Famosos uísques japoneses chegam ao Brasil

Single malt que remete a notas de gengibre, coco e manteiga; e variação de blended uísque imortalizada por Bill Murray desembarcam no país

É uma das cenas mais lembradas — talvez a melhor — de Lost in Translation, o filme de Sofia Coppola lançado no Brasil como Encontros e Desencontros. Em Tóquio para rodar o comercial de um uísque, o decadente ator americano Bob Harris, papel de Bill Murray, ouve as instruções do histriônico diretor japonês sem entender patavina — a aparvalhada tradutora não converte em inglês nem um décimo delas. “For relaxing times, make it Suntory time”, arrisca, afinal, o ator. “Cut, cut, cut, cut, cut!”, esbraveja o diretor, emendando uma série de frases em japonês: “Suntory é muito exclusivo. O som das palavras é importante. Esse não é um uísque comum, você sabe”. Sem entender nada, Harris acrescenta uma dose de ironia ao slogan — e o repete do mesmo jeito.

Quem protagoniza a cena, de certa forma, é um Hibiki de 17 anos, um dos rótulos mais cultuados da Suntory, a primeira marca de uísque do Japão. Em 1923, nos arredores de Quioto, Shinjiro Torii (1879-1962) montou a primeira destilaria de uísques do país, a Yamazaki. Sua ambição era criar variedades mais sutis que as escocesas — mais ao gosto, portanto, dos japoneses, segundo acreditava Torii, e mais apropriadas para experiências gastronômicas. O rótulo de número 1, porém, o Shirofuda, lançado em 1929, foi mal recebido em razão do excessivo teor defumado. Oito anos depois veio ao mundo o Kakubin, atualmente o mais vendido do Japão.

Salto para 2014: naquele ano, a empresa fundada por Torii arrematou por 16 bilhões de dólares a companhia por trás do Jim Beam, o bourbon mais consumido do mundo, e da tequila Sauza, entre outras marcas. O negócio deu origem à Beam Suntory, a terceira maior fabricante de destilados do planeta em faturamento — na frente está a Diageo, dona da Johnnie Walker, e o segundo lugar pertence à Pernod Ricard, que detém o Chivas Regal.

 (Arte/Exame)

No Brasil, a Beam Suntory mergulhou de cabeça em julho do ano passado, quando assumiu a distribuição de suas bebidas por aqui — até então, a tarefa cabia à concorrente Bacardi. O primeiro uísque do Japão posto à venda no país, em novembro do ano passado, foi o Chita, lançado em 2015. Na mesma época, a companhia deu início à comercialização de mais dois destilados do país asiático, o gim Roku e a vodca Haku, além do gim espanhol Larios. Em agosto chegou a vez do lançamento de mais dois uísques da Suntory, o Yamazaki 12 anos e o Hibiki Japanese Harmony — este bastante similar ao de Lost in Translation.

O primeiro, um single malt que remete a notas de gengibre, coco e manteiga, tem preço sugerido de 710 reais. O segundo é uma variação do blended uísque propagandea­do por Murray. Com valor sugerido de 539,90 reais, esse remete a notas de mel, casca de laranja e chocolate branco. O furor que os cerca, além dos demais rótulos da Suntory, explica-se por uma série de premiações recentes. “Quando o mundo descobriu os uísques japoneses, não faz 20 anos, a demanda explodiu”, diz Walter Celli, CEO da Beam Suntory na América Latina. Ele não revela quantas garrafas de Yamazaki e Hibiki foram despejadas no país, mas informa que já vendeu metade do volume previsto para o primeiro ano.

As perspectivas da subsidiá­ria, que cresceu 30% no ano passado, são saborosas como um single malt. Com a pandemia, a procura por seus bourbons disparou. De janeiro a agosto, as vendas de Jim Beam cresceram 284%; e as de Maker’s Mark, o bourbon mais sofisticado do portfólio, 800%. “É o tipo de uísque que mais cresce no Brasil”, afirma Celli. Os saltos, em parte, devem-se às restrições impostas ao turismo pela covid-19 — muita gente só se abastecia de bebidas desse tipo nos free shops. A companhia decidiu que em 2021 vai dobrar a quantidade de uísques à venda no Brasil e, como um samurai, ir para a guerra contra a Diageo. Por enquanto, os bons resultados merecem um brinde — em bom japonês, kampai!

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