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Com R$ 4,6 bi, startups querem mudar relação entre empresas e empregadores

Startups de recursos humanos e fintechs captaram recursos para mudar a burocracia na relação entre empresas e empregadores — e estão fazendo uma disrupção no RH
Eduardo del Giglio, CEO da Caju: ambição de prestar todo tipo de serviço de rh aos clientes (Exame/Leandro Fonseca)
Eduardo del Giglio, CEO da Caju: ambição de prestar todo tipo de serviço de rh aos clientes (Exame/Leandro Fonseca)
Por Maria Clara DiasPublicado em 14/04/2022 05:36 | Última atualização em 13/04/2022 17:03Tempo de Leitura: 12 min de leitura

O olhar atento à Olist, unicórnio de Curitiba dedicado a tecnologias para a gestão de lojas virtuais, revela o valor de uma política de recursos humanos flexível para um ganho de produtividade. Após um aporte do fundo americano Wellington ­Management, em dezembro passado, a empresa, fundada em 2015, é avaliada em 1,5 bilhão de dólares. As receitas triplicam a cada ano. O número de funcionários multiplicou por quatro no ano passado: hoje são 600, e mais 300 postos de trabalho serão abertos só em 2022. Num negócio tão dependente de capital humano, um pacote de benefícios parrudo costuma ser essencial para o profissional dar tudo de si para alcançar as metas — ou pedir as contas diante de uma proposta de trabalho mais vantajosa na startup ao lado. 

A Olist tem fugido do óbvio para ser um local desejado pelos bons talentos. Além de vales-refeição (VR), alimentação (VA) e transporte, praticamente o “feijão com arroz” dos benefícios de RH, a empresa tem convênio com o Gympass, aplicativo para reserva de horário em academias e clínicas de bem-estar. Na pandemia, criou um auxílio-home office para tornar praxe o pagamento de contas de luz e internet de funcionários trancados em casa. Até pouco tempo, o trâmite para um benefício sair do papel na Olist dependia de um funcionário contatar cada prestador de serviço para firmar o convênio. “Era um verdadeiro pesadelo para o departamento de RH”, diz o fundador e CEO Tiago Dalvi. “Tudo dependia de horas e mais horas ao telefone.”

Ricardo Salem, Pedro e Guilherme Lane, da Flash: aporte de 100 milhões de dólares para financiar a expansão (Germano Lüders/Exame)

O perrengue ficou para trás após um convênio da Olist com a Caju, startup de São Paulo disposta a dar o máximo de liberdade na relação entre empresa e empregado. A tecnologia da Caju consiste num aplicativo no qual o funcionário aloca o saldo depositado pelo empregador em centenas de benefícios conveniados. Na lista estão os básicos VA/VR e mimos como estacionamento, corridas de táxi, ingressos de museus, sessões de terapia e até pacotes de streaming, como o da Netflix. As transações podem ser online ou via cartão múltiplo aceito em estabelecimentos conveniados à bandeira Visa. O sistema terceirizou à Caju a busca de benefícios corporativos, uma tarefa com pouca relação com a atividade-fim da Olist. No longo prazo, deve colaborar para a expansão nacional do unicórnio. “Não preciso mais dedicar alguém do meu time para fechar convênios em cada cidade onde temos funcionários”, diz Dalvi. “Tudo isso é um diferencial num momento de competição acirrada das startups por talentos.” 

Demandas como a da Olist abriram os olhos dos investidores para as empresas de tecnologia dispostas a simplificar as burocracias de uma firma. Trata-se de um filão com ramificações em duas categorias de startups. Uma delas são os negócios como os da Caju, dedicados a informatizar o departamento de recursos humanos — as HR techs, no jargão do setor. No ano passado, esse grupo de empresas recebeu 132 milhões de dólares em aportes na América Latina, segundo levantamento da plataforma Sling Hub. A outra categoria engloba as fintechs com sistemas para automatizar o reembolso de gastos corporativos dos funcionários, uma tarefa com potencial de tirar qualquer um do sério, a depender do volume de informações requisitadas pelo financeiro de uma empresa. Daqui para a frente, dependendo da disposição dos fundadores das startups, essas demandas hoje apartadas vão ser resolvidas de um jeito só, por elas mesmas, num modelo one stop shop. “Somos uma empresa de cartão corporativo, mas que olha para as necessidades do RH, seja em pagamentos, seja em soluções de software”, diz ­Eduardo del Giglio, CEO da Caju, destino de quase 10 milhões de dólares aportados em agosto de 2021.

(Arte/Exame)

Em comum aos dois segmentos estão também aportes cada vez maiores. Vide o exemplo da Flash Benefícios, HR tech paulistana destino de 100 milhões de dólares captados em março deste ano com fundos como Battery, Whale Rock, Tencent e Tiger Global, ou da fintech paulistana Conta Simples, que captou 21 milhões de dólares em dezembro. Num intervalo de oito anos, a soma levantada pelas 19 maiores empresas dos dois segmentos na América Latina chegou a 983 milhões de dólares, pouco mais de 4,6 bilhões de reais, segundo a plataforma Sling Hub. Ao que tudo indica, 2022 será um ano animado para o setor. Só no primeiro trimestre, as fintechs brasileiras captaram mais de 300 milhões de dólares de investidores, dos quais 14% foram para empresas de tecnologia com alguma facilidade ligada ao crédito corporativo, segundo dados da Distrito, plataforma de informações sobre startups.

Tatiana Pezoa, fundadora da Outbound Sales: mais controle após adesão ao cartão corporativo (Alexandre Battibugli/Exame)

O que explica tamanho alvoroço sobre os benefícios corporativos no Brasil? Uma parte da resposta está no empreendedorismo em si. Nunca se abriu tanta empresa como agora no país: foram 3,9 milhões de novos negócios somente no ano passado. (Atualmente, há 53 milhões de empreendedores no país.) Em grande parte desses negócios dá para contar nos dedos o número de funcionários. A função do RH não raro cai nas costas do próprio fundador. Ter um prestador de serviço dedicado a resolver burocracias como o reembolso de despesas de funcionários vira uma mão na roda para quem já tem muita encrenca para resolver. “O empreendedor costuma entender onde termina o bolso dele e onde entra o bolso da empresa”, diz Igor Senra, fundador da fintech­ Cora, uma espécie de banco digital dedicado às PMEs com quase 500.000 clientes e 310 milhões de reais em créditos concedidos por meio de cartões corporativos. A ideia da Cora é financiar os gastos dos clientes — um app moderninho exibe em tempo real a fatura para o empreendedor, capaz de cortar o crédito a qualquer sinal de gasto indevido. “Nossa finalidade é estender a mão e oferecer mais prazo, mais inteligência e um cartão corporativo para facilitar o dia a dia das PMEs”, diz Senra, que abriu o negócio ao lado do sócio Léo Mendes. A dupla já captou 150 milhões de dólares de fundos de peso como Kaszek, Tiger Global e Tencent.

Marcelo Linhares, CEO da mineira Onfly: meta de 1 bilhão de reais em transações de clientes (Divulgação/Divulgação)

Por trás da enxurrada de recursos está o fato de ainda haver espaço para um salto de qualidade no RH das empresas brasileiras. Em razão de uma legislação trabalhista com muitas exigências e pormenores, faltam condições para ir além do óbvio na agenda dos benefícios corporativos. Numa pesquisa recente da consultoria global Aon com 808 empresas brasileiras, só 8,3% disseram oferecer mimos aos funcionários para além do previsto em lei — VA, VR e vale-transporte. A mesma pesquisa, contudo, indicou uma disposição das empresas para pensar fora da caixa: 35% dos gestores entrevistados têm interesse em expandir o leque de opções à disposição dos funcionários. Em parte, o interesse tem a ver com a disputa global por talentos. Com o home office, um profissional de TI do Brasil pode ganhar em dólar trabalhando para uma empresa do Vale do Silício diretamente de casa — e, com isso, elevando a barra de exigências do mercado de trabalho local. Além disso, a demanda por tecnologias de benefícios corporativos vem sendo puxada por mudanças nas leis trabalhistas. Em novembro do ano passado, o PAT, um programa do Ministério do Trabalho para a isenção de impostos sobre os gastos das empresas com a alimentação dos trabalhadores, endureceu o controle sobre o comércio ilegal de tíquetes de alimentação, muitas vezes ainda em papel, com desconto por atravessadores dispostos a ganhar em cima da revenda dos benefícios. 

(Arte/Exame)

As exigências cada vez maiores sobre os empreendedores vêm forçando empresas a informatizar tudo o que for possível — abrindo mais oportunidades às startups do setor. Vide o caso da empreendedora paulistana Tatiana Pezoa, fundadora da edtech­ Outbound Sales, focada no treinamento de profissionais de vendas. Mesmo com certa experiência no setor e com dinheiro no bolso graças à venda de uma startup anterior, a empreendedora ouviu diversos “nãos” antes de conseguir empréstimos para contratar funcionários ou deslocar o time em novas tarefas. No início, o problema era resolvido com o uso de cartões de crédito dela mesma — apesar do risco de descontrole financeiro decorrente dessa medida. A solução foi usar uma linha de crédito da Cora, hoje responsável pela gestão de gastos na Outbound ­Sales. A medida tornou a empresa mais atraente a potenciais investidores. “Não é uma missão fácil, mas hoje é muito mais simples expandir a empresa tendo em mãos recursos financeiros e um cartão para a divisão de despesas”, diz.

Tiago Dalvi, do unicórnio Olist: Gympass e vale-streaming para reter jovens talentos (Guilherme Pupo/Exame)

Não à toa o Brasil virou prioridade para startups de benefícios corporativos fundadas em outros lugares. É o caso da francesa Swile, que desembarcou no país com a aquisição da concorrente Vee Benefícios, em dezembro do ano passado. A aquisição veio semanas depois de a empresa receber um cheque de 200 milhões de dólares numa megarrodada capitaneada pelo SoftBank e virar um unicórnio. Dona de uma fatia de 15% do mercado francês, e com 4.000 clientes mundo afora, a companhia chegou chegando: grandes empresas, como a montadora Fiat, a indústria de eletrodomésticos Whirlpool e as varejistas Renner e Marisa, já utilizam os serviços da Swile. “Até o fim do ano, vamos ter 400 funcionários no Brasil e quadruplicar o número de usuários”, diz Júlio Brito, responsável pela operação da Swile no Brasil. As mexicanas Jeeves e Clara, ambos unicórnios dedicados às facilidades dos cartões corporativos, têm utilizado o Brasil como laboratório para uma expansão global. Em operação no país desde dezembro, a Clara oferece cartões de crédito pós-pagos a PMEs em busca de mais controle financeiro — o gestor de uma empresa pode acrescentar ou reduzir o saldo a todo momento. A lista de clientes brasileiros já tem 400 nomes, entre eles o da varejista Amaro. Em breve, a Clara vai oferecer uma ferramenta de pagamentos corporativos via Pix. “Alimentamos uma competição saudável”, diz Layon Costa, diretor da Clara no Brasil. A adoção rápida de tecnologias no Brasil e a concorrência acirrada por aqui já ajudaram a empresa a testar teses e corrigir erros antes da entrada na Colômbia, no mês passado. “Queremos dominar o mercado da América Latina”, diz.

(Arte/Exame)

Os líderes do mercado tradicional de benefícios corporativos estão se movendo para fazer frente à disrupção geral desse mercado. A Ticket, uma marca do grupo francês Edenred, presente em 45 países com soluções de RH, e tradicional no Brasil com vales-alimentação e refeição, lançou recentemente um cartão multibenefícios, ao estilo do da Caju, habilitado para gastos com educação e pequenas reformas para o espaço do home office. A concorrente Sodexo, também de origem francesa, colocou no mercado uma carteira digital pré-paga para despesas com farmácia e viagens, e é habilitada a também receber recursos extras endereçados pelas empresas a seus funcionários, como os bônus de fim de ano. O produto virou uma das apostas da Sodexo, dona de uma carteira de 5,9 milhões de usuários no país. “De setembro de 2021 a fevereiro deste ano, registramos um salto de 58% no número de empresas que passaram a oferecer o benefício”, diz Rodrigo Somogyi, diretor de produtos da Sodexo.

Daqui para a frente, a dúvida é se haverá espaço para tanta gente disputando o mercado de benefícios corporativos. A aposta das startups dispostas a mudar tudo nesse setor é expandir o rol de serviços até virarem empresas completas de prestação de serviços para outras empresas — numa espécie de “anything as a service”, por assim dizer. “Nosso foco sempre será resolver dores do RH e ajudá-lo a atender a diversidade de estilos de vida e geracionais”, diz Ricardo Salem, sócio da Flash. Nos últimos meses, a startup que também tem entre seus fundadores Pedro e Guilherme Lane lançou um programa de pontos ao estilo das milhas operadas por companhias aéreas — os pontos depositados pelo RH podem ser usados pelos funcionários em qualquer estabelecimento credenciado. Para além dos mimos, muita gente vê ainda muita oportunidade na solução da burocracia corporativa. Vide o exemplo da startup mineira Onfly, fundada no fim de 2018 para gestão de viagens corporativas. Recentemente, a empresa entrou no mercado de cartões corporativos com uma conta digital por meio da qual o funcionário pode comprar um produto ou serviço e, na mesma hora, já mandar a nota fiscal da aquisição diretamente para o financeiro da empresa registrar os dados — e, assim, prepará-la para uma eventual fiscalização das autoridades, por exemplo. “Estamos falando de empresas com 50 a 500 funcionários e que enxergam a necessidade de acabar com relatórios exaustivos e com o fato de haver apenas um ou dois cartões circulando na empresa inteira”, diz Marcelo Linhares, CEO da Onfly, que captou 2 milhões de reais no ano passado e pretende triplicar de tamanho em 2022. “Queremos transacionar 1 bilhão de reais.” A depender da vontade dessas startups, a fronteira entre créditos e benefícios corporativos estará cada vez mais borrada. Com um cardápio ampliado de serviços, e livres da burocracia com a gestão do dinheiro da firma, empregados e empreendedores agradecem.