja do controle. Ou seja, uma dívida pode ser “boa” ou “ruim”, dependendo do contexto de cada empresa. Em 2017, um ano de baixo crescimento da economia, é provável que tenha predominado a dívida do segundo tipo, de acordo com o professor Ariovaldo dos Santos, coordenador técnico da Fipecafi, fundação ligada à Universidade de São Paulo responsável pela coleta de dados de MELHORES E MAIORES, cuja edição 2018 chegará às bancas em agosto. “Com a atividade econômica fraca, as empresas tiveram maior necessidade de captar recursos externos. Dessa forma, aumentaram suas despesas financeiras e diminuíram os lucros”, afirma Santos.

Ao todo, as dívidas das 500 maiores empresas do país somaram 786 bilhões de dólares em 2017, um aumento de 6% em relação ao ano anterior. O que chama a atenção é que a relação entre as dívidas e o total de ativos era de menos de 50% no início da década. No ano passado, essa relação chegou a 61,5% — para zerar as dívidas, as empresas precisam se desfazer agora de uma fatia maior de seus bens.

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Por esse critério, as cinco empresas mais endividadas do país são estatais. No topo do ranking está o Hospital Nossa Senhora da Conceição, do Rio Grande do Sul. O valor de suas obrigações é oito vezes o valor do ativo. A instituição, controlada pelo governo federal, briga na Justiça para obter imunidade tributária por atender exclusivamente pacientes do Sistema Único de Saúde. O Grupo Hospitalar Conceição, que mantém o hospital, tem um passivo de 3 bilhões de reais, dos quais 2,6 bilhões em provisões de impostos e contribuições. “No ano passado, foram 134 milhões de reais só de atualização pela taxa Selic de impostos e contribuições”, diz Adriana Denise Acker, diretora-superintendente do grupo. Até o momento, o hospital obteve a imunidade dos impostos. Falta agora conseguir a de contribuições como INSS e PIS/Pasep.

Em segundo lugar na lista das empresas mais endividadas está a Embrapa, estatal de pesquisa agropecuária com um longo histórico de contribuições para a elevação da produtividade no campo. Nos últimos anos, porém, a empresa, que depende dos repasses do Tesouro, está sofrendo com o enxugamento dos recursos. Os salários dos funcionários consomem boa parte do orçamento, sobrando cada vez menos dinheiro para investimentos. As dívidas da Embrapa correspondem a 3,4 vezes o valor de seu ativo. A empresa, porém, minimiza esse dado. “A análise do índice de endividamento mostra apenas o efeito de operações contábeis, que não levam riscos à continuidade de nossas operações”, afirma Alexandre Barcellos, secretário-geral da Embrapa.

As distribuidoras da Eletrobras no Amazonas e no Piauí ocupam, respectivamente, a terceira e a quinta posição no ranking de endividamento. Para o economista Adriano Pires, essas empresas chegaram a uma situação financeira problemática devido a anos de má gestão e ainda sofreram com a Medida Provisória no  579, de 2012, que as obrigou a vender energia abaixo do preço de custo. O presidente da Eletrobras, Wilson Ferreira Júnior, no cargo desde julho de 2016, tem feito um bom trabalho de recuperação. A relação entre a dívida líquida e a geração de caixa passou de 6,1 vezes, no final de 2016, para 3,7 vezes, no primeiro trimestre deste ano. Além de instituir planos de demissão voluntária, ele promoveu ajustes para conter as despesas e vendeu a Companhia Energética de Goiás (Celg-D) à italiana Enel. Para Pires, a gestão de Ferreira chegou ao limite do que poderia ser feito para melhorar a situação financeira. “A saída, agora, é o governo vender as distribuidoras deficitárias”, afirma Pires.

Na mesma linha, o pesquisador Joelson Sampaio, do Observatório das Estatais da Fundação Getulio Vargas, crê que a nova Lei de Responsabilidade das Estatais — que, entre outras coisas, proíbe a indicação de políticos para cargos de comando — deva ajudar na recuperação de empresas que encolheram nos últimos anos em decorrência de corrupção e má gestão. “As estatais não podem ficar gerando prejuízos para a sociedade”, diz Sampaio. “No final, quem paga as contas são os contribuintes.” Disso, não há nenhuma dúvida.