Câmbio para cima, eleição e cenário global complexo: o mercado em 2022

Vimos uma bonança recente no mercado brasileiro. Mas as perspectivas são desafiadoras com as eleições deste ano e um cenário global complexo no próximo ano
 (Getty Images/iStock)
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Por Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco OurinvestPublicado em 19/05/2022 05:36 | Última atualização em 18/05/2022 20:19Tempo de Leitura: 5 min de leitura

Por Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest

Mercados financeiros são efêmeros. Recentemente, vimos um período de céu de brigadeiro sem fundamentos nos mercados brasileiros, e pessoas acreditando piamente naqueles números. Em março de 2022, após tudo que vimos em 2021, observamos preços de mercado (câmbio e bolsa de valores) alcançarem patamares importantes, com a taxa de câmbio beliscando novas mínimas (entre US$/R$ 4,70 e 4,75) e o Ibovespa rodando nos 120.000 pontos. Esses números foram reflexo de um apetite inesperado pelo Brasil depois de sermos percebidos como uma opção ao fluxo que iria aos países do Leste Europeu. Afinal, somos um emergente líquido com empresas baratas diante do fraco crescimento e de taxas de juro altíssimas. Na minha visão, somente isso explica o movimento em direção ao país, já que as perspectivas de mercado para este ano são bastante desaminadoras. 

Olhem só: segundo a pesquisa Focus do BCB, o mercado estima o PIB a mero 0,7% neste ano, acelerando para mero 1% em 2023, e inflação de 7,89% neste ano, com juros de 13,25%. E ainda enfrentaremos uma corrida eleitoral. Falamos “enfrentar” mesmo, porque eleições presidenciais no Brasil são exaustivas, daquelas que desgastam. Além do que, em anos eleitorais, incertezas e surpresas chegam a níveis elevados, causando volatilidade — muita volatilidade —, o que coloca em xeque os preços de ativos. 

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Em pouco tempo já estamos vendo ajustes desses preços, e já antecipo que pode piorar. A liquidez brasileira a que me referi acima permite não só entrada fácil de ativos mas também saída na mesma velocidade, jogando a taxa de câmbio para cima e para baixo rapidamente. Porém, quando olhamos o horizonte de curto prazo, os próximos meses, eu arriscaria dizer que essa volatilidade será cada vez mais tendenciosa para cima. O mercado local se voltará para a conjuntura local, expondo todas as suas fraquezas. 

Em poucas semanas, seremos inundados por pesquisas eleitorais, mexericos de jornal, enfatizando um ou outro candidato, rumores trazendo e “destrazendo” nomes para cadeiras ministeriais, analistas de jingles de campanha. E essa ansiedade, mesmo que conhecidamente efêmera, tomará conta dos agentes de mercado e causará pressão nos preços dos ativos. E muita, mas muita volatilidade — já falei isso? O ponto adicional são as surpresas que costumam acontecer nas eleições brasileiras. As últimas duas corridas, por exemplo, foram marcadas por duas tragédias decisivas na história político-econômica brasileira. 

Neste ano, o ambiente ainda mais polarizado pode trazer novas questões a serem gerenciadas. Até o momento, não há nome forte e competitivo de terceira via (lembrando que o caráter de surpresa nas eleições brasileiras põe tudo em terreno de possibilidade real). Assim, hoje, se por um lado teremos um candidato de oposição com os dados de conjuntura fraca para atacar, por outro lado teremos o governo ávido por ser reeleito com condições de feitos fiscais para cativar eleitores. Após o terremoto das eleições, é sabido que o próximo presidente não terá tarefa fácil. A conjuntura brasileira estará bem machucada, com um cenário internacional igualmente desafiador. Meus palpites para os dois cenários prováveis:

Reeleição

Em seu quarto ano de governo, nosso atual presidente vem sofrendo quedas de “audiência”. Sua popularidade caiu nos últimos meses, junto com a frustração do ritmo da recuperação econômica. Por outro lado, Bolsonaro ainda preserva cerca de 30% da população ao seu lado, e sugere interesse em lançar mão de gastos fiscais nos próximos meses para ajudar a população a se lembrar de seu nome nas urnas. 

Nesse cenário, a manutenção de um governo atual deve levar a um tempero mais populista do que no primeiro mandato. A intenção de se descrever como um governo liberal, com agenda de privatizações, deve ser mantida. Mas medidas fiscais para segurar a imagem também serão um artefato importante. 

Um desafio será melhorar a imagem institucional do país. Não vejo muito espaço para isso, pois uma reeleição indicaria que o perfil atual é vencedor, com contínuo risco fiscal. Assim, o risco-país do Brasil deve seguir alto, com baixa atração de investimentos, sobretudo aqueles de longo prazo. É possível vermos continuidade de uma taxa de câmbio mais desvalorizada do que a de outros emergentes, crescimento baixo por falta de investimentos estruturais, e uma constante briga para a inflação ficar na meta e, consequentemente, os juros ficarem em dois dígitos. 

Eleição da oposição

A oposição tem nome — Luiz Inácio Lula da Silva. Hoje, olhando as pesquisas, Lula tem favoritismo na corrida eleitoral, com mais de 40% das intenções de voto. Olhamos como referência 2002, e acredito que iremos pelo mesmo caminho. O governo deve entregar na largada um time econômico pró-mercado e tentará melhorar a imagem institucional do Brasil. A depender das consequências da guerra no Leste Europeu, no curto prazo vejo espaço de melhoras no risco-país e, consequentemente, na atração de investimentos. Acho também que teremos um aumento de confiança importante e, portanto, crescimento econômico considerável em 2023. O ambiente para novas reformas ainda será incerto, a depender da formação do Congresso. A malemolência política desse candidato pode ajudar. Contudo, o perfil “gastão” pode falar mais alto no médio prazo, gerando inflação e desarranjo nas contas fiscais. Não há lua de mel duradoura, e a inflação seguirá presente. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.  

(Leandro Fonseca/Exame)


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