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Biotecnologia de ponta, verde – e brasileira

Especialistas de todo o mundo defendem o investimento em tecnologias verdes como uma nova fronteira de crescimento da economia. E, nessa área, o Brasil já aparece como um parceiro estratégico

São Paulo - Nove de cada 10 dólares gerados pelos negócios de biotecnologia - a ciência que cria produtos baseados na manipulação de células - ficam nos Estados Unidos. O país reina absoluto no desenvolvimento dessa indústria, que cada vez mais se faz presente em remédios, produtos agrícolas e biocombustíveis.

Mas essa realidade não está cristalizada. A indústria da biotecnologia movimenta 100 bilhões de dólares anuais. Ninguém sabe ao certo como a atual crise financeira global irá afetar os negócios. Mas, pelo menos por enquanto, os analistas mantêm o cenário otimista traçado antes das turbulências - a expectativa é que o faturamento se multiplique muitas vezes nas próximas décadas.

A corrida global para conquistar pelo menos uma parcela desse dinheiro já começou, e o Brasil tem despontado como um dos competidores mais qualificados. "Acredito que o país poderá ocupar uma posição de liderança em alguns segmentos da biotecnologia", diz Stephen Sammut, um dos autores de um artigo recente sobre empresas do setor no Brasil publicado pela revista inglesa Nature Biotechnology e sócio do Burrill & Company, fundo americano de capital de risco especializado em biotecnologia.

Uma medida do potencial de crescimento do Brasil na biotecnologia é o interesse dos grandes investidores. Os executivos do Texas Pacific Group (TPG), fundo americano com mais de 50 bilhões de dólares aplicados pelo mundo, visitam o país a cada três meses para analisar empresas de biotecnologia já existentes e buscar parceiros para criar novas.

O fundo Kidd & Company, também americano, fechou, no final do ano passado, uma parceria com a brasileira Winvest. Um dos objetivos é encontrar projetos na área farmacêutica. Segundo executivos do setor, o Burrill pretende lançar, em 2009, um fundo de 200 milhões de dólares para financiar empresas brasileiras de "ciências da vida", o que inclui as áreas de saúde, agricultura e, especialmente, biotecnologia. Oficialmente, a empresa não confirma a criação do fundo.

Dois dos maiores investidores do Vale do Silício, John Doerr e Vinod Khosla, estiveram no Brasil para conhecer especialistas da área de etanol. A dupla está por trás de alguns dos maiores sucessos da internet, como Amazon, Google e Sun, e hoje volta suas atenções para a segunda geração de combustíveis renováveis, baseada em biotecnologia.

Entre todas as aplicações possíveis, a que mais tem atraído a atenção de investidores é a biotecnologia verde, que consiste na manipulação genética de plantas e microorganismos, para a produção de alimentos e a geração de energia. Há dinheiro e há também uma fortíssima propaganda para que essas tecnologias se transformem em negócios e esses negócios ajudem a girar o motor da economia.


O jornalista-celebridade Thomas Friedman, autor de O Mundo É Plano, propõe que a corrida tecnológica em busca da energia limpa terá o poder de reerguer os Estados Unidos. Sua posição é, em parte, encampada pelo favorito a ocupar a Casa Branca a partir do próximo ano.

Entre as propostas do democrata Barack Obama está a criação de um fundo de capital de risco de 10 bilhões de dólares anuais para investimentos em energia limpa. Os biocombustíveis devem continuar a atrair a atenção dos investidores apesar da recente queda no preço do petróleo. "Até 2012, o setor de energia renovável deverá ser o principal alvo dos fundos de venture capital", diz Mark Heesen, presidente da associação que reúne esses fundos nos Estados Unidos.

Essa é uma área promissora para o Brasil: o país é a maior fronteira agrícola do mundo e o mais experiente na produção de biocombustíveis. Segundo os analistas, o setor de energia alternativa é exatamente o segmento da biotecnologia menos vulnerável à crise mundial.

Os combustíveis renováveis, tanto o etanol como os de segunda geração, são produzidos à base de uma única matéria-prima: açúcar. Esse é um dos grandes trunfos do país, segundo Fernando Reinach, diretor da Votorantim Novos Negócios, que ajudou a criar duas empresas para explorar a cana-de-açúcar: a Alellyx, que desenvolve culturas transgênicas, e a Canavialis, que pesquisa novas variedades da planta.

"Não existe lugar no mundo onde haja açúcar mais abundante e com preços tão competitivos", diz Reinach, sobre a produção local de cana. É o conhecimento dessa cultura que interessa aos estrangeiros. Grosso modo, existem dois grandes problemas na indústria da biotecnologia. O primeiro é fazer a modificação genética.

Trata-se de um estágio de laboratório, que exige capital de risco e recursos humanos e no qual os estrangeiros ainda levam vantagem. Mas o passo seguinte é igualmente importante: adaptar as descobertas para as culturas - em outras palavras, fazê-las pegar. É aí que entram os brasileiros.

Em abril deste ano, a americana Amyris, que conta com investimentos do fundo Kleiner Perkins Caufield & Byers, de John Doerr, e recentemente recebeu um aporte da Votorantim Novos Negócios (o valor não foi revelado pela companhia), se instalou no Brasil em parceria com o grupo Santelisa Vale para colocar em prática seu plano de transformar o caldo da cana primeiro em diesel e depois em gasolina e querosene de aviação.


As leveduras transgênicas da Amyris funcionam nas condições controladas dos laboratórios da Califórnia - mas é essencial contar com o conhecimento dos cientistas e dos produtores brasileiros para que a produção do diesel de açúcar tenha escala comercial. "Não havia lugar melhor do que o Brasil para transformar nossas pesquisas em negócio", afirma Roel Collier, executivo responsável pela operação da Amyris no país.

Um cenário semelhante repetiu-se no caso da soja transgênica desenvolvida pela Basf. A empresa isolou, em seu laboratório nos Estados Unidos, um gene que amplia a resistência a herbicidas. Já sua aplicação à variedade de soja mais adaptada ao Brasil - segundo maior produtor do grão do mundo - foi realizada pela Embrapa. Os royalties do produto final, que deve chegar ao mercado em dois anos, serão divididos entre a Basf e a Embrapa.

Graças à sua vocação agrícola, o país concentra investimentos na biotecnologia voltada para o campo. Mas, mundialmente, a área mais avançada é a farmacêutica. Atualmente, metade dos medicamentos que estão sendo pesquisados no mundo segue esse caminho. Alguns laboratórios especializados nas chamadas "drogas biológicas" já se tornaram gigantes da inovação.

A americana Genentech, por exemplo, faturou 12 bilhões de dólares no ano passado. No Brasil, o setor ainda é incipiente (75% das empresas da área surgiram há menos de dez anos). Mas algumas iniciativas já são reconhecidas pela qualidade da pesquisa realizada. Em junho, um levantamento realizado pela revista Nature Biotechnology destacou 19 companhias locais.

A maioria é de pequeno ou médio porte, com produtos ainda em fase de desenvolvimento. Entre elas estão a Biomm, de Belo Horizonte, a FK Biotecnologia, de Porto Alegre, a Cryopraxis Criobiologia, do Rio de Janeiro, e a Pele Nova, de São Paulo. Entre esses casos, um chama a atenção: a Coinfar, associação formada por três dos maiores laboratórios nacionais, o Aché, o Biolab e a União Química.

O investimento de 15 milhões de reais realizado pelas empresas denota uma mudança estrutural no modelo de negócios das farmacêuticas de capital nacional, extremamente dependentes dos genéricos de medicamentos criados pelas grandes multinacionais do setor.

O avanço do setor no país é notável, mas ainda há muito a ser feito. As empresas de biotecnologia não têm de competir apenas com outros setores da economia mas também com outros países - especialmente os demais emergentes.

Nos últimos três anos, seis farmacêuticas multinacionais decidiram instalar laboratórios de pesquisa básica na China. Por aqui, nenhuma multinacional tem um centro desse tipo. A China também é beneficiada pelo atual fenômeno de retorno de centenas de chineses expatriados que estudaram e trabalharam nos Estados Unidos. Cerca de 20% dos cientistas das farmacêuticas e das empresas de biotecnologia americanas são chineses.

O que vem por aí 

Por fim, o Brasil ainda terá de fortalecer seu sistema de proteção à propriedade intelectual. O país conta com uma rígida lei de patentes há 12 anos. O problema é a sua aplicação. A expedição das patentes leva tempo demais. A Alellyx, do grupo Votorantim, já registrou 14 patentes - nos Estados Unidos.

A resolução de conflitos também é lenta. Nos tribunais americanos, uma ação por quebra de patentes demora, em média, quatro anos para chegar a um veredicto. No Brasil, esse tipo de decisão leva sete anos. A postura do próprio governo nesse campo cria insegurança entre os investidores.

À frente de um grupo de países pobres, o Brasil defende, na Organização Mundial do Comércio, a flexibilização dos regimes internacionais de propriedade intelectual.

No ano passado, por exemplo, o Ministério da Saúde usou um artifício chamado "licença compulsória" para quebrar a patente do medicamento Efavirenz, do laboratório americano Merck. Como se vê, o fato de o Brasil ter condições naturais propícias para o desenvolvimento de algumas áreas da biotecnologia não significa que a briga por um lugar ao sol nessa indústria será fácil.

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