Era uma vez um verão na Europa?

Os europeus se preparam para salvar a temporada mais quente do ano. A nova etiqueta pede deslocamentos curtos e distanciamento nas praias

De meados de junho a mea­dos de setembro é verão na Europa. Mas nunca a proximidade do calor deu tanto frio na espinha. À medida que o bloco reabre suas fronteiras internas, fica a pergunta: como será a estação mais pujante da região nos meses pós-quarentena? Ansiosos para impulsionar a economia, castigados pela pandemia do coronavírus, alguns países descortinam novas rotas. Viagens mais curtas, mais baratas, com medidas mais rígidas de higienização e com reforço do distanciamento social definem o clima.

O continente europeu, que atingiu mais de 2 milhões de infectados, continua sendo o mais afetado pela pandemia histórica, com mais de 170.000 mortes. No início de abril, o bloco divulgou um plano de ação para liberar as fronteiras internas, reativar com segurança o setor de hospitalidade — de hotéis a serviços de lazer e eventos — e reabrir conexões ferroviárias, rodoviárias, aéreas e marítimas estranguladas durante a pandemia. “Os europeus encontrarão soluções inteligentes para as férias de verão”, disse na ocasião a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

Sicília, na Itália: ajuda do governo para financiar o turismo

Sicília, na Itália: ajuda do governo para financiar o turismo (Nikon Small World/Dr. Alvaro Migotto (USP)/)

Alguns países estão flertando com a ideia de estabelecer os chamados corredores de viagem. A intenção é permitir que pessoas de países com baixos níveis de infectados viajem livremente, sem a necessidade de enfrentar uma quarentena de 14 dias em seu destino. Os bálticos Lituânia, Estônia e Letônia já criaram sua bolha para circulação, permitindo que os cidadãos dos três estados viajem entre os espaços sem ter de se autoconfinar na chegada.

O turismo representa 10% da economia da União Europeia e 5% dos empregos, segundo a Comissão Europeia. A Croácia angaria quase 25% de seu produto interno bruto com o movimento de turistas estrangeiros — a maior participação no bloco, seguida da Grécia, com cerca de 20% da economia atrelada ao setor. Destinos procurados pelas praias idílicas, ruínas históricas e rotinas refinadas, ambos os países desenham uma nova etiqueta de férias de verão, antecipando o retorno dos banhistas após dois meses de confinamento.

Nada de multidões nas praias nem espreguiçadeiras lado a lado na areia. Vale a regra do espaçamento, que vai de 1 metro e meio a 4 metros, e é obrigatório o uso de máscaras pelos funcionários dos estabelecimentos. Outros requisitos de segurança serão definidos pelos governos em acordos bilaterais no bloco.

La Muralla, na Espanha: o país é o segundo maior destino de turismo do mundo

La Muralla, na Espanha: o país é o segundo maior destino de turismo do mundo (The Verge/)

Nessa toada, cada país encontra a solução que mais lhe convém. O go­verno francês lançou a hashtag ­#Cet­EtéJeVisiteLaFrance (“Neste verão eu visito a França”). No principal destino turístico do mundo, por onde passam 90 milhões de visitantes por ano, o dinamismo do setor está muito ligado à clientela regional, que gastou 110 bilhões de euros no ano passado, quase o dobro dos visitantes estrangeiros.

No verão que se aproxima, em vista das restrições ligadas à pandemia, a parcela de turistas nacionais terá de subir para compensar a ausência de clientes internacionais distantes, como alertou o secretário de Estado do Turismo, Jean-Baptiste Lemoyne, à mídia francesa. O país corre o risco de sofrer um déficit potencial de 58 bilhões de euros. A tendência é que as pessoas optem por destinos alternativos aos centros urbanos, mais cheios.

Nas cidades da Côte d’Azur, onde o sol brilha a maior parte do ano e o turismo arrecada 7 bilhões de euros, o calendário de eventos esportivos e culturais foi cancelado. Caso do tradicional Grande Prêmio de Fórmula 1 em Mônaco e do Grande Prêmio da França. Sem seu festival de cinema pela primeira vez em 73 anos, Cannes realiza uma ação maciça de desinfecção das ruas e do transporte público para atrair o turista francês. O município também aprovou uma série de auxílios financeiros para as empresas que administram praias particulares.

A vizinha Nice cancelou o Nice Jazz Festival, um dos festivais de jazz mais visitados da Europa. Cafés, bares e restaurantes, que permanecem fechados para o público, com opções apenas de delivery, devem reabrir ao longo do mês de junho. Segundo o Groupement National des Chaînes Hôtelières (GNC), associação que une as grandes redes de hotéis, metade dos estabelecimentos está aberta, com taxas de ocupação de 20% a 30% no setor hoteleiro econômico.

Em um esforço para salvar a temporada, o governo da Sicília, na Itália, devastada pela crise, reservou um aporte financeiro de 75 milhões de euros para financiar parte dos custos de acomodação dos visitantes, além de descontos em atividades culturais. Segundo destino turístico mais visitado do mundo, a Espanha planeja um esquema de certificação governamental de segurança sanitária para estabelecimentos turísticos, uma espécie de selo contra o coronavírus.

Nice, na França: cafés fechados e baixa ocupação hoteleira

Nice, na França: cafés fechados e baixa ocupação hoteleira (/)

A nova rota dos europeus espelha as ações do setor no Brasil. “Acreditamos que a retomada das viagens de lazer se dará com o turismo doméstico. A preferência dos clientes tem sido consultar preços para embarque no final do ano, especialmente rumo ao nordeste e ao sul do país”, afirma o diretor de produtos da CVC, Sylvio Ferraz. Neste primeiro momento, a operadora de turismo percebe que os clientes estão optando por destinos mais próximos de seu local de origem, com 3 horas de voo, no máximo. Destinos de praia e sol, que são preferência entre os brasileiros, continuam liderando o ranking de desejos.

Globalmente, o perto também será o “novo longe” — pelo menos enquanto não sair a vacina contra a covid-19, doen­ça causada pelo novo coronavírus. A tendência foi verificada pelo site de viagens Airbnb, um dos mais afetados pela pandemia.

“Viajar nesse novo mundo será diferente, e precisamos evoluir de acordo com isso. As pessoas vão querer opções mais próximas de casa, mais seguras e mais acessíveis”, vaticinou o fundador Brian Chesky. Para os profissionais do setor, a nova era do turismo pós-covid-19, um negócio que movimenta 1,7 trilhão de dólares globalmente, ainda traz mais incógnitas do que certezas. Mas, num verão à sombra da pandemia, cada passo merece ser comemorado.

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