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Calculando a rota: como o vestibular virou também um teste emocional para os jovens

Como estudantes brasileiros enfrentam a escolha de qual curso seguir na faculdade

Sala de aula do ensino médio: momento que antecede uma das primeiras grandes decisões da vida escolar  (Leandro Fonseca/Exame)

Sala de aula do ensino médio: momento que antecede uma das primeiras grandes decisões da vida escolar (Leandro Fonseca/Exame)

Publicado em 25 de setembro de 2026 às 06h00.

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Aos 17 anos, a maioria dos brasileiros toma a decisão sobre o que vai estudar. É também a idade em que diversos caminhos são abertos para essa escolha: o Brasil chegou a 2024 com 45.772 cursos de graduação registrados, segundo o Censo da Educação Superior do Inep, ante pouco mais de 40.000 no ano anterior.

Essa decisão, no entanto, cai bem no meio da fase mais instável do desenvolvimento emocional humano, segundo especialistas em saúde de adolescentes. O hebiatra Maurício de Souza Lima vê esse cruzamento de perto: atende adolescentes na reta final do ensino médio no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo.

“O excesso de estímulos dopaminérgicos, como os oferecidos por aplicativos e plataformas digitais, afeta diretamente a capacidade de foco. Isso compromete o aprendizado e desencadeia uma sequência de frustrações que impactam o desempenho”, diz.

A estatística confirma o que Lima observa no consultório. Em 2019, 50,6% dos adolescentes brasileiros de 13 a 17 anos diziam se preocupar com o dia a dia “na maioria das vezes” ou “sempre”, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE.

Na edição mais recente da mesma pesquisa, em 2024, o número é 49,7%, praticamente estável ao longo desses cinco anos. Ainda assim, segundo o médico, sintomas como insônia, irritabilidade e queda de rendimento raramente são lidos como sinais de alerta nessa fase, sendo tratados apenas como parte do pacote de qualquer vestibulando.

Diante desse cenário, algumas escolas passaram a tratar a preparação emocional como parte do currículo, e não como um problema à parte da rotina de estudos. Em Recife, o Colégio Apoio reformulou o terceiro ano do ensino médio para incluir mentoria semanal e aulas de ioga e respiração, com o objetivo de dar ao aluno ferramentas para lidar com a ansiedade antes da prova, além do conteúdo para a prova em si.

A primeira turma formada sob o novo modelo obteve 94% de aprovação em vestibulares, incluindo vagas na USP e na Universidade Federal de Pernambuco. “Não é apenas sobre ser aprovado no vestibular; é passar naquilo que faz sentido para o projeto de vida do estudante”, diz Daniela Sobral, vice-diretora pedagógica do colégio. Essa mudança de abordagem também tem conexão com a família. “Acompanhar o ambiente digital dos filhos é tão importante quanto monitorar o boletim escolar”, diz Lima sobre o papel dos pais nesse processo.

Jovens pesquisam opções de curso e carreira: parte do processo de escolha que envolve estudantes e famílias (Leandro Fonseca/Exame)

Errar tem conserto

Passada a fase da escolha, outro conjunto de dados ajuda a entender o que acontece depois dela.

A maior parte dos formados brasileiros — 69,3%, de acordo com a mais recente Pesquisa de Empregabilidade do Instituto Semesp com a Workalove — continua na área para a qual estudou. Os outros 25,9% migram de área e, segundo o mesmo levantamento, ganham em média mais do que quem não tem diploma.

É esse o ponto que une o trabalho de Lima e o de Sobral, cada um do seu lado da mesa: a escolha do curso pesa menos quando é acompanhada de perto ao longo do processo, em vez de tratada como um veredito único aos 17 anos.

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