Estanislau Bassols: tocar na bateria de rua tornou-se um momento para se soltar e rir (Germano Lüders/Exame)
Repórter de Casual
Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 06h00.
Há quase um ano, Estanislau Bassols, presidente da Cielo, encontrou um hobby que quebra a rotina do dia a dia e a cultura da alta performance: tocar surdo em uma bateria de rua com o intuito de se apresentar em alguns blocos de Carnaval de São Paulo. A porta de entrada para a música se deu por intermédio dos amigos, que praticam em uma escola. “Um amigo foi primeiro, depois outro, depois o terceiro, até que me convenci de ir também. No final a gente está gastando tempo juntos.”
O instrumento escolhido não foi por acaso. “O surdo é o primeiro instrumento de marcação e dita o ritmo da música.” Na prática, isso significa que um erro pode parar todo o grupo. “Se você errar no surdo, você atravessa o samba. Então é melhor parar e começar de novo.”
A rotina de práticas exige compromisso, e as quartas-feiras à noite são reservadas para os ensaios. “Preciso garantir que consigo fechar meu dia na quarta-feira até um determinado horário, mas quando não dá reponho a aula no sábado.” E, quando a rotina quebra por viagens e imprevistos, a música cobra, pois depois de faltar algumas semanas Bassols sente a evolução do grupo. “Parece que eu estava em outro planeta, já que a turma vai aumentando a velocidade e entram novos ritmos.”
Esse é um dos pontos que mais o cativam nas aulas, já que tocar significa repetir o mesmo padrão até o fim. “O ritmo muda bastante. Tocamos samba, axé e, cada vez que você muda o ritmo, tem de alterar a marcação.” A aula, aliás, não é só técnica isolada. Ele treina na Bateria de Rua (BDR), escola que toca em diferentes blocos de rua paulistanos. O desafio para Bassols é não apenas seguir a música, mas também se soltar e dançar, rir e cantar ao mesmo tempo. “E há uma regra de ouro: não pode estar de cara fechada. Tem de rir, cantar, dançar e tocar sem perder o ritmo.”
Para além do comando da Cielo, hoje com quase 7.000 colaboradores no Brasil, presença em 99% dos municípios brasileiros e 700.000 estabelecimentos comerciais ativos, e uma média de 23 milhões de transações físicas por dia e 12 milhões no e-commerce, Bassols corre e faz musculação quase todos os dias, mas reconhece que nessas atividades sua taxa de erro é baixa. “Mas minha taxa de riso também é baixa. Na bateria, acontece o inverso: minha taxa de riso é alta e minha taxa de erro acompanha.” Para alguém acostumado a buscar alta performance, ele se diverte em estar aprendendo. “É o único lugar em que fico entre o terceiro e quarto quartil de performance, porque ali não há atalhos. Estou aprendendo.”
A relação do executivo com a música já existia, só que por outra via. “Gosto muito de música. Dancei durante muito tempo diferentes ritmos. Você não vai à aula para aprender a dançar, você vai à aula para dançar.” Agora, o Carnaval entrou como uma extensão natural desse gosto por ritmo e corpo, só que em um ambiente coletivo — e, neste caso, com amigos ao redor.
A expectativa de tocar na rua está se concretizando cada vez mais com a aproximação do Carnaval, e há um detalhe que o anima: “Em geral, o surdo fica pelo canto do grupo e mais próximo dos foliões. Assim, é um dos instrumentos que acabam interagindo mais com as pessoas”.
No fundo, o instrumento combina com a maneira como ele gosta de ocupar espaço. “O surdo é muito importante para estabelecer o ritmo, mas ele não é o protagonista, embora esteja sempre presente. É como quero estar no mundo, quero fazer diferença, mas não necessariamente puxar o protagonismo.”